Na
Encíclica Redemptoris Mater, publicada em 25 de Março de 1987, o Beato
João Paulo II reflectiu longamente sobre a fé de Maria.
Vale
a pena reler estas palavras e aferir a sua mensagem. Numa homilia na Casa de Santa Marta, em 20 de Dezembro de 2013, o Papa Francisco,
falando da presença de Maria no Calvário, aludiu às meditações de João Paulo II sobre a fé de Maria nesse momento.
Mas
que dizia exactamente João Paulo II?
O
ponto em que o Papa Wojtyla fala de Maria no Calvário é o que se encontra no nº. 18. Mas
vale a pena ler toda a secção da Encíclica em que este número se insere.
Feliz daquela que acreditou
12. Logo depois de ter narrado a Anunciação, o
Evangelista São Lucas faz-nos de guia, seguindo os passos da Virgem em direcção
a "uma cidade de Judá" (Lc 1, 39). Segundo os estudiosos, esta cidade
devia ser a "Ain-Karim" de hoje, situada entre as montanhas, não
distante de Jerusalém. Maria dirigiu-se para lá "apressadamente",
para visitar Isabel, sua parente. O motivo desta visita há-de ser procurado
também no facto de Gabriel, durante a Anunciação, ter nomeado de maneira
significativa Isabel, que em idade avançada tinha concebido do marido Zacarias
um filho, pelo poder de Deus: "Isabel, tua parente, concebeu um filho, na
sua velhice; e está já no sexto mês, ela, a quem chamavam estéril, porque nada
é impossível a Deus" (Lc 1, 36-37). O mensageiro divino tinha recorido ao
evento, que se realizara em Isabel, para responder à pergunta de Maria:
"Como se realizará isso, pois eu não conheço homem?" (Lc 1, 34). Sim,
será possível exactamente pelo "poder do Altíssimo", como e ainda
mais do que no caso de Isabel.
Maria dirige-se, pois, impelida pela caridade, a casa
da sua parente. Quando aí entrou, Isabel, ao responder à sua saudação, tendo
sentido o menino estremecer de alegria no próprio seio, "cheia do Espírito
Santo", saúda por sua vez Maria em alta voz: "Bendita és tu entre as
mulheres e bendito o fruto do teu ventre" (cf. Lc 1, 40-42). Esta
proclamação e aclamação de Isabel veio a entrar na Ave-Maria, como continuação
da saudação do Anjo, tornando-se assim uma das orações mais frequentes da
Igreja. Mas são ainda mais significativas as palavras de Isabel, na pergunta
que se segue: "E donde me é dada a dita que venha ter comigo a mãe do meu
Senhor?" (Lc 1, 43). Isabel dá testemunho acerca de Maria: reconhece e
proclama que diante de si está a Mãe do Senhor, a Mãe do Messias. Neste
testemunho participa também o filho que Isabel traz no seio: "estremeceu
de alegria o menino no meu seio" (Lc 1, 44). O menino é o futuro João
Baptista, que, nas margens do Jordão, indicará em Jesus o Messias.
Todas as palavras, nesta saudação de Isabel, são
densas de significado; no entanto, parece ser algo de importância fundamental o
que ela diz no final: "Feliz daquela que acreditou que teriam cumprimento
as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor" (Lc 1, 45). Estas
palavras podem ser postas ao lado do apelativo "cheia de graça" da
saudação do Anjo. Em ambos os textos se revela um conteúdo mariológico
essencial, isto é, a verdade acerca de Maria, cuja presença se tornou real no
mistério de Cristo, precisamente porque ela "acreditou". A plenitude
de graça, anunciada pelo Anjo, significa o dom de Deus mesmo; a fé de Maria,
proclamada por Isabel aquando da Visitação, mostra como a Virgem de Nazaré
tinha correspondido a este dom.
13. "A Deus que Se revela é devida «a obediência
da fé» (Rom 16, 26; cf. Rom 1, 5; 2 Cor 10, 5-6), pela qual o homem se entrega
total e livremente a Deus", como ensina o Concílio Vaticano II. Exactamente
esta descrição da fé teve em Maria uma actuação perfeita. O momento
"decisivo" foi a Anunciação; e as palavras de Isabel - "feliz
daquela que acreditou" - referem-se em primeiro lugar precisamente a esse
momento.
