domingo, agosto 11, 2013

Como a fé atrai o futuro para dentro do presente



No XIX Domingo do tempo Comum, no «Ano C»,  lê-se, na 2ª leitura, uma passagem do Capítulo 11 da Epístola aos Hebreus, que começa assim, segundo a versão do Leccionário em uso em Portugal:
Irmãos: A fé é a garantia dos bens que se esperam e a certeza das realidades que não se vêem” (v. 1).
É de notar que se lê a seguir o v. 2, e depois se passa logo para o v. 8, que fala de Abraão.  Ao omitir esses  5 versículos em falta, perdem-se afirmações importantes, como esta:
Ora, sem fé é impossível agradar a Deus; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe, e que recompensa os que O procuram” (v. 6).
Este versículo, bem como os restantes versículos que foram omitidos na versão litúrgica (talvez para não alongar a leitura) são citados e brevemente comentados pelo Papa Francisco, na Encíclica Lumen Fidei:
“A Carta aos Hebreus fala-nos do testemunho dos justos que, antes da Aliança com Abraão, já procuravam a Deus com fé; lá se diz, a propósito de Henoc, que «tinha agradado a Deus», sendo isso impossível sem a fé, porque « quem se aproxima de Deus tem de acreditar que Ele existe e recompensa aqueles que O procuram » (Heb. 11, 5.6). Deste modo, é possível compreender que o caminho do homem religioso passa pela confissão de um Deus que cuida dele e que Se pode encontrar. Que outra recompensa poderia Deus oferecer àqueles que O buscam, senão deixar-Se encontrar a Si mesmo? Ainda antes de Henoc, encontramos a figura de Abel, de quem se louva igualmente a fé, em virtude da qual foram agradáveis a Deus os seus dons, a oferenda dos primogénitos dos seus rebanhos (cf. Heb. 11, 4). O homem religioso procura reconhecer os sinais de Deus nas experiências diárias da sua vida, no ciclo das estações, na fecundidade da terra e em todo o movimento do universo. Deus é luminoso, podendo ser encontrado também por aqueles que O buscam de coração sincero (Papa Francisco, Encíclica Lumen Fidei, de 29 de Junho de 2013, n. 35).



Mas é o primeiro versículo deste capítulo 11 da Carta aos Hebreus, que citei no início, que apresenta uma espécie de definição da fé, que, porém, não é de interpretação evidente, e nem sequer é fácil de traduzir. A ele se dedicou S. Tomás de Aquino, num texto denso da Summa Theologiae, II-IIae, q. 4, a. 1.
Por isso resulta fascinante este comentário de Bento XVI, na Encíclica Spe salvi, (a segunda da trilogia que foi agora concluída com a Encíclica Lumen fidei, assinada já pelo papa Francisco).
É um comentário luminoso, de grande profundidade e também de grande beleza, tornado ainda mais oportuno no contexto actual do «Ano da Fé»:
“Devemos voltar, uma vez mais, ao Novo Testamento. No décimo primeiro capítulo da Carta aos Hebreus (v. 1), encontra-se, por assim dizer, uma certa definição da fé que entrelaça estreitamente esta virtude com a esperança. À volta da palavra central desta frase começou a gerar-se desde a Reforma, uma discussão entre os exegetas, mas que parece hoje encaminhar-se para uma interpretação comum. Por enquanto, deixo o termo em questão sem traduzir. A frase soa, pois, assim: «A fé é hypostasis das coisas que se esperam; prova das coisas que não se vêem». Para os Padres e para os teólogos da Idade Média era claro que a palavra grega hypostasis devia ser traduzida em latim pelo termo substantia. De facto, a tradução latina do texto, feita na Igreja antiga, diz: «Est autem fides sperandarum substantia rerum, argumentum non apparentium – a fé é a ‘substância’ das coisas que se esperam; a prova das coisas que não se vêem».
“Tomás de Aquino (na Summa Theologiae, II-IIae, q. 4, a. 1), servindo-se da terminologia da tradição filosófica em que se encontra, explica: a fé é um «habitus», ou seja, uma predisposição constante do espírito, em virtude do qual a vida eterna tem início em nós e a razão é levada a consentir naquilo que não vê. Deste modo, o conceito de «substância» é modificado para significar que pela fé, de forma incoativa – poderíamos dizer «em gérmen» e portanto segundo a «substância» – já estão presentes em nós as coisas que se esperam: a totalidade, a vida verdadeira. E precisamente porque a coisa em si já está presente, esta presença daquilo que há-de vir cria também certeza: esta «coisa» que deve vir ainda não é visível no mundo externo (não «aparece»), mas pelo facto de a trazermos, como realidade incoativa e dinâmica dentro de nós, surge já agora uma certa percepção dela.
"Para Lutero, que não nutria muita simpatia pela Carta aos Hebreus em si própria, o conceito de «substância», no contexto da sua visão da fé, nada significava. Por isso, interpretou o termo hipóstase/substância não no sentido objectivo (de realidade presente em nós), mas no subjectivo, isto é, como expressão de uma atitude interior e, consequentemente, teve naturalmente de entender também o termo argumentum como uma disposição do sujeito. No século XX, esta interpretação impôs-se também na exegese católica – pelo menos na Alemanha – de modo que a tradução ecuménica em alemão do Novo Testamento, aprovada pelos Bispos diz: «Glaube aber ist: Feststehen in dem, was man erhofft, Überzeugtsein von dem, was man nicht sieht» (A fé é: permanecer firmes naquilo que se espera, estar convencidos daquilo que não se vê).
"Em si mesmo, isto não está errado; mas não é o sentido do texto, porque o termo grego usado (elenchos) não tem o valor subjectivo de «convicção», mas o valor objectivo de «prova». Com razão, pois, a recente exegese protestante chegou a uma convicção diversa: «Agora, porém, já não restam dúvidas de que esta interpretação protestante, tida como clássica, é insustentável» (H. Köster).
"A fé não é só uma inclinação da pessoa para realidades que hão-de vir, mas estão ainda totalmente ausentes; ela dá-nos algo. Dá-nos já agora algo da realidade esperada, e esta realidade presente constitui para nós uma «prova» das coisas que ainda não se vêem. Ela atrai o futuro para dentro do presente, de modo que aquele já não é o puro «ainda-não». O facto de este futuro existir, muda o presente; o presente é tocado pela realidade futura, e assim as coisas futuras derramam-se naquelas presentes e as presentes nas futuras” (Bento XVI, Encíclica Spe salvi, de 30 de Novembro de 2007, n. 7).


