quarta-feira, fevereiro 10, 2021

A eutanásia é uma prática nazi?

    

A eutanásia é uma prática nazi?


Os Estados deveriam legislar de modo coerente com a consideração da vida humana como intangível e inviolável


Não é raro ler ou ouvir dizer que a eutanásia, que o Parlamento português recentemente despenalizou, é uma prática nazi.

Não há dúvida de que no regime nazi aconteceu o primeiro programa político de eutanásia legalizado, estudado e posto em pratica. As investigações que foram anexadas às atas do processo de Nuremberga, comprovam que, entre 1939 e 1941, foram eliminadas mais de 70 000 vidas, consideradas como “existências privadas de valor vital”.

No entanto, os argumentos defendidos pelos atuais defensores da eutanásia não são coincidentes com os do regime nazi. E, por isso, não parece poder dizer-se que a eutanásia que hoje se pratica, ou se pretende praticar, tenha uma matriz nazi. 

As motivações defendidas hoje são completamente diferentes, e podem resumir-se às seguintes: o valor da minha vida depende só de mim e da minha vontade. Se já não conseguir aguentar esta vida, em razão de um sofrimento físico ou psicológico insuportável, peço que me tirem a vida. É um direito que não me pode ser negado. Nenhuma lei se pode opor à minha vontade de morrer. Quero livremente que me tirem a vida

Na base e por detrás das motivações pessoais, o mais decisivo neste modo de pedir ajuda para morrer, é a perda do valor “objetivo” da pessoa, que é o verdadeiro fundamento das leis que despenalizam a eutanásia. Na defesa e na legalização da eutanásia materializa-se o triunfo absoluto e definitivo do individualismo e do subjetivismo. 

O individualismo e o subjetivismo, há muito dominantes nas sociedades ocidentais, não poderiam deixar de conduzir, logicamente, não só à defesa do direito à eutanásia como também à sua despenalização e consequente legalização, como recentemente aconteceu entre nós e num pequeno número de outros países.

Diante desta pretensão, que deverão fazer as sociedades?

Os legisladores que fazem e aprovam as leis, ou os Chefes de Estado que as promulgam, têm naturalmente o dever de defender as sociedades do individualismo exacerbado, e tudo fazer para que seja reconhecido o valor objetivo e não apenas subjetivo da pessoa, o que deverá levantar à volta da vida humana uma barreira de absoluta inviolabilidade. Assim o dispõe, como se sabe, a Constituição da República Portuguesa, que, no seu artigo 24º, diz expressamente que "a vida humana é inviolável".

A introdução de uma exceção de eutanásia na lei não pode ser feita sem prejudicar gravemente o direito à vida, que é o primeiro dos “direitos do homem”. “O Código Penal tem uma função expressiva, e deve a esse título traduzir os valores de uma sociedade, que está ao seu nível mais alto quando se trata da vida e da morte”, como escreveu Robert Badinter, famoso jurista francês, conhecido pela sua luta pela abolição da pena de morte.  

E por isso, os Estados, como Portugal, obrigados pela sua própria Constituição, se quiserem ser coerentes com a letra e o espírito da sua Lei Fundamental, deverão impedir e continuar a criminalizar a prática da eutanásia, porque, em razão da inviolabilidade da vida humana inocente, a ninguém pode ser dado o direito de provocar a extinção da vida de outrem, mesmo a seu pedido.




As culturas em que, por influencia do Cristianismo, se reconheceu, filosófica e juridicamente, o valor da pessoa, consideraram sempre o suicídio e particularmente a eutanásia não só como uma grave ofensa a Deus, Criador do homem, mas também como um trágico abuso de poder, um poder usurpado, e que por isso, eticamente, e também juridicamente, cada homem tem o dever de renunciar a exercer sobre a sua própria vida, e, muito mais ainda, sobre a vida de outrem, o que se aplica a todos aqueles, nomeadamente médicos, que provocam a morte por meio da eutanásia.

Ao manter a criminalização da eutanásia, os Estados estarão, em primeiro lugar, a ser coerentes com o que promulgaram nas suas Leis Fundamentais, assumindo o seu dever de defender a vida humana, desde a conceção – o que tragicamente já não acontece na maioria dos países – até ao seu fim natural.

Ao fazê-lo, isto é, ao legislar de modo coerente com a consideração da vida como intangível e inviolável, estarão também a assumir a defesa de alguns dos mais frágeis entre os seres humanos, sobretudo das crianças gravemente enfermas e incuráveis, dos idosos profundamente dependentes, dos doentes terminais, dos deficientes profundos, dos que perderam a capacidade de comunicar ou até perderam a consciência de si mesmos, e que, por isso, correm o gravíssimo risco de serem considerados como indignos de viver, e, portanto, perigosamente sujeitos, como já vemos suceder em alguns países, a uma pena de morte implacável, mesmo que se lhe dê o eufemístico de nome de eutanásia, ou morte sem dor nem sofrimento.

Aberta a porta da eutanásia, esta extensão da sua prática aos que tenham a infelicidade de possuir ou exibir “existências privadas de valor vital”, será inevitável. 

