sábado, maio 11, 2013

Confiou-nos o mundo


Quando lemos a conclusão do Evangelho segundo S. Lucas, não temos a sensação de ter chegado ao fim. Pelo contrário: o que S. Lucas nos apresenta é o princípio de um tempo novo, que não tem fim. Este Evangelho diz-nos que Jesus levou os discípulos até junto de Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os. Enquanto os abençoava, afastou-Se deles, e foi elevado ao Céu” (Lucas 24, 51). A partir desse momento, os discípulos não viram mais Jesus. E, por causa disso, devem ter sentido, num primeiro instante, tristeza e saudade. Mas logo a seguir sentiram uma alegria ainda maior, como diz claramente o Evangelho: “Eles prostraram-se diante de Jesus, e depois voltaram para Jerusalém com grande alegria” (Lucas 24, 52).
Em que se fundamenta esta alegria dos discípulos? Fundamenta-se na sua fé em Jesus Cristo, que eles viram sofrer terrivelmente e morrer, mas que viram de novo, cheio de vida e glória. Os discípulos viram Jesus morto na cruz, viram o seu corpo sepultado, mas também O viram ressuscitado.
Nos Actos dos Apóstolos, lemos que Jesus, “depois da sua paixão, Se apresentou vivo, com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias, e falando-lhes do Reino de Deus” (1, 3). Durante esses dias, os discípulos viram com os seus olhos, e experimentaram com todo o seu ser que Jesus está vivo, não morre mais! E começaram a compreender que Jesus não era só o seu Amigo, o seu Senhor, mas o Amigo e o Salvador de todos os homens. Perceberam que o seu Reino não era como os pobres reinos deste mundo, que duram uns anos ou uns séculos, mas era um Reino eterno, e abrangia toda a Terra e o Universo inteiro. E acreditaram no mais fundo dos seus corações que Jesus não era um simples homem: sim, era homem como nós, e era também Deus como o Pai, que O tinha enviado ao mundo para apelar à conversão e oferecer a todos os homens o perdão e a misericórdia. 
E por isso, quando Jesus deixou de estar visivelmente junto deles, quando Jesus «subiu» ao Céu, isto é, quando a sua humanidade entrou definitivamente na glória divina, os discípulos sentiram que Jesus continuava ao seu lado, ainda mais do que antes; que o seu poder abraçava o mundo inteiro; e que o seu amor envolvia todos os homens, de todos os tempos. Não havia motivos para a tristeza, mas sim para uma grande alegria!

Jerôme Nadal (ed.), A Ascensão de Cristo (porm.)


Também nós sentimos esta alegria profunda: acreditamos que Jesus vive para sempre, que está na glória do Pai, e que ao mesmo tempo está connosco, está ao nosso lado, e nunca nos abandona!
No entanto, tal como aconteceu com os discípulos, esta alegria existe em nós a par de um grande sentido de missão e de um grande sentido de responsabilidade. Na sua Ascensão, Jesus, que é o Senhor do mundo, confiou-nos o mundo. Neste mundo, há muitas pessoas que não conhecem o mistério de Cristo, mas necessitam de O conhecer, e Deus quer que o possam conhecer, para serem salvos, e para a sua vida ter sentido.
Por isso, àqueles que O viram morto e ressuscitado, Jesus disse, como se lê no Evangelho: “Vós sois testemunhas disso” (Lucas 24, 48). E, no próprio dia da Ascensão, disse ainda mais claramente aos discípulos: “Recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e até aos confins da Terra” (Actos 1, 8). 
É esta missão que está em marcha, e que depende de nós, da nossa entrega, para se cumprir, com a força do Espírito Santo. Depende de nós, de todos e de cada um, da nossa sincera conversão, da nossa fidelidade, do nosso amor, e também do modo como falamos apaixonadamente da nossa fé, de como a defendemos, de como a apresentamos, como a «explicamos», de como apresentamos a sua beleza, a sua exigência santificadora e a sua fascinante verdade.
Depende em grande medida dos casais cristãos: se forem fiéis e unidos, generosos e confiantes. reflectirão pela sua vida e pela sua união, o amor de Cristo por todos os homens. Depende também das famílias: se forem famílias conduzidas pela fé e em plena sintonia com os ensinamentos da Igreja, serão um fermento muito poderoso, que transformará o mundo por dentro.
Mas a missão também depende dos doentes e dos que sofrem: se oferecerem os seus sofrimentos com amor, abrirão caminho à graça de Deus no coração de tantas outras pessoas. 
E depende ainda, de modo particular, dos sacerdotes, do seu “ser apaixonados por Cristo”, como disse Bento XVI na Vigília do encerramento do Ano Sacerdotal (10 de Junho de 2010). Depende de que sejam sacerdotes que “dedicam realmente toda a sua força pela evangelização, pela presença do Senhor e dos seus Sacramentos”, sacerdotes que trazem em si “o fogo do amor de Cristo”, que estão cheios “da alegria do Senhor”.