sexta-feira, julho 05, 2013

A morte da Rainha Santa


Sendo ainda muito jovem, a Infanta Isabel de Aragão casou com o Rei D. Dinis, e assim se tornou Rainha de Portugal. Depois da sua partida deste mundo foi prontamente invocada como a Rainha Santa, e hoje toda a Igreja a venera como Santa Isabel de Portugal.
Francisco de Zurbarán, Santa Isabel de Portugal,  (1638-42) Óleo sobre tela, Museu do Prado, Madrid

A sua memória celebra-se em 4 de Julho, dia da sua morte, em Estremoz, no ano 1336, quando se dispunha a mediar um acordo de paz entre seu filho, o Rei D. Afonso IV, e Afonso XI de Castela, neto da própria Santa Isabel e sobrinho de D. Afonso IV e também genro deste, por ter casado com a Infanta D. Maria, filha de D. Afonso IV.
Por motivos ligados às celebrações do casamento do futuro D. Pedro I com D. Constança Manuel, que o rei de Castela decidira caprichosamente dificultar, D. Afonso IV preparava-se para invadir o reino vizinho, a partir da fortaleza de Estremoz, situada próximo da fronteira castelhana.
Como se lê na sua mais recente biografia, de que é autor o sacerdote espanhol José Miguel Pero-Sanz, (durante muitos anos director da revista Palabra), e cuja leitura recomendo vivamente, “quando a Rainha Santa, em Coimbra, teve notícia da situação, decidiu pôr-se uma vez mais a caminho, para evitar o choque dos dois monarcas”[1].
A viagem durou quase uma semana, sob um calor abrasador, e Santa Isabel chegou a Estremoz no final de Junho, trazendo já uma grave ferida num dos braços, a que os físicos (médicos) não deram grande importância. No entanto, a Rainha não melhorava, e o seu estado geral ia-se debilitando sempre mais.
Assim descreve José Miguel Pero-Sanz os últimos momentos da Rainha Santa:
“ (…) Na segunda-feira, 1 de Julho, a febre subiu tanto, que teve de permanecer de cama, sem assistir à Missa que se celebrava no oratório do castelo. Os físicos continuavam tranquilos: não tinham consciência de que a Rainha estava a morrer.
“ Mas ela, sim, pressentia-o com toda a clareza.
“Na quinta-feira, dia 4, de manhã muito cedo, confessou-se antes de ouvir Missa nos seus próprios aposentos. Um pouco mais tarde, levantou-se da cama e, com grande esforço, deslocou-se para o oratório onde celebrava Missa o seu confessor. Ali recebeu o Santo Viático, de joelhos, com grande devoção e derramamento de lágrimas. Ao longo do dia, conversou com D. Afonso e D. Beatriz [esposa de D. Afonso IV], que, alternadamente lhe faziam companhia. Num momento determinado, a Santa disse a sua nora: «Senhora filha, arranja um assento a essa Dama que está aí». Beatriz perguntou: «Qual dama?» Isabel respondeu: «Essa aí, com as vestes brancas». Soube-se assim que a Santíssima Virgem, a quem, com tanto amor, tinha venerado sempre, acorrera para a confortar naquela hora.
“Ao anoitecer, disse ao Rei que fosse cear. Assim que Afonso saiu, a Rainha pôs-se de pé e, apoiada na cama, começou a desfalecer. Os presentes chamaram pelo Rei, gritando. A rainha recompôs-se de imediato, e comentou o desfalecimento com o filho. (…)
“Passado algum tempo, e advertindo que chegava o fim, Dona Isabel começou a rezar: «Maria, Mater gratiae, Mater misericordiae, tu me ab hoste protege
et hora mortis suscipe». («Maria, Mãe da Graça, Mãe da Misericórdia, protege-me do inimigo e recebe-me na hora da morte»). Em seguida recitou o Símbolo dos Apóstolos – Credo in Deum Patrem… – o Pater Noster e outras orações. Pouco a pouco a sua voz enfraquecia: já não se conseguiam ouvir as orações que balbuciava. E assim, rezando, entregou o seu espírito ao Criador. Estava a terminar o dia 4 de Julho de 1336. Diz-se que, logo depois de falecer, a boca e os olhos da Rainha se fecharam sozinhos”[2].
“ (…) Neste preciso momento, concluiu-se a história de Dona Isabel, mulher extraordinária, fidelíssima esposa, excelente mãe e maravilhosa rainha. Tal era o conceito que dela tinha toda a gente. Doravante, além disso, seria venerada – nunca o fora até então – como uma santa de Deus”[3].