E não será preciso muito tempo para disso termos a prova. Dolorosamente. 

Mas afinal, será isto tão diferente da eutanásia que se praticou no regime nazi?


Cón. José Manuel dos Santos Ferreira









  





sexta-feira, abril 03, 2020

Uma Ladainha em tempo de pandemia


A Ladainha do Santíssimo Nome de Jesus

Cristograma IHS, uma das representações mais frequentes do Santo Nome de Jesus.
Vitral na Igreja de São Martinho, em  Montmorency, na França



Terão sido S. Bernardino de Sena (1380-1444) e S. João de Capristano (1386-1456), ambos franciscanos, a estar na origem do primeiro esboço da Ladainha do Santíssimo Nome de Jesus.
Sendo especialmente apropriado recitá-las no Tempo de Natal, tendo em conta que a memória do Santíssimo Nome de Jesus se celebra no dia 3 de Janeiro, não o será menos no final da Quaresma e na Semana Santa, em que queremos honrar o nosso Salvador pela sua agonia e pela sua Paixão, pela sua morte e sepultura, e também, já na alegria da Páscoa, pela sua Ressurreição e Ascensão.
No momento em que se abate sobre o mundo uma tremenda pandemia, dirigimo-nos, nesta Ladainha, a Jesus poderosíssimo, Pai do século futuro (cf. Isaías 9, 6), isto é, Senhor do tempo e da eternidade, entregando-Lhe humilde e confiadamente a humanidade de hoje e a de amanhã.


Ladainha do Santíssimo Nome de Jesus

Senhor, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.

Pai Celeste, que sois Deus, tende piedade de nós.
Filho Redentor do mundo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Espírito Santo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Jesus, Filho de Deus vivo, tende piedade de nós.
Jesus, Esplendor do Pai, tende piedade de nós.
Jesus, Pureza da luz eterna, tende piedade de nós.
Jesus, Rei da glória, tende piedade de nós.
Jesus, Sol de justiça, tende piedade de nós.
Jesus, Filho da Virgem Maria, tende piedade de nós.
Jesus, amável, tende piedade de nós.
Jesus, admirável, tende piedade de nós.
Jesus, Deus forte, tende piedade de nós.
Jesus, Pai do século futuro, tende piedade de nós.
Jesus, poderosíssimo, tende piedade de nós.
Jesus, pacientíssimo, tende piedade de nós.
Jesus, obedientíssimo, tende piedade de nós.
Jesus, manso e humilde de Coração, tende piedade de nós.
Jesus, que amais a castidade, tende piedade de nós.
Jesus, que nos amais, tende piedade de nós.
Jesus, Deus da paz, tende piedade de nós.
Jesus, Autor da vida, tende piedade de nós.
Jesus, Modelo das virtudes, tende piedade de nós.
Jesus, Zelador das almas, tende piedade de nós.
Jesus, nosso Deus, tende piedade de nós.
Jesus, nosso Refúgio, tende piedade de nós.
Jesus, Pai dos pobres, tende piedade de nós.
Jesus, Tesouro dos fiéis, tende piedade de nós.
Jesus, Bom Pastor, tende piedade de nós.
Jesus, Luz verdadeira, tende piedade de nós.
Jesus, Sabedoria eterna, tende piedade de nós.
Jesus, Bondade infinita, tende piedade de nós.
Jesus, nosso Caminho e nossa Vida, tende piedade de nós.
Jesus, Alegria dos Anjos, tende piedade de nós.
Jesus, Rei dos Patriarcas, tende piedade de nós.
Jesus, Mestre dos Apóstolos, tende piedade de nós.
Jesus, Doutor dos Evangelistas, tende piedade de nós.
Jesus, Fortaleza dos Mártires, tende piedade de nós.
Jesus, Luz dos Confessores, tende piedade de nós.
Jesus, Pureza das Virgens, tende piedade de nós.
Jesus, Coroa de todos os santos, tende piedade de nós.

Sede-nos propício, perdoai-nos, Jesus.
Sede-nos propício, ouvi-nos, Jesus.

De todo o mal, livrai-nos, Jesus.
De todo o pecado, livrai-nos, Jesus.
Das ciladas do demónio, livrai-nos, Jesus.
Do espírito de impureza, livrai-nos, Jesus.
Da morte eterna, livrai-nos, Jesus.
Do desprezo das vossas inspirações, livrai-nos, Jesus.
Pelo mistério da vossa Santa Encarnação, livrai-nos, Jesus.
Pelo vosso Nascimento, livrai-nos, Jesus.
Pela vossa Infância, livrai-nos, Jesus.
Pela vossa Vida Divina, livrai-nos, Jesus.
Pelos vossos trabalhos, livrai-nos, Jesus.
Pela vossa agonia e paixão, livrai-nos, Jesus.
Pela vossa cruz e abandono, livrai-nos, Jesus.
Pelas vossas angústias, livrai-nos, Jesus.
Pela vossa Morte e sepultura, livrai-nos, Jesus.
Pela vossa Ressurreição, livrai-nos, Jesus.
Pela vossa Ascensão, livrai-nos, Jesus.
Pela instituição da Santíssima Eucaristia, livrai-nos, Jesus.
Pela vossas alegrias, livrai-nos, Jesus.
Pela vossa glória, livrai-nos, Jesus.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos, Jesus.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos, Jesus.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós, Jesus.