Na Anunciação, de facto, Maria entregou-se a Deus
completamente, manifestando "a obediência da fé" Àquele que lhe
falava, mediante o seu mensageiro, prestando-lhe o "obséquio pleno da
inteligência e da vontade". Ela
respondeu, pois, com todo o seu "eu" humano e feminino. Nesta
resposta de fé estava contida uma cooperação perfeita com a "prévia e
concomitante ajuda da graça divina" e uma disponibilidade perfeita à acção
do Espírito Santo, o qual "aperfeiçoa continuamente a fé mediante os seus
dons".
A palavra de Deus vivo, anunciada pelo Anjo a Maria,
referia-se a ela própria: "Eis que conceberás e darás à luz um filho"
(Lc 1, 31). Acolhendo este anúncio, Maria devia tornar-se a "Mãe do
Senhor" e realizar-se-ia nela o mistério divino da Encarnação: "O Pai
das misericórdias quis que a aceitação por parte da que Ele predestinara para
mãe, precedesse a Encarnação". E
Maria dá esse consenso, depois de ter ouvido todas as palavras do mensageiro.
Diz: "Eis a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra"
(Lc 1, 38). Este fiat de Maria -
"faça-se em mim" - decidiu, da parte humana, o cumprimento do
mistério divino. Existe uma consonância plena com as palavras do Filho que,
segundo a Carta aos Hebreus, ao vir a este mundo, diz ao Pai: "Não
quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-me um corpo... Eis que venho...
para fazer, ó Deus, a tua vontade" (Hebr 10, 5-7). O mistério da Encarnação
realizou-se quando Maria pronunciou o seu "fiat": "Faça-se em mim segundo a tua palavra",
tornando possível, pelo que a ela competia no desígnio divino, a aceitação do
oferecimento do seu Filho.
Maria pronunciou este "fiat" mediante a fé. Foi mediante a fé que ela "se
entregou a Deus" sem reservas e "se consagrou totalmente, como
escrava do Senhor, à pessoa e à obra do seu Filho". E a este
Filho - como ensinam os Padres da Igreja - concebeu-o na mente antes de o
conceber no seio: precisamente mediante a fé! Com
justeza, portanto, Isabel louva Maria: "Feliz daquela que acreditou que
teriam cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor".
Essas coisas já se tinham cumprido: Maria de Nazaré apresenta-se no limiar da
casa de Isabel e de Zacarias como mãe do Filho de Deus. É essa a descoberta jubilosa
de Isabel: "A mãe do meu Senhor vem ter comigo!"
14. Por conseguinte, também a fé de Maria pode ser
comparada com a de Abraão, a quem o Apóstolo chama "nosso pai na fé"
(cf. Rom 4, 12). Na economia salvífica da Revelação divina, a fé de Abraão
constitui o início da Antiga Aliança; a fé de Maria, na Anunciação, dá início à
Nova Aliança. Assim como Abraão, "esperando contra toda a esperança,
acreditou que haveria de se tornar pai de muitos povos" (cf. Rom 4, 18),
também Maria, no momento da Anunciação, depois de ter declarado a sua condição
de virgem ("Como será isto, se eu não conheço homem?"), acreditou que
pelo poder do Altíssimo, por obra do Espírito Santo, se tornaria a mãe do Filho
de Deus segundo a revelação do Anjo: "Por isso mesmo o Santo que vai
nascer será chamado Filho de Deus" (Lc 1, 35).