[1] JOSÉ MIGUEL PERO-SANZ, Santa Isabel, Reina de Portugal, Arcaduz – Palabra, Madrid, 2011, p. 179.
[2] Ibid., p. 180- 181.
[3] Ibid, p. 183.

domingo, junho 02, 2013

O admirável Sacramento


Com a sóbria linguagem da Liturgia, a Oração Colecta da Missa da Festa do Corpo de Deus refere-se à Santíssima Eucaristia, como “admirável sacramento”:
Senhor Jesus Cristo, que neste admirável sacramento
nos deixastes o memorial da vossa paixão,
concedei-nos a graça
de venerar de tal modo os mistérios do vosso Corpo e Sangue
que sintamos continuamente os frutos da vossa redenção.
Vós que sois Deus com o Pai na unidade do Espírito Santo.
Ou, na versão latina:
Deus, qui nobis, sub Sacraménto mirábili, passiónis tuæ memóriam reliquísti: tríbue, quæsumus; ita nos Córporis et Sánguinis tui sacra mystéria venerári, ut redemptiónis tuæ fructum in nobis júgiter sentiámus: Qui vivis et regnas cum Deo Patre in unitáte Spíritus Sancti Deus, per ómnia sæcula sæculórum.
Com esta mesma expressão começou Bento XVI a sua Exortação Apostólica Sacramentum caritatis (Sacramento da Caridade) (de 22 de Fevereiro de 2007): 
“Sacramento da Caridade, a Santíssima Eucaristia é a doação que Jesus Cristo faz de Si mesmo, revelando-nos o amor infinito de Deus por cada homem. Neste admirável sacramento, manifesta-se o amor «maior»: o amor que leva a «dar a vida pelos amigos» (João 15, 13). De facto, Jesus «amou-os até ao fim» (João 13, 1). Com estas palavras, o evangelista introduz o gesto de infinita humildade que Ele realizou: na vigília da sua morte por nós na cruz, pôs uma toalha à cintura e lavou os pés aos seus discípulos. Do mesmo modo, no sacramento eucarístico, Jesus continua a amar-nos «até ao fim», até ao dom do seu corpo e do seu sangue. Que enlevo se deve ter apoderado do coração dos discípulos à vista dos gestos e palavras do Senhor durante aquela Ceia! Que maravilha deve suscitar, também no nosso coração, o mistério eucarístico!” (n. 1).
“Admirável Sacramento”. E porquê “admirável”, porquê tão especialmente “admirável”?
Porque na Santíssima Eucaristia se contém o “memorial” da Paixão de Cristo.
Memorial é mais que memória. É memória e actualização. S. Paulo, na 1ª Carta aos Coríntios, depois de descrever a instituição da Eucaristia na Última Ceia, sublinha especialmente esta ordem do Senhor: “Fazei isto em memória de Mim” (1 Coríntios 11, 24).
E se não tivesse sido uma ordem expressa de Jesus Cristo, seria sempre uma necessidade premente da sua Igreja fazer memória, que não é apenas lembrar, mas, muito mais do que isso, tornar presente, em cada domingo, em cada dia, aquele sofrimento que nos salvou, aquela morte que nos trouxe a vida e a ressurreição.
O Papa Francisco celebra a Missa do Corpus Christi no átrio da Basílica de S. João de Latrão  (30.05.2013)