Jesus, ouvi-nos.
Jesus, ouvi-nos.
Jesus, atendei-nos.
Jesus, atendei-nos.


Oremos:
Senhor Jesus Cristo, que dissestes: “Pedi e recebereis; procurai e achareis; batei e abrir-se-vos-á”, concedei-nos, Vos pedimos, um grande desejo do Vosso divino amor, a fim de que Vos amemos de todo o coração, por palavras e obras, e nunca cessemos de Vos louvar. Fazei-nos ter sempre, Senhor, o mesmo temor e amor pelo Vosso Santo Nome, pois não deixais de governar aqueles que estabeleceis na firmeza do Vosso amor. Vós que viveis e reinais pelos séculos dos séculos. Amen.



A reverência e a afeição com que os cristãos tratam o Santo Nome de Jesus remontam aos primeiros tempos do Cristianismo. Esta devoção estende-se também ao cristograma IHS (um monograma do Santo Nome), derivado da palavra grega IESOUS (ΙΗΣΟΥΣ), "Jesus", ou da frase latina Iesus Hominum Salvator, "Jesus, Salvador da humanidade". 


domingo, novembro 26, 2017

Quando um país se consagra a Cristo Rei

Do blog Christo Nihil Praeponere - "A nada dar mais valor do que a Cristo", transcrevo o seguinte texto: 

Em cerimónia realizada no Santuário da Divina Misericórdia, em Cracóvia, os bispos católicos da Polónia fizeram, na presença do presidente do país e de inúmeros peregrinos, a entronização de Jesus Cristo como Rei da Polónia. O acto público aconteceu durante a Missa do dia 19 de Novembro de 2016, e reuniu do lado de fora do templo cerca de 6 mil fiéis. O mesmo rito foi repetido no dia seguinte, domingo, em catedrais e paróquias de toda a Polónia.


Estátua de Cristo Rei (com mais de 52 m), existente em Swiebdzin (Polónia) (inaugurada em 21.11.2010)


Não é a primeira vez que os bispos polacos proclamam oficialmente o reinado de Nosso Senhor em seu país. As últimas cerimónias aconteceram em Jasna Góra, em 1997, e em Łagiewniki, no ano 2000. Que um rito solene como esse conte com a participação de um chefe de Estado, no entanto, é um facto inédito para a Polónia. O presidente Andrzej Duda, católico convicto, participou em toda a Missa acompanhado por sua mãe e por alguns ministros de seu governo.
"A razão providencial e mais próxima para esse acto deve ser encontrada nas revelações supostamente recebidas pela serva de Deus Rozalia Celakówna", explica o padre Paul McDonald. "De acordo com ela, o Senhor pediu para ser devidamente entronizado como Rei da nação polaca, de um modo especial e não apenas nos corações dos polacos. Isso salvaria a Polnia da próxima guerra que viria".
À parte essa revelação privada, no entanto, também o Magistério da Igreja tem um ensinamento bem claro a respeito da soberania de Cristo sobre os povos. Uma das manifestações mais importantes nesse sentido é a Carta Encíclica Quas Primas, escrita pelo Papa Pio XI e publicada em 11 de Dezembro de 1925. Nela é possível ler frases como as seguintes:
" Não recusem os chefes das nações prestar testemunho público de reverência e de obediência ao império de Cristo juntamente com os seus povos, se quiserem, com a incolumidade do seu poder, o incremento e o progresso da pátria."
" Se os homens, pública e privadamente, reconhecem o poder soberano de Cristo, necessariamente virão benefícios incríveis à inteira sociedade humana, como liberdade justa, tranquilidade e disciplina, paz e concórdia. A dignidade régia de nosso Senhor, tal como, de alguma maneira, torna sagrada a autoridade humana dos príncipes e dos chefes de Estado, assim enobrece os deveres dos cidadãos e a sua obediência."
"O dever de venerar publicamente Cristo e de lhe obedecer diz respeito não somente aos particulares, mas também aos magistrados e governantes."
Isso significa dizer que Nosso Senhor deve reinar sobre os corações, mas também sobre toda a sociedade. Se somos realmente diferentes dos animais; se possuímos de facto uma alma, para além de nosso organismo físico, rejeitar publicamente a religião significaria deformar a própria natureza humana, chamada que é a amar a Deus com todo o seu ser, tanto individualmente quanto em conjunto. Os media e a classe intelectual vêem com maus olhos acções desse tipo porque já foram contaminadas pelo vírus do "laicismo". Esquecidas do verdadeiro significado da expressão "Estado laico" — que consiste na justa e sadia separação entre a esfera civil e a espiritual —, o que elas querem, na verdade, é um "Estado ateu", que não faça menção alguma do nome de Deus, desprezando com isso a própria razão, e ignore completamente a religião de seus súbditos, transformando-se assim numa verdadeira tirania.
De facto, as tragédias do século XX — que os Papas, como Pio XI, fizeram questão de denunciar — mostram que o silêncio a respeito do Criador conduz fatalmente à divinização das criaturas, àquilo que os antigos chamavam de "idolatria". Não é que as pessoas deixem de acreditar em Deus; o que elas fazem é substituir o verdadeiro por deuses falsos: o Estado, o dinheiro, o sexo, a fama etc.