Entretanto, as palavras de Isabel: "Feliz daquela
que acreditou" não se aplicam apenas àquele momento particular da
Anunciação. Esta representa, sem dúvida, o momento culminante da fé de Maria na
expectação de Cristo, mas é também o ponto de partida, no qual se inicia todo o
seu "itinerário para Deus", toda a sua caminhada de fé. E será ao
longo deste caminho, que a "obediência" por ela professada à palavra
da revelação divina irá ser actuada, de modo eminente e verdadeiramente heróico
ou, melhor dito, com um heroísmo de fé cada vez maior. E esta "obediência
da fé" da parte de Maria, durante toda a sua caminhada, terá
surpreendentes analogias com a fé de Abraão. Do mesmo modo que o patriarca do
Povo de Deus, também Maria, ao longo do caminho do seu fiat filial e materno, "esperando contra toda a esperança,
acreditou". Especialmente ao longo de algumas fases deste seu caminhar, a
bênção concedida "àquela que acreditou" tornar-se-á manifesta com
particular evidência. Acreditar quer dizer "abandonar-se" à própria
verdade da palavra de Deus vivo, sabendo e reconhecendo humildemente
"quanto são insondáveis os seus desígnios e imperscrutáveis as suas
vias" (Rom 11, 33). Maria, que pela eterna vontade do Altíssimo veio a
encontrar-se, por assim dizer, no próprio centro daquelas "imperscrutáveis
vias" e daqueles "insondáveis desígnios" de Deus, conforma-se a
eles na obscuridade da fé, aceitando plenamente e com o coração aberto tudo
aquilo que é disposição dos desígnios divinos.
15. Na Anunciação, quando Maria ouve falar do Filho de
que deve tornar-se mãe e ao qual "porá o nome de Jesus" (= Salvador),
fica também a conhecer que "o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai
David", que ele "reinará sobre a casa de Jacob eternamente e o seu
reinado não terá fim" (Lc 1, 32-33). Era neste sentido que se orientava
toda a esperança de Israel. O Messias prometido devia ser "grande"; e
também o mensageiro celeste anuncia que "será grande": grande, quer
pelo nome de Filho do Altíssimo, quer pelo facto de assumir a herança de David.
Há-de, portanto, ser rei, há-de reinar "sobre a casa de Jacob". Maria
tinha crescido no meio desta expectativa do seu povo: estaria ela em condições
de captar, no momento da Anunciação, qual o sentido essencial que podiam ter as
palavras do Anjo, e como devia ser entendido aquele "reino", que
"não terá fim"?
Se bem que, mediante a fé, ela possa ter-se sentido
naquele instante mãe do "Messias-rei", contudo, respondeu: "Eis
a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc 1, 38). Desde
o primeiro momento, Maria professou sobretudo "a obediência da fé",
abandonando-se àquele sentido que dava às palavras da Anunciação Aquele do qual
elas provinham: o próprio Deus.
16. No caminho da "obediência da fé", ainda,
Maria, um pouco mais tarde, ouve outras palavras: aquelas que foram
pronunciadas por Simeão, no templo de Jerusalém. Estava-se já no quadragésimo
dia depois do nascimento de Jesus, quando Maria e José, segundo a prescrição da
Lei de Moisés, "levaram o menino a Jerusalém, para o oferecer ao
Senhor" (Lc 2, 22). O nascimento verificara-se em condições de extrema
pobreza. Com efeito, sabemos através de São Lucas que, por ocasião do recenseamento
da população ordenado pelas autoridades romanas, Maria se dirigiu com José a
Belém; e não tendo encontrado "lugar na hospedaria", deu à luz o seu
Filho num estábulo e "reclinou-o numa manjedoura" (cf. Lc 2, 7).
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| Nossa Senhora dos Reis (portal sul da Igreja de Santa Maria de Belém) |
Um homem justo e piedoso, de nome Simeão,
aparece naquele momento dos inícios do "itinerário" da fé de Maria.
As suas palavras, sugeridas pelo Espírito Santo (cf. Lc 2, 25-27), confirmam a
verdade da Anunciação. Lemos, efectivamente, que ele "tomou nos seus
braços" o menino, ao qual - segundo a palavra do Anjo - deram o nome de
Jesus" (cf. Lc 2, 21). Aquilo que Simeão diz está conforme com o
significado deste nome, que quer dizer Salvador: "Deus é a salvação".