Na Eucaristia, a Paixão de Cristo, com o seu incomparável caudal de dor e de amor, está presente, e como que desce sobre o mundo, de modo semelhante ao sol da manhã que dissipa as trevas, como que abraça e envolve o mundo intimamente, para o curar e salvar.
A Eucaristia é o sacrifício de Cristo, em si mesmo irrepetível, mas incessantemente representado, isto é, tornado presente, na memória viva da sua Igreja.
Celebrar a Eucaristia não é voltar a contar uma história que já outros nos contaram. É voltar a tornar presente no hoje da história um acontecimento que abraça a história por dentro e diz respeito a cada homem.
É preciso amar e ensinar a amar a Eucaristia.
O Papa Bento XVI, na mesma Exortação Apostólica Sacramentum caritatis , disse expressamente que é necessário ensinar as crianças a amar a Eucaristia, é necessário “iniciá-las no sentido e na beleza de demorar-se na companhia de Jesus, cultivando o enlevo pela sua presença na Eucaristia” (n. 67).
Possivelmente nas últimas décadas a catequese, a pregação e a própria Liturgia celebrada não terão muitas vezes ensinado a amar a Eucaristia. 
Mas só com a consciência explícita do mistério celebrado e com a própria beleza da Liturgia podemos ensinar a amar a Eucaristia. Sem isso, não se ama, porque não se chega a conhecê-la nem a vivê-la na sua verdade e beleza.
O dia do “Corpo de Deus” é um dia dedicado à serena contemplação do mistério da Eucaristia. Em muitos locais o Santíssimo Sacramento sai às ruas, levado solenemente em procissão.
O Papa Francisco dá a bênção com o Santíssimo Sacramento no final da procissão do Corpus Christi 
Este olhar contemplativo é possível, porque na Eucaristia está Cristo vivo, escondido sob as espécies do pão e do vinho.
O memorial, embora tornando presente a Paixão do Senhor, traz-nos Cristo, não como Ele foi, sujeito à dor e morte, mas como Ele é, vencedor da morte e gloriosamente ressuscitado. Por ser Memorial e não memória, a Eucaristia dá-nos o mesmo Jesus dá-nos o mesmo Cristo que passou pela morte e que dela Se levantou, ressuscitado, e que reina com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos.
E porque a Eucaristia nos dá Jesus, podemos pedir-Lhe, como faz a Liturgia, na Oração sobre as Oblatas, que dê à sua Igreja o dom da unidade e da paz, esse dom que as oferendas colocadas no altar misticamente simbolizam.
E por fim pedir-Lhe-emos também a participação eterna da sua divindade, que é prefigurada na comunhão do seu precioso Sangue.
Que esta Comunhão nos alimente e purifique, para que um dia, quando os sinais sacramentais já não forem necessários, quando até a Eucaristia já não precisar de ser celebrada nos nossos altares, contemplemos a própria realidade que eles representam, isto é, o próprio o próprio Cristo, na glória do Pai, a quem hoje, continuando ainda a ser peregrinos e caminhantes, queremos amar, seguir, adorar e anunciar.

domingo, maio 26, 2013

Caminhar na verdade plena

Será que o ser humano é capaz de conhecer verdade? E que é a verdade? Às vezes só conhecemos a verdade à superfície, a verdade ao nível dos acontecimentos imediatos, as coisas que acontecem no dia-a-dia. São os factos da vida, uns importantes, outros nem tanto, mas que se vão sucedendo num ritmo intenso, e preenchem os nossos dias e os nossos afectos. 
Mas qual é o sentido de tudo o que nos acontece, da vida que vivemos? Muita gente nunca pensa nisso. Mas é necessário pensar: é preciso pensar no sentido profundo de tudo, é preciso descobrir a verdade que dá sentido a todas as coisas.
Aliás, mais do que pensar, mais do que descobrir, é preciso acolher este sentido que nos é dado, esta verdade que nos é revelada, como um dom gratuito e precioso.
Disse acolher, e não apenas pensar, porque a fé que temos em Jesus Cristo, a experiência que já temos de viver a sua vida e de experimentar, pela graça, o seu mistério, mostra-nos e assegura-nos, com grande força, que a verdade não é uma teoria: a verdade é Jesus. O próprio Jesus disse de Si mesmo aos discípulos durante a Última Ceia: “Eu sou a verdade” (João14, 6). E pouco depois, disse-lhes ainda: “Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos guiará para a verdade plena” (João16, 13).
Três Anjos aparecem a Abraão, numa inicial B
(de  Benedicta Sancta Trinitas), Folha de um Gradual, Florença, (1392–99)