Considerando tudo isso, reconhecer Cristo como Rei significa, ao mesmo tempo, um grande "não", especialmente por parte das autoridades civis. Com isso, elas estariam a declarar: "Não, não vamos tomar o lugar de Deus"; "Não vamos aprovar leis que contrariem a realidade das coisas, tal como foram criadas por Deus"; " Não vamos construir outra Torre de Babel com os nossos actos de governo"; "Não vamos incentivar a destruição da natureza humana com leis iníquas". Para o bem de todos os homens, portanto, que se repita em muitos outros lugares, em todo o mundo!, essa consagração realizada na Polónia. E, como exclamavam os mártires católicos do México, «que viva Cristo Rey!»

quarta-feira, maio 10, 2017

Fatima: visões ou aparições?


Partilho o texto sobre este assunto publicado no «Observador»:

http://observador.pt/opiniao/fatima-visoes-ou-aparicoes/



FÁTIMA: VISÕES OU APARIÇÕES?
Leopoldo de Almeida - Martins Barata, Altar de Nossa Senhora de Fátima - Igreja de Santo Eugénio, Roma (1951)
 

 

Pode haver visões ou aparições? Como se distinguem? E que aconteceu em Fátima? Foram aparições ou simplesmente visões?

O filósofo francês Jean Guitton (1901-1999), num livro intitulado Os misteriosos poderes da fé, escrito em diálogo com o jornalista e escritor Jean-Jacques Antier, (edição francesa de 1997 e tradução portuguesa de 2000), observa que as pessoas com fé tendem a admitir que as visões ou aparições são possíveis e que até já aconteceram muitas vezes, ao passo que os descrentes ou céticos dirão que não têm qualquer consistência ou realidade, nem sequer podem existir. Para estes, aquilo a que chamamos visão ou aparição não é mais do que um estado doentio em que o protagonista se apercebe de uma sensação sem que esta tenha nenhuma causa real na sua origem. Para os crentes, porém, a aparição ou visão é uma experiência real (p. 283 da edição portuguesa).

Admitindo que possam existir, como se distinguem «visões» de aparições»?

O mesmo filósofo distingue entre visões exteriores e visões interiores. “As visões exteriores, ou visões sensíveis, ou aparições, implicam a representação de uma entidade sobrenatural – por exemplo a Virgem Maria – sob uma forma percetível aos sentidos”. Aqui, “o objeto apresenta-se no espaço real e aqueles que acompanham o vidente podem vê-lo ou não. Pelo contrário, as visões interiores são circunscritas exclusivamente à consciência do vidente, e as eventuais testemunhas não as veem” (p. 284).

A distinção essencial é, portanto, entre “visão interior, cujo objeto está circunscrito à consciência do sujeito, e a visão exterior (ou aparição), cujo objeto se apresenta sensivelmente no espaço real” (p. 285).

O teólogo francês Louis Bouyer, no seu Dicionário de Teologia, define assim o conceito de aparição: “Chama-se aparição a uma manifestação de Deus, dos anjos ou até de seres humanos que já morreram, (santos ou não), que se apresenta de uma forma que impressiona os sentidos”. E conclui: “Deus, os anjos e os santos podem manifestar-se a nós, se tal for a vontade divina, tanto por uma simples impressão sobrenatural feita sobre a nossa imaginação, como pela apresentação objetiva aos nossos sentidos de uma realidade corporal ou material de origem milagrosa” (trad. espanhola de 1990, p. 84).

E em Fátima, para aqueles que acreditam, houve visões ou aparições?

O filósofo português Carlos Henrique do Carmo Silva, num artigo publicado por ocasião do 80º aniversário dos acontecimentos de Fátima (“Aparições e experiências místicas: reflexão sobre o fenómeno de Fátima e contributo para uma sua renovada meditação espiritual”, Didaskalia, Lisboa 1998), caracteriza o que aqui aconteceu como “um celeste contacto” (p. 21), expressão que, só por si, alude à mesma “realidade objetiva” de que falam os autores anteriormente citados.

Uma aparição é, portanto, “um celeste contacto”, que ali está, “no espaço exterior”, sob a forma de “uma realidade corporal ou material”, mas indubitavelmente – e nem poderia ser de outra maneira – “de origem milagrosa”.

Assim sempre se considerou terem sido os acontecimentos de Fátima: isto é, “aparições”, e não simplesmente “visões” da Virgem Santa Maria.