Dirigindo-se ao Senhor, ele exprime-se assim: "Os meus olhos viram a tua
salvação, que preparaste em favor de todos os povos; luz para iluminar as
nações e glória de Israel, teu povo" (Lc 2, 30-32). Nessa mesma altura,
porém, Simeão dirige-se a Maria com as seguintes palavras: "Ele é destinado
a ser ocasião de queda e de ressurgimento para muitos em Israel e a ser um
sinal de contradição... a fim de se revelarem os pensamentos de muitos
corações"; e acrescenta, com referência directa a Maria: "E tu mesma
terás a alma trespassada por uma espada" (Lc 2, 34-35). As palavras de
Simeão colocam sob uma luz nova o anúncio que Maria tinha ouvido do Anjo: Jesus
é o Salvador, é "luz para iluminar" os homens. Não foi isso que, de
algum modo, se manifestou na noite de Natal, quando os pastores vieram ao
estábulo? (cf. Lc 2, 8-20). Não foi isso o que se manifestou também e ainda
mais, aquando da vinda dos Magos do Oriente? (cf. Mt 2, 1-12) . Ao mesmo tempo,
porém, logo desde o início da sua vida, o Filho de Maria, e com ele a sua Mãe,
experimentarão em si mesmos a verdade daquelas outras palavras de Simeão:
"Sinal de contradição" (Lc 2, 34). Aquilo que Simeão diz,
apresenta-se como um segundo anúncio a Maria, uma vez que indica a dimensão
histórica concreta em que o Filho realizará a sua missão, ou seja, na
incompreensão e na dor. Se este outro anúncio confirma, por um lado, a sua fé
no cumprimento das promessas divinas da salvação, por outro, também lhe revela
que ela terá que viver a sua obediência de fé no sofrimento, ao lado do
Salvador que sofre, e que a sua maternidade será obscura e marcada pela dor.
Com efeito, depois da visita dos Magos, depois de eles lhe terem rendido
homenagem ("prostrados, adoraram-No") e depois da oferta dos dons
(cf. Mt 2, 11), sucede que Maria, com o menino, tem de fugir para o Egipto sob
a proteção desvelada de José, porque Herodes estava a "procurar o menino
para o matar" (cf. Mt 2, 13). E teriam de ficar no Egipto até à morte de
Herodes (cf. Mt 2, 15).
17. Depois da morte de Herodes, quando se dá o retorno
da Sagrada Família a Nazaré, inicia-se o longo período da vida oculta. Aquela
que "acreditou no cumprimento das coisas que lhe foram ditas da parte do
Senhor" (Lc 1, 45) vive no dia-a-dia o conteúdo dessas palavras. O Filho a
quem deu o nome de Jesus está quotidianamente ao seu lado; assim, no contacto
com ele, usa certamente este nome, o que não devia, aliás, causar estranheza a
ninguém, tratando-se de um nome que era usual, desde havia muito tempo, em
Israel. Maria sabe, no entanto, que aquele a quem foi posto o nome de Jesus,
foi chamado pelo Anjo "Filho do Altíssimo" (cf. Lc 1, 32). Maria sabe
que o concebeu e deu à luz "sem ter conhecido homem", por obra do
Espírito Santo, com o poder do Altíssimo que sobre ela estendeu a sua sombra
(cf. Lc 1, 35), tal como nos tempos de Moisés e dos antepassados a nuvem ocultava
a presença de Deus (cf. Ex 24, 16; 40, 34-35; 1 Rs 8, 10-12). Maria sabe,
portanto, que o Filho, por ela dado à luz virginalmente, é precisamente aquele
"Santo", "o Filho de Deus" de que lhe havia falado o Anjo.