A parte superior do grande B inicial, que começa o Intróito para o Domingo da Santíssima Trindade: Benedicta sit sancta Trinitas (Bendita seja a Santíssima Trindade), retrata as três pessoas da Santíssima Trindade, todos eles são iguais, por trás de um altar e dois candelabros. O Espírito Santo tem uma pomba sobre sua cabeça e o Pai uma esfera armilar que representa o universo. O Filho, no meio, tem a patena e cálice da Eucaristia. Acima de sua cabeça está um livro aberto que contém as palavras que disse  após a Última Ceia: Ego sum ​​via, veritas et, et vita (Eu sou o caminho, a verdade, e a vida).Na parte inferior da inicial, três anjos aparecem a Abraão, proclamando o nascimento milagroso de seu filho Isaac, um evento do Antigo Testamento, que foi considerado como uma prefiguração da Trindade.

Vamos pensar um instante nestas palavras. Em grego, «guiar» diz-se hodègein, que vem de hodos, que significa «caminho». Guiar é conduzir pelo caminho. Mas Jesus tinha dito também que Ele é próprio é o caminho (João 14, 6). Então, se Jesus é o caminho, o Espírito Santo, o Espírito da verdade,  é o «encaminhamento»! É Ele que nos faz caminhar, não tanto «para a verdade», (como diz a nossa tradução), mas «na verdade», na «verdade plena», que é Jesus.
A verdade não é alguma coisa que está longe de nós, como um objectivo a atingir, ou uma meta aonde temos de chegar. Se estamos em Jesus, já estamos na verdade; se vivemos em Jesus, já vivemos na verdade, embora por enquanto ainda só parcialmente, ainda não plenamente. Mas é o Espírito Santo que nos conduz nesta compreensão cada vez mais perfeita das palavras de Jesus, neste conhecimento cada vez mais intenso da verdade de Jesus, nesta vivência cada vez mais plena da própria vida de Jesus.
Conduzida pelo Espírito Santo, toda a Igreja cresce, ao longo dos séculos, nesta plena inteligência do mistério de Cristo, até ao fim dos tempos. E todos nós pedimos ao Espírito da verdade que nos guie neste conhecimento cada vez mais perfeito da verdade de Jesus, ou melhor, da verdade que é Jesus, para que nós próprios vivamos a sua vida, com uma alegria, um amor e uma fidelidade cada vez maiores, até ao último instante da nossa vida neste mundo.
Nestas palavras que disse aos discípulos na Última Ceia, Jesus desvendou-nos alguns segredos da própria vida de Deus. Disse-nos que o Espírito Santo “não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido”. Julgo que estas palavras nos ensinam, antes de mais, que, no mistério da Santíssima Trindade, o Espírito Santo ouve eternamente o Filho, que é o Verbo de Deus, a Palavra do Pai.
E, quando o Filho de Deus vem ao mundo e Se faz homem, o Espírito Santo guarda todas as suas palavras, e hoje diz de novo à Igreja as palavras pronunciadas um dia por Jesus.
Não é que Jesus não continue a falar: sim, Jesus ressuscitado continua a falar aos discípulos, mas agora fala-nos de uma maneira nova e interior, através do Espírito Santo. Só na palavra de Jesus, que é anunciada na Igreja e nos toca intimamente no Espírito Santo, é que conhecemos a verdade da nossa vida e a conseguimos construir, purificar, aperfeiçoar e santificar segundo o projecto do Pai.
O Livro dos Provérbios (8, 22-31) diz-nos que o mundo inteiro teve na Sabedoria divina personificada, (isto é, no Filho de Deus, que um dia Se fez homem e nasceu da Virgem Maria), o seu “Arquitecto”, sempre presente ao lado de Deus, que Lhe fornece o projecto da maravilhosa obra da criação do Universo.
Apesar de estar ainda em construção, isto é, não acabado, salta à vista que o Universo tem um projecto, E se há um projecto, há um Arquitecto. O Filho de Deus é o “Arquitecto” do mundo! E sente-se muito bem neste mundo, em especial sente-se bem na nossa companhia!
É também por Ele, com Ele e n'Ele que todos queremos construir a nossa vida: as crianças, os jovens, os adultos, as pessoas casadas e as solteiras ou viúvas, os sacerdotes, as pessoas consagradas e os que se dedicaram a Deus no meio do mundo.
Há muitos projectos particulares, mas o grande Projecto que todos queremos conhecer e realizar é o Projecto do Pai, esse Projecto que o Filho de Deus, Jesus Cristo, nos revelou, e constantemente actualiza nos nossos corações pelo Espírito Santo.
Se o realizarmos fielmente e por amor, a nossa vida será, já neste mundo, realizada e feliz. Já hoje daremos glória à Santíssima Trindade, na esperança, que “não engana”, como diz S. Paulo (Romanos 5, 5), de um dia A podermos adorar, louvar e glorificar, com os anjos e os santos, por toda a eternidade.