“Na idílica, porém rústica, paisagem da Cova da Iria, como já nos Valinhos, e no pastoreio a que se dedicavam Lúcia, Francisco e Jacinta, surgem recortes de uma outra Presença que lhes aparece e se torna sensível”. Assim resume Carlos Henrique do Carmo Silva estes acontecimentos, fazendo notar logo de seguida que “se toma aqui a aparição não como uma visão (de diversas «imagens invisíveis», de um magma fantasmático, ou de uma clarividência confusa, semelhante à da consciência onírica...), mas na aceção do aparecer visível de uma figura, um recorte presencial que distintamente se sobrepõe ao regime do mundo da perceção habitual” (p. 37 e nota 82).

As aparições de Fátima são esta presença objetiva e exterior da Virgem, manifestada aos três Videntes, presença tão objetiva como a das árvores ou das casas, ou das próprias ovelhas que pastoreavam, distinta destas ou de quaisquer outras realidades, porém, por ser sobrenatural e de origem miraculosa.

Em sentido contrário, porém, temos um texto assinado pelo Cardeal J. Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, ao tempo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, sob o título de Comentário Teológico, e incluído num conjunto de Documentos sobre «A Mensagem de Fátima», com data de 26 de junho de 2000.

O Comentário começa por recordar a distinção perfeitamente tradicional entre os três tipos de visões:

“A antropologia teológica distingue, neste âmbito, três formas de perceção ou «visão»: a visão pelos sentidos, ou seja, a perceção externa corpórea; a perceção interior; e a visão espiritual”.

Mas, depois de ter reconhecido a existência de três tipos de visão, o Comentário limita consideravelmente o seu alcance, pois, segundo ele, quer a visão seja interna ou externa, o vidente deforma necessariamente o que viu.

O Comentário exclui em seguida categoricamente que os acontecimentos de Fátima (ou de Lourdes) possam ser visões exteriores ou sensíveis, e classifica-as deliberadamente entre as visões interiores:

“É claro que, nas visões de Lourdes, Fátima, etc., não se trata da perceção externa normal dos sentidos: as imagens e as figuras vistas não se encontram fora no espaço circundante, como está lá, por exemplo, uma árvore ou uma casa”.

Para o provar, dá um exemplo que parece incontestável:

“Isto é bem evidente, por exemplo, no caso da visão do inferno (descrita na primeira parte do «segredo» de Fátima) ou então na visão descrita na terceira parte do «segredo».

Mas também não se tratou de uma simples visão espiritual ou intelectual:

“De igual modo, é claro que não se trata duma «visão» intelectual sem imagens, como acontece nos altos graus da mística. Trata-se, portanto, da categoria intermédia, a perceção interior que, para o vidente, tem uma força de presença tal que equivale à manifestação externa sensível”. 

E acrescenta:

“Este ver interiormente não significa que se trata de fantasia, que seria apenas uma expressão da imaginação subjetiva. Significa, antes, que a alma recebe o toque suave de algo real mas que está para além do sensível, tornando-a capaz de ver o não-sensível, o não-visível aos sentidos: uma visão através dos «sentidos internos». Trata-se de verdadeiros «objetos» que tocam a alma, embora não pertençam ao mundo sensível que nos é habitual. (…) A pessoa é levada para além da pura exterioridade, onde é tocada por dimensões mais profundas da realidade que se lhe tornam visíveis”.

E insiste:

(…) As imagens por eles [os pastorinhos de Fátima] delineadas (…) também não se hão de imaginar como se por um instante se tivesse erguido a ponta do véu do Além, aparecendo o Céu na sua essencialidade pura, como esperamos vê-lo um dia na união definitiva com Deus”.

O Comentário nega, portanto, a realidade dos fenómenos exteriores, e não vê, nas visões de Fátima, senão uma perceção interior dos videntes. Para ele, em Fátima como em Lourdes, as figuras vistas pelos videntes não se encontram exteriormente no espaço!

A descrição da Virgem pelas crianças não seria, portanto, mais do que uma imagem daquilo que eles captaram interiormente. Por outras palavras, Nossa Senhora não teria vindo a Fátima: os visitantes não tiveram senão uma perceção interior da sua presença.

Esta leitura do Cardeal Ratzinger pode ser contestada?

Pode, claramente, em primeiro lugar porque, embora seja um texto oficial da Congregação para a Doutrina da Fé, não é uma “Instrução” nem uma “Notificação”, como tantas que o Cardeal Ratzinger assinou, recebendo depois a aprovação do Papa, que ordena em seguida a sua publicação. Veja-se como termina, por exemplo, uma “Instrução sobre as orações para alcançar de Deus a cura”, publicada em 14 de Setembro de 2000: “O Sumo Pontífice João Paulo II, na Audiência concedida ao abaixo-assinado Prefeito, aprovou a presente Instrução, decidida na reunião ordinária desta Congregação, e mandou que fosse publicada.

Este modo solene de conclusão com a aprovação papal não existe neste caso, o que se compreende, porque o texto em apreço não pretende ser mais do que um “Comentário”, que intencionalmente não se reveste de especial autoridade no âmbito do Magistério da Igreja. Será legítimo, portanto, se houver razões para isso, pensar de modo diferente ou até discordar sobre matérias que nele se abordam, sem prejuízo do grande respeito que nos merecerá sempre o seu Autor.