Durante os anos da vida oculta de Jesus na casa de
Nazaré, também a vida de Maria "está escondida com Cristo em Deus"
(cf. Col 3, 3) mediante a fé. A fé, efectivamente, é um contacto com o mistério
de Deus. Maria está constante e quotidianamente em contacto com o mistério
inefável de Deus que se fez homem, mistério que supera tudo aquilo que foi
revelado na Antiga Aliança. Desde o momento da Anunciação, a mente da
Virgem-Mãe foi introduzida na "novidade" radical de auto-revelação de
Deus e tornada cônscia do mistério. Ela é a primeira daqueles
"pequeninos" dos quais um dia Jesus dirá: "Pai, (...) escondeste
estas coisas aos sábios e aos sagazes e as revelaste aos pequeninos" (Mt
11, 25). Na verdade, "ninguém conhece o Filho senão o Pai" (Mt 11,
27). Como poderá então Maria "conhecer o Filho"? Certamente, não como
o Pai O conhece; e no entanto, ela é a primeira entre aqueles aos quais o Pai
"o quis revelar" (cf. Mt 11, 26-27; 1 Cor 2, 11). Se, porém, desde o
momento da Anunciação lhe foi revelado o Filho, que apenas o Pai conhece
completamente, como Aquele que o gera no "hoje" eterno (cf. Sl 2, 7),
então Maria, a Mãe, está em contacto com a verdade do seu Filho somente na fé e
mediante a fé! Portanto, é feliz porque "acreditou"; e acredita dia-a-dia,
no meio de todas as provações e contrariedades do período da infância de Jesus
e, depois, durante os anos da sua vida oculta em Nazaré, quando ele "lhes
era submisso" (Lc 2, 51): submisso a Maria e também a José, porque José,
diante dos homens, fazia para ele as vezes de pai; e era por isso que o Filho
de Maria era tido pela gente do lugar como "o filho do carpinteiro"
(Mt 13, 55).
A Mãe, por conseguinte, lembrada de tudo o que lhe
havia sido dito acerca deste seu Filho, na Anunciação e nos acontecimentos
sucessivos, é portadora em si mesma da "novidade" radical da fé: o
início da Nova Aliança. Este é o início do Evangelho, isto é, da boa nova, da
jubilosa nova.
Não é difícil, porém, perceber naquele início um
particular aperto do coração, unido a uma espécie de "noite da fé" -
para usar as palavras de São João da Cruz - como que um "véu" através
do qual é forçoso aproximar-se do Invisível e viver na intimidade com o
mistério. Foi
deste modo, efectivamente, que Maria, durante muitos anos, permaneceu na
intimidade com o mistério do seu Filho, e avançou no seu itinerário de fé, à
medida em que Jesus "crescia em sabedoria (...) e graça, diante de Deus e
dos homens" (Lc 2, 52). Manifestava-se cada vez mais aos olhos dos homens
a predilecção que Deus tinha por ele. A primeira entre estas criaturas humanas
admitidas à descoberta de Cristo foi Maria que, com Ele e com José, vivia na
mesma casa em Nazaré.
Todavia, na ocasião em que o reencontraram no templo,
à pergunta da Mãe: "Por que procedeste assim connosco?", Jesus -
então menino de doze anos - respondeu: "Não sabíeis que devo ocupar-me das
coisas de meu Pai?"; e o Evangelista acrescenta: "Mas eles (José e
Maria) não entenderam as suas palavras" (Lc 2, 48-50). Portanto, Jesus
tinha a consciência de que "só o Pai conhece o Filho" (cf. Mt 11,
27); tanto assim, que até aquela a quem tinha sido revelado mais profundamente
o mistério da sua filiação divina, a sua Mãe, vivia na intimidade com este
mistério somente mediante a fé! Encontrando-se constantemente ao lado do Filho,
sob o mesmo tecto, e "conservando fielmente a união com o Filho" Ela
"avançava na peregrinação da fé", como acentua o Concílio. E
assim sucedeu também durante a vida pública de Cristo (cf. Mc 3, 21-35) pelo
que, dia a dia, se cumpriram nela as palavras de louvor pronunciadas por
Isabel, aquando da Visitação: "Feliz daquela que acreditou".
18. Estas palavras de louvor atingem a plenitude do
seu significado, quando Maria está aos pés da Cruz do seu Filho (cf. Jo 19,
25). O Concílio Vaticano II afirma que isso "aconteceu não sem um desígnio
divino": "padecendo acerbamente com o seu Unigénito, associando-se
com ânimo maternal ao seu sacrifício e consentindo com amor na imolação da
vítima que ela havia gerado", foi deste modo que Maria "conservou
fielmente a união com seu Filho até à Cruz", a
união mediante a fé: a mesma fé com a qual tinha acolhido a revelação do Anjo
no momento da Anunciação. Nesse momento ela tinha também ouvido dizer:
"será grande (...), o Senhor Deus dar-lhe-á o trono de seu pai David
(...), reinará eternamente na casa de Jacob e o seu reinado não terá fim"
(Lc 1, 32-33).