sábado, maio 11, 2013

Confiou-nos o mundo


Quando lemos a conclusão do Evangelho segundo S. Lucas, não temos a sensação de ter chegado ao fim. Pelo contrário: o que S. Lucas nos apresenta é o princípio de um tempo novo, que não tem fim. Este Evangelho diz-nos que Jesus levou os discípulos até junto de Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os. Enquanto os abençoava, afastou-Se deles, e foi elevado ao Céu” (Lucas 24, 51). A partir desse momento, os discípulos não viram mais Jesus. E, por causa disso, devem ter sentido, num primeiro instante, tristeza e saudade. Mas logo a seguir sentiram uma alegria ainda maior, como diz claramente o Evangelho: “Eles prostraram-se diante de Jesus, e depois voltaram para Jerusalém com grande alegria” (Lucas 24, 52).
Em que se fundamenta esta alegria dos discípulos? Fundamenta-se na sua fé em Jesus Cristo, que eles viram sofrer terrivelmente e morrer, mas que viram de novo, cheio de vida e glória. Os discípulos viram Jesus morto na cruz, viram o seu corpo sepultado, mas também O viram ressuscitado.
Nos Actos dos Apóstolos, lemos que Jesus, “depois da sua paixão, Se apresentou vivo, com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias, e falando-lhes do Reino de Deus” (1, 3). Durante esses dias, os discípulos viram com os seus olhos, e experimentaram com todo o seu ser que Jesus está vivo, não morre mais! E começaram a compreender que Jesus não era só o seu Amigo, o seu Senhor, mas o Amigo e o Salvador de todos os homens. Perceberam que o seu Reino não era como os pobres reinos deste mundo, que duram uns anos ou uns séculos, mas era um Reino eterno, e abrangia toda a Terra e o Universo inteiro. E acreditaram no mais fundo dos seus corações que Jesus não era um simples homem: sim, era homem como nós, e era também Deus como o Pai, que O tinha enviado ao mundo para apelar à conversão e oferecer a todos os homens o perdão e a misericórdia. 
E por isso, quando Jesus deixou de estar visivelmente junto deles, quando Jesus «subiu» ao Céu, isto é, quando a sua humanidade entrou definitivamente na glória divina, os discípulos sentiram que Jesus continuava ao seu lado, ainda mais do que antes; que o seu poder abraçava o mundo inteiro; e que o seu amor envolvia todos os homens, de todos os tempos. Não havia motivos para a tristeza, mas sim para uma grande alegria!

Jerôme Nadal (ed.), A Ascensão de Cristo (porm.)


Também nós sentimos esta alegria profunda: acreditamos que Jesus vive para sempre, que está na glória do Pai, e que ao mesmo tempo está connosco, está ao nosso lado, e nunca nos abandona!
No entanto, tal como aconteceu com os discípulos, esta alegria existe em nós a par de um grande sentido de missão e de um grande sentido de responsabilidade. Na sua Ascensão, Jesus, que é o Senhor do mundo, confiou-nos o mundo. Neste mundo, há muitas pessoas que não conhecem o mistério de Cristo, mas necessitam de O conhecer, e Deus quer que o possam conhecer, para serem salvos, e para a sua vida ter sentido.
Por isso, àqueles que O viram morto e ressuscitado, Jesus disse, como se lê no Evangelho: “Vós sois testemunhas disso” (Lucas 24, 48). E, no próprio dia da Ascensão, disse ainda mais claramente aos discípulos: “Recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e até aos confins da Terra” (Actos 1, 8). 
É esta missão que está em marcha, e que depende de nós, da nossa entrega, para se cumprir, com a força do Espírito Santo. Depende de nós, de todos e de cada um, da nossa sincera conversão, da nossa fidelidade, do nosso amor, e também do modo como falamos apaixonadamente da nossa fé, de como a defendemos, de como a apresentamos, como a «explicamos», de como apresentamos a sua beleza, a sua exigência santificadora e a sua fascinante verdade.
Depende em grande medida dos casais cristãos: se forem fiéis e unidos, generosos e confiantes. reflectirão pela sua vida e pela sua união, o amor de Cristo por todos os homens. Depende também das famílias: se forem famílias conduzidas pela fé e em plena sintonia com os ensinamentos da Igreja, serão um fermento muito poderoso, que transformará o mundo por dentro.
Mas a missão também depende dos doentes e dos que sofrem: se oferecerem os seus sofrimentos com amor, abrirão caminho à graça de Deus no coração de tantas outras pessoas. 
E depende ainda, de modo particular, dos sacerdotes, do seu “ser apaixonados por Cristo”, como disse Bento XVI na Vigília do encerramento do Ano Sacerdotal (10 de Junho de 2010). Depende de que sejam sacerdotes que “dedicam realmente toda a sua força pela evangelização, pela presença do Senhor e dos seus Sacramentos”, sacerdotes que trazem em si “o fogo do amor de Cristo”, que estão cheios “da alegria do Senhor”.