Julgo, porém, que existem muitas razões para discordar da classificação dos acontecimentos de Fátima neste género intermédio, isto é, como sendo simples visões interiores, ainda que genuínas e de origem sobrenatural.

A verdade é que a Ir. Lúcia era de uma opinião totalmente contrária: ela estava certa de ter visto realmente a Virgem Maria, como esperava um dia vê-la no Céu. Em 1924, na comissão de inquérito canónico, foi-lhe feita esta pergunta: “Tens a certeza de que viste realmente uma Senhora em cima da carrasqueira e de que não te enganaste?”

E Lúcia respondeu: “Tenho a certeza de que a vi e de que não me enganei; ainda que me matassem, ninguém me faria dizer o contrário”.

“E quem era essa Senhora?”

Respondeu: “Antes de ela dizer que era a Senhora do Rosário, não sabia quem era; agora estou convencida de que era Nossa Senhora” (Documentação Crítica de Fátima, doc. 82, p. 324).

No decurso da sua vida, a Ir. Lúcia não teve só visões sensíveis ou aparições, mas foi sujeita aos três tipos de visões acima referidos. As inspirações que receberá do Céu em resposta às suas interrogações serão frequentemente uma perceção interior. Já a visão de Tuy (13 de Junho de 1929) deverá, pelo contrário, integrar-se no segundo tipo, pois a Ir. Lúcia diz que viu, e não há nenhuma razão para duvidar do seu testemunho. Mas as personagens ou objetos desta imagem não estavam presentes fisicamente, em particular Deus Pai: portanto, dificilmente pode tratar-se de uma visão sensível.

A visão do inferno pode igualmente ser inserida nesta categoria, visto que, como nota o Comentário do Cardeal Ratzinger, o fogo não se ateou na Cova da Iria! Claro que o inferno não esteve, fisicamente, diante dos pequenos videntes: eles viram-no graças àquela luz que emanava das mãos da Virgem.

Mas o facto de a visão do inferno ser da categoria das visões imaginativas, não prova que o resto da visão o seja, pois, como diz Adolfo Tanquerey, numa obra clássica sobre o assunto, nada impede que haja diversas perceções diferentes no decurso de uma mesma aparição. Esta dupla perceção já se produziu, aliás, na primeira aparição de 13 de Maio de 1917. Pelo reflexo vindo das mãos da Virgem, os pastorinhos viram-se em Deus: esta visão é muito provavelmente uma visão interior, que vem acrescentar-se à visão sensível da Senhora. Nas aparições de 1917, é fácil discernir as visões interiores, pois elas são precedidas de um gesto de abertura das mãos da Virgem e por um raio de luz que emana das suas mãos, como para materializar a graça da visão dada.

Mas as visões de Nossa Senhora são seguramente visões sensíveis. É seguro que a Virgem Maria apareceu aos pastorinhos sob uma forma exterior sensível. O carácter ofuscante das aparições é também uma prova da realidade do corpo glorioso da Santíssima Virgem. A Lúcia foi muitas vezes obrigada a baixar os olhos, tão viva era a luz que emanava da Virgem. O Cón. Formigão perguntou-lhe:

– Por que razão não raro baixas os olhos deixando de fitar a Senhora?

– É que ela às vezes cega (Documentação Crítica de Fátima, p. 58)

Na narrativa que fez da aparição de 13 de Outubro, disse:

“Veio no meio dum esplendor. Desta vez também cegava. De vez em quando eu tinha de esfregar os olhos” (J. de Marchi, Era uma Senhora mais branca que o sol, p. 177).

Também os fenómenos físicos que acompanharam os acontecimentos de Fátima e foram observados por numerosas testemunhas, não podem ser frutos de uma visão imaginativa. O seu número é impressionante. Esses fenómenos exteriores manifestam sem qualquer dúvida possível a presença efetiva de uma pessoa celeste.

Não só os videntes, mas também muitos daqueles que tiveram a graça de assistir (exteriormente) às aparições observaram esses fenómenos físicos, e isto em todas as aparições e não somente por ocasião do milagre do sol. Em parte nenhuma fora de Fátima, a Virgem rodeou a sua vinda e autenticou a sua presença de tantos sinais tão extraordinários. E essas testemunhas eram particularmente numerosas: cerca de 50 na 2ª aparição, 3 a 4000 na 3ª, 18 a 20.000 na 4ª, 25 a 30.000 na 5ª e cerca de 70.000 na última, estando alguns por vezes a vários quilómetros do lugar das aparições!

Por ocasião dos acontecimentos de Fátima, as testemunhas mais próximas puderam observar diversos fenómenos dificilmente atribuíveis a visões interiores. Mas outros fenómenos puderam ser observados por um grande número de testemunhas exteriores.

Foram eles os seguintes:

        I – Relâmpagos, que sempre antecedem as Aparições. Trovões, no momento preciso da Aparição, ou no seu termo, e cuja origem parecia provir da azinheira.