E agora, estando ali aos pés da Cruz, Maria é
testemunha, humanamente falando, do desmentido cabal dessas palavras. O seu
Filho agoniza, suspenso naquele madeiro como um condenado. "Desprezado e
rejeitado pelos homens; homem das dores...; era menosprezado e nenhum caso
fazíamos dele" (...), como que destruído (cf. Is 53, 3-5). Quão grande e
quanto foi heroica então a "obediência da fé" demonstrada por Maria
diante dos "insondáveis desígnios" de Deus! Como ela se
"abandonou nas mãos de Deus" sem reservas, "prestando o pleno
obséquio da inteligência e da vontade" Àquele
cujas "vias são imperscrutáveis!" (cf. Rom 11, 33). E, ao mesmo
tempo, quanto se mostra potente a acção da graça na sua alma e quanto é
penetrante a influência do Espírito Santo, da sua luz e da sua virtude!
Mediante essa sua fé, Maria está perfeitamente unida a
Cristo no seu despojamento. Com efeito, "Jesus Cristo, (...) subsistindo
na natureza divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus; mas
despojou-se a si mesmo tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos
homens": precisamente sobre o Gólgota "humilhou-se a si mesmo,
fazendo-se obediente até à morte, e morte de Cruz" (cf. Flp 2, 5-8). E aos
pés da Cruz, Maria participa mediante a fé no mistério desconcertante desse
despojamento. Isso constitui, talvez, a mais profunda "kénose" da fé
na história da humanidade. Mediante a fé, a Mãe participa na morte do Filho, na
sua morte redentora; mas, bem diferente da fé dos discípulos, que se davam à fuga,
a fé de Maria era muito mais esclarecida. Sobre o Gólgota, Jesus confirmou
definitivamente, por meio da Cruz, que era "o sinal de contradição"
predito por Simeão. Ao mesmo tempo, cumpriram-se aí as palavras dirigidas pelo
mesmo ancião a Maria: "E tu mesma terás a alma trespassada por uma
espada".
19. Sim, verdadeiramente, "feliz daquela que
acreditou"! Estas palavras, pronunciadas por Isabel já depois da
Anunciação, parecem ressoar aqui, aos pés da Cruz, com suprema eloquência; e a
força que elas encerram, torna-se penetrante. Da Cruz ou, por assim dizer, do
próprio coração do mistério da Redenção, se estende o alcance e se dilata a
perspectiva daquelas palavras que louvam a sua fé. Elas remontam "até ao
princípio" e, como participação no sacrifício de Cristo, novo Adão,
tornam-se, em certo sentido, o contrabalanço da desobediência e da
incredulidade presentes no pecado dos nossos primeiros pais. Assim o ensinam os
Padres da Igreja, especialmente Santo Ireneu, citado na Constituição Lumen Gentium: "O nó da desobediência
de Eva foi desatado pela obediência de Maria; e aquilo que a Virgem Eva atou,
com a sua incredulidade, a Virgem Maria desatou-o com a sua fé". À
luz desta comparação com Eva, os mesmos Padres - como recorda ainda o mesmo Concílio
- chamam a Maria "mãe dos vivos" e afirmam muitas vezes: "A
morte veio por Eva, a vida por meio de Maria".
Com razão, portanto, podemos encontrar na expressão
"feliz daquela que acreditou" como que uma chave que nos abre o
acesso à realidade íntima de Maria: daquela que foi saudada pelo Anjo como
"cheia da graça". Se como "cheia de graça" ela esteve
eternamente presente no mistério de Cristo, agora, mediante a fé, torna-se dele
participante em toda a extensão do seu itinerário terreno: "avançou na
peregrinação da fé" e, ao mesmo tempo, de maneira discreta, mas directa e
eficazmente, tornava presente aos homens o mesmo mistério de Cristo. E ainda
continua a fazê-lo. E mediante o mistério de Cristo, também ela está presente
entre os homens. Deste modo, através do mistério do Filho, esclarece-se também
o mistério da Mãe.