Numa das suas primeiras Audiências Gerais (3 de Março de 2013), o Papa Francisco salientou que, nos Evangelhos, “as primeiras testemunhas da Ressurreição são as mulheres. E isto é bonito. Esta é um pouco a missão das mulheres: mães e mulheres! Dar testemunho aos filhos e aos netos, de que Jesus está vivo, é o Vivente, ressuscitou. Mães e mulheres, ide em frente com este testemunho!”.

Ao subir ao Céus, Cristo enviou-nos “Aquele que foi prometido” pelo Pai, o Espírito Santo, que é a “força do alto” (Lucas 24, 49), que nos impele e conduz pelos caminhos deste mundo.
Que o Espírito nos inspire no apostolado que realizamos e no testemunho que damos, para que vença as barreiras do desinteresse, do relativismo e da descrença, e a alegria da fé seja uma chama cada vez mais intensa no coração de todos os homens.

quarta-feira, maio 01, 2013

Recitar o Credo

A propósito do Ano da Fé
Recitar o Credo

Do admirável livro de Daniel Rops, Missa est (trad. port. de B. Xavier Coutinho, 1953, Livraria Tavares Martins, Porto), transcrevo esta oração que ilustra o seu comentário ao Credo da Missa, intitulado: «Regra da nossa fé»).
Um livro a procurar nas bibliotecas e a ler seguramente com admiração.
 

 
Que o canto do meu Baptismo se renove
cada vez que recitar o Credo,
na  firme consciência das minhas certezas
e na adesão profunda do meu coração!

Que o porquê e o como da minha fé se proclamem de pé,
publicamente, no entusiasmo unânime,
como aconteceu outrora e pode ainda acontecer
nos tempos dos grandes riscos aceites!

Que a minha pertença se afirme também totalmente
à Igreja Mãe, guarda das minhas fidelidades
porque estas palavras que ela me ensina, ela própria,
as recebe, na luz infalível do Espírito Santo.
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 



 

terça-feira, abril 30, 2013

Estou a amar como Jesus?


Os Actos dos Apóstolos levam-nos a assistir ao final da primeira viagem missionária de Paulo e Barnabé: desde a última cidade que visitaram, que se chamava Derbe, regressam a Antioquia, na Síria, de onde tinham partido. Quais eram os sentimentos dos dois apóstolos, no fim desta emocionante viagem missionária? O texto dos Actos mostra-nos claramente que, de volta a Antioquia, Paulo e Barnabé traziam o coração cheio de alegria e gratidão: quando partiram, iam “confiados na graça de Deus”; agora, ao regressar, “convocaram a Igreja”, e “contaram tudo o que Deus fizera com eles, e como abrira aos gentios a porta da fé” (Actos 14, 27). Tinha sido uma viagem cheia de frutos, à sua palavra muitas pessoas se tinham convertido, mas Paulo e Barnabé atribuem a Deus todas estas conversões, pois Deus é que tinha actuado, e eles tinham sido nas suas mãos instrumentos dóceis e fiéis.

E nós, que coisas fazemos para ajudar a abrir a muitas pessoas “a porta da fé”?

Quando damos catequese ou realizamos qualquer outro apostolado, quando falamos de Jesus aos nossos amigos ou abordamos temas de fé com tantas outras pessoas, confiamos na graça de Deus e na acção do Espírito Santo?

Procuramos não ser um obstáculo à acção de Deus e, pelo contrário, ser instrumentos dóceis nas suas mãos?

Tal como os pastorinhos de Fátima, rezamos e oferecemos sacrifícios pelas pessoas que desejaríamos que se convertessem a Jesus?

Quando surgem obstáculos ou dificuldades, pedimos ajuda a Deus, e continuamos alegres e confiantes, sem desistir nem desanimar?

Muitas pessoas desanimam, ao considerarem como é violento e injusto o mundo em que vivemos. Terrorismo, guerras, violências, roubos, abusos, ambição desordenada, desonestidade, imoralidade, e tantos outros males, são traços demasiado acentuados do mundo actual.