        II – Curvatura do arbusto, como se tivesse estado coberto por um manto, e com as folhas todas inclinadas na mesma direção (na segunda Aparição).

        III – Perfume, de essência nova e desconhecida, evolando-se do ramo da azinheira cortado dos Valinhos, e sentido pela senhora Maria Rosa e circunstantes, após a quarta Aparição.

        IV – Nubescente globo luminoso, avançado de Este para Oeste, e deslizando majestosamente através do espaço, até tocar a azinheira (na quinta Aparição).

        V – Nuvem branca ou matizada, e de vista agradabilíssima, que várias vezes se formou em torno dos Videntes, com vaporizações de fumo ascendente até cinco ou seis metros de altura. E, isto, por três vezes bem distintas, na mesma Aparição.

        VI – Chuva evanescente de rosas, com rosinhas brancas, maiores vistas de longe, e que, pouco a pouco, se vão tornando mais pequenas, com o aproximarem-se do chão, até desaparecendo de todo.

        VII – Diminuição da luz solar em pleno meio-dia, sem nuvens nem eclipses. Viam-se a Lua e as estrelas. Este fenómeno verificou-se em todas as Aparições, à excepção da última. Quanto à primeira Aparição, não se sabe.

        VIII – Milagre do Sol, que, segundo os testemunhos, consta de três fases:

a) O Sol torna-se opaco, com reflexos de madrepérola; pode-se fixar sem dificuldade, havendo ausência absoluta de nuvens e de eclipse;

b) Irradiações de cores, com rotação em feixes irisados que se difundem por todo o céu, semelhantes a fogo-de-artifício,

c) Movimento do disco solar, como que aumentando, ao princípio e dando a sensação de se precipitar sobre a terra; em seguida, movimento de translação do disco sobre o firmamento, de relance, tanto em linha retilínea, como quebrada.

“Em geral, podemos dividir, em duas classes, todos estes fenómenos: a primeira consta de fenómenos instantâneos; a segunda, de fenómenos estáveis. Os primeiros foram os relâmpagos e os trovões; os segundos, todos os outros. Compreende-se desta forma que Fátima se tenha imposto e triunfado..." (Sebastião Martins dos Reis, “Síntese crítica de Fátima”, Junta Distrital de Lisboa, Boletim Cultural, 1987/68. p. 86-88).  

O Cardeal J. Ratzinger foi eleito Papa em 2005. O seu pensamento sobre Fátima mudou?

Os seguintes pronunciamentos falam por si:

1. “Decorre hoje o nonagésimo aniversário das APARIÇÕES de Nossa Senhora em Fátima. Com o seu veemente apelo à conversão e à penitência é, sem dúvida, a mais profética das APARIÇÕES modernas. Vamos pedir à Mãe da Igreja, Ela que conhece os sofrimentos e as esperanças da humanidade, que proteja nossos lares e nossas comunidades”. (Papa Bento XVI, 13/5/2007)
2. "Prova disto mesmo é este lugar bendito. Mais sete anos e voltareis aqui para celebrar o centenário da primeira VISITA feita pela Senhora «vinda do Céu», como Mestra que introduz os pequenos videntes no conhecimento íntimo do Amor Trinitário e os leva a saborear o próprio Deus como o mais belo da existência humana." (Papa Bento XVI, 13/5/2010)

3. "Com a família humana pronta a sacrificar os seus laços mais sagrados no altar de mesquinhos egoísmos de nação, raça, ideologia, grupo, indivíduo, VEIO DO CÉU a nossa bendita Mãe oferecendo-Se para transplantar no coração de quantos se Lhe entregam o Amor de Deus que arde no seu. Então eram só três, cujo exemplo de vida irradiou e se multiplicou em grupos sem conta por toda a superfície da terra, nomeadamente à passagem da Virgem Peregrina, que se votaram à causa da solidariedade fraterna. Possam os sete anos que nos separam do centenário das APARIÇÕES apressar o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria para glória da Santíssima Trindade. (Papa Bento XVI, 13/5/2010)

4. «O meu pensamento vai para Nossa Senhora de Fátima, de quem hoje recordamos a última APARIÇÃO. À Celeste Mãe de Deus vos confio, caros jovens, para que possais generosamente responder à chamada do Senhor.» (Papa Bento XVI, 13/10/2010).



sábado, abril 01, 2017

A ressurreição de Lázaro e as duas etapas da conversão


Orígenes, grande teólogo do séc. III (+ 253) explica assim a ressurreição de Lázaro[1]: a sua alma tinha-o deixado; ela tinha ido para a «morada dos mortos». De lá foi trazida de novo; penetrou no sepulcro. Desde que a pedra foi retirada, Jesus apercebe-se disso. Daí a sua oração: «Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido. Eu bem sei que sempre Me ouves, mas falei assim por causa da multidão que nos cerca, para acreditarem que Tu Me enviaste (João 11, 41-42)». Por fim, a ordem de Jesus comunica a essa alma a «tensão» ou energia[2], necessária à ressurreição do morto. “Dito isto, bradou com voz forte: «Lázaro, sai para fora»” (João 11, 43). O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário. Disse-lhes Jesus: «Desligai-o e deixai-o ir»” (João 11, 44).
Ressurreição de Lázaro - Catacumbas da Via latina (séc. IV)
 