Não são os únicos, mas às vezes parecem sufocar o que há de bom na vida humana. O mal às vezes parece que é mais forte do que o bem e a verdade. O maligno parece às vezes que é o senhor do mundo. Quem irá prevalecer? Quem irá vencer definitivamente?

A Palavra de Deus também nos dá a resposta a esta pergunta. Lendo o Apocalipse, somos convidados a ver, na luz da fé, o que viu, com olhar profético, S. João: “Eu, João, vi um novo céu e uma nova terra… Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu da presença de Deus…” (Apocalipse 21, 1-2). É uma visão bela e grandiosa, que alenta a nossa esperança. Embora continuasse a viver num mundo muito violento e injusto, João viu em Deus “um novo céu e uma nova terra”, isto é, um Universo novo, ou antes, renovado, radicalmente transformado.

Haverá uma renovação física do Universo, para que ele próprio participe, à sua maneira, na glória de Cristo ressuscitado? Há vários passos do Novo Testamento que nos transmitem esta mensagem. No entanto, não sabemos quando nem como acontecerá essa renovação. O que sabemos, com toda a clareza, como diz o Apocalipse, é que haverá uma renovação moral e espiritual: o mundo novo e definitivo será um mundo sem maldade e sem pecado, em que a vitória de Cristo ressuscitado se estenderá a todas as dimensões da vida.

Deus acendeu nos nossos corações a esperança deste mundo novo, e não devemos deixar que a chama desta esperança se apague em nós. Não nos devemos resignar ao mundo, tal como ele existe hoje.

Este mundo não é definitivo, não nos «enche as medidas», e precisa de ser, desde já, profundamente purificado.

E pedimos por intercessão do Imaculado Coração de Maria, que esta purificação comece por nós, pelos nossos corações e por toda a nossa vida. Que a nossa vida seja já hoje renovada, convertida, pela graça de Cristo, e assim sejamos fermento de um mundo novo, transformado pela presença de Deus e pela sua inesgotável misericórdia.

Jesus não nos convida a uma vida ‘mediana’, em que apenas se procura não cometer grandes erros, nem grandes desvios, mas sim a uma vida entregue, segundo a medida do seu amor levado “até ao fim” (João 13, 1). As diversas religiões e sabedorias da humanidade é que são animadas por ideais de harmonia, equilíbrio, bom senso, mas a fé cristã é completamente diferente. Nós não somos chamados a um certo ‘equilíbrio’, mas sim uma entrega total, porque Jesus, ao morrer por nós, deu-nos a prova máxima do amor (João 15, 3).



E por isso, Jesus não nos manda ser apenas ‘boas pessoas’, mas diz-nos: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros”(João 13, 34).
 
Jerôme Nadal (ed.), Jesus lava os pás aos Apóstolos (1595)
 

Há muitos graus e formas de amor, e nem todas igualmente verdadeiras. Mas o amor a que Jesus nos chama é “novo”: “como Eu vos amei”. A Paixão de Jesus mostra-nos de um modo profundamente emocionante como foi, e até onde chegou este amor. Nunca ninguém amou como Jesus. Parece impossível atingir a perfeição e a intensidade do amor de Jesus. No entanto, o amor de Jesus é o modelo, a fonte, a inspiração e o referencial de todo o amor humano.

Todos nos podemos perguntar: estou a amar como Jesus? Ou o meu amor é apenas terreno, mundano fechado, egoísta? Os que são casados ou os que são solteiros, os noivos que preparam o seu casamento ou os jovens que estão no Seminário, os doentes e os sãos, os idosos e os mais novos: todos somos chamados a amar como Jesus. O amor de Jesus é dom, mais do que posse, é esquecimento de si, para pensar no outro, e é muitas vezes renúncia, feita com alegria, para fazer os outros mais felizes.

O amor de Jesus leva os namorados a guardar-se na pureza e castidade, até ao dia em que, pela mão de Jesus, cada um se dê ao outro para sempre. Leva os casais a uma fidelidade de coração e de todo o ser, que não se discute e nunca está em questão. E leva até alguns a renunciar a um amor humano, para servir com alegria e por amor, na Igreja, os outros irmãos.

“Como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros”. Segundo conta um autor do séc. III, Tertuliano, os primeiros cristãos tomaram tão a sério estas palavras de Jesus, que os gentios exclamavam, admirados: «Vede como eles se amam!» (Apologeticum 39, 7, CCL 1, 151).

Nós acreditamos no amor de Jesus, e acreditamos que é possível vivê-lo. Isto não significa que sejamos perfeitos: continuamos a ser imperfeitos e pecadores. Mas pedimos-Lhe que nos dê um coração novo, capaz de viver o seu mandamento novo, e assim antecipar, à nossa volta e no mundo em que vivemos, esse tempo que ansiosamente esperamos, em que o próprio Deus fará novas “todas as coisas”.