Pinturas muito antigas do séc. III na Catacumba de Calisto e uma pintura do séc. IV na Catacumba de Domitila mostram Lázaro liberto das suas ligaduras e já a caminhar. Mas também há muitos casos em que é representado ainda ligado e por vezes curvado. Noutros casos, porém, Lázaro aparece já a andar. Quando o representam a andar, essas imagens querem mostrar Lázaro a obedecer à voz de Cristo, que lhe diz: “Lázaro, sai para fora”.
Ressurreição de Lázaro - Catacumba dos Santos Marcelino e Pedro (séc. III)
 
Como é que ele anda, com os pés ainda ligados? Muitos Padres viram aqui um sinal do poder da graça de Deus. Santo Agostinho diz que não era pelos seus próprios pés que ele andava, mas graças ao poder d’Aquele que lhe ordenava que saísse. “Era o efeito do poder do Senhor, não das forças da morte”[3], diz Santo Agostinho, que não perde de vista que esse passo em frente de Lázaro simboliza a confissão das faltas e a decisão de mudar de vida, para a qual o homem não encontra forças em si mesmo, mas só na graça de Deus. Este Lázaro, que depois é liberto das faixas com que estava ligado, é considerado, desde Santo Ireneu, o símbolo do homem preso nos seus pecados. É por isso que o Senhor diz: “Desligai-o e deixai-o ir”[4].

Para Orígenes, tal como para Santo Agostinho, o relato de S. João põe em cena duas etapas da conversão: o arrependimento inicial, simbolizado pela saída do túmulo, e a remissão dos pecados concedida pelo Senhor, manifestada pela remoção das vestes funerárias. “O discípulo de Jesus, escreve Orígenes, pode verificar como é que este homem sai do túmulo, graças à voz de Jesus, mas ainda ligado e atado pelas faixas dos seus próprios pecados, vivo pelo arrependimento ao escutar a voz de Jesus, mas com os pés e as mãos ainda presos pelas ligaduras dos mortos, porque ainda não foi liberto dos laços do pecado, e ainda não pode andar com os pés livres nem realizar livremente o bem”. “Em relação a libertar-se inteiramente do túmulo, ainda é incapaz de o fazer, enquanto continuar ligado”; “mas, depois de Jesus falar àqueles que o deviam desligar, (...), Lázaro ficou com os pés e as mãos livres; quando depôs o véu que lhe tinha coberto o rosto e que lhe foi tirado, começou a andar, de maneira a integrar-se também no meio daqueles que se põem à mesa com Jesus”[5]. Estas duas etapas da ressurreição de Lázaro, Orígenes vê-as já no tempo presente; para Agostinho, a primeira é já aqui na terra, mas a segunda é a vida futura; pois se, em resposta ao apelo de Cristo, o homem já pode caminhar nas vias de Deus, é com uma liberdade ainda ‘coxa’: esta liberdade só será total na ressurreição escatológica[6].

Quem desliga Lázaro? S João não o concretiza, e os Padres hesitaram neste ponto. Para Orígenes, trata-se “daqueles que o podem desligar”, “aqueles que lhe podem prestar esse serviço”: são evidentemente os ministros da Igreja[7]; o mesmo para santo Ambrósio de Milão, mesmo sendo tão impreciso como Orígenes sobre este ponto[8]. Santo Agostinho, por sua vez, é totalmente explícito: “Foi dito aos ministros, que são os apóstolos: «Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu» (Mateus 16, 19)”, e portanto, as palavras de Jesus: «Desligai-o e deixai-o ir” são uma ordem dada àqueles que, na Igreja, são os seus sucessores[9].

É sem dúvida por alusão a este poder eclesiástico de perdoar os pecados, que se vêem por vezes, já antes da época de Constantino, dois apóstolos que rodeiam Cristo quando ressuscita Lázaro. Não são as tradicionais cabeças de discípulos que povoam o fundo de várias cenas nos sarcófagos: têm a mesma estatura que Jesus e são representados de pé[10].

É, portanto, mediante o ministério apostólico e sacerdotal que acontece a definitiva libertação do pecado e da morte, pelo poder e autoridade de Cristo.



[1] In Iohan. 28, 6 e 7.
[2] Em grego, ‘eutonia’.
[3] Comentário ao Salmo 101, 2, 3.
[4] Adversus haerees, 5, 13
[5] In Iohan. 28, 57. 59. 60.
[6] Div. Quaest., 65.
[7] In Iohan. 28, 54.
[8] Paen. 2, 58.
[9] In Iohan. 22, 7.
[10] Cf. Les Pères de l'Eglise dans le monde d'aujourd'hui, editado por Cristian Badilita,Charles Kannengiesser,New Europe College, Editions Beauchesne, 2006, p. 145-146.