Numa das suas primeiras Audiências Gerais (3 de Março de 2013), o Papa Francisco salientou que, nos Evangelhos, “as primeiras testemunhas da Ressurreição são as mulheres. E isto é bonito. Esta é um pouco a missão das mulheres: mães e mulheres! Dar testemunho aos filhos e aos netos, de que Jesus está vivo, é o Vivente, ressuscitou. Mães e mulheres, ide em frente com este testemunho!”.

Ao subir ao Céus, Cristo enviou-nos “Aquele que foi prometido” pelo Pai, o Espírito Santo, que é a “força do alto” (Lucas 24, 49), que nos impele e conduz pelos caminhos deste mundo.
Que o Espírito nos inspire no apostolado que realizamos e no testemunho que damos, para que vença as barreiras do desinteresse, do relativismo e da descrença, e a alegria da fé seja uma chama cada vez mais intensa no coração de todos os homens.

quarta-feira, maio 01, 2013

Recitar o Credo

A propósito do Ano da Fé
Recitar o Credo

Do admirável livro de Daniel Rops, Missa est (trad. port. de B. Xavier Coutinho, 1953, Livraria Tavares Martins, Porto), transcrevo esta oração que ilustra o seu comentário ao Credo da Missa, intitulado: «Regra da nossa fé»).
Um livro a procurar nas bibliotecas e a ler seguramente com admiração.
 

 
Que o canto do meu Baptismo se renove
cada vez que recitar o Credo,
na  firme consciência das minhas certezas
e na adesão profunda do meu coração!

Que o porquê e o como da minha fé se proclamem de pé,
publicamente, no entusiasmo unânime,
como aconteceu outrora e pode ainda acontecer
nos tempos dos grandes riscos aceites!

Que a minha pertença se afirme também totalmente
à Igreja Mãe, guarda das minhas fidelidades
porque estas palavras que ela me ensina, ela própria,
as recebe, na luz infalível do Espírito Santo.
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 



 

terça-feira, abril 30, 2013

Estou a amar como Jesus?


Os Actos dos Apóstolos levam-nos a assistir ao final da primeira viagem missionária de Paulo e Barnabé: desde a última cidade que visitaram, que se chamava Derbe, regressam a Antioquia, na Síria, de onde tinham partido. Quais eram os sentimentos dos dois apóstolos, no fim desta emocionante viagem missionária? O texto dos Actos mostra-nos claramente que, de volta a Antioquia, Paulo e Barnabé traziam o coração cheio de alegria e gratidão: quando partiram, iam “confiados na graça de Deus”; agora, ao regressar, “convocaram a Igreja”, e “contaram tudo o que Deus fizera com eles, e como abrira aos gentios a porta da fé” (Actos 14, 27). Tinha sido uma viagem cheia de frutos, à sua palavra muitas pessoas se tinham convertido, mas Paulo e Barnabé atribuem a Deus todas estas conversões, pois Deus é que tinha actuado, e eles tinham sido nas suas mãos instrumentos dóceis e fiéis.

E nós, que coisas fazemos para ajudar a abrir a muitas pessoas “a porta da fé”?

Quando damos catequese ou realizamos qualquer outro apostolado, quando falamos de Jesus aos nossos amigos ou abordamos temas de fé com tantas outras pessoas, confiamos na graça de Deus e na acção do Espírito Santo?

Procuramos não ser um obstáculo à acção de Deus e, pelo contrário, ser instrumentos dóceis nas suas mãos?

Tal como os pastorinhos de Fátima, rezamos e oferecemos sacrifícios pelas pessoas que desejaríamos que se convertessem a Jesus?

Quando surgem obstáculos ou dificuldades, pedimos ajuda a Deus, e continuamos alegres e confiantes, sem desistir nem desanimar?

Muitas pessoas desanimam, ao considerarem como é violento e injusto o mundo em que vivemos. Terrorismo, guerras, violências, roubos, abusos, ambição desordenada, desonestidade, imoralidade, e tantos outros males, são traços demasiado acentuados do mundo actual.

Não são os únicos, mas às vezes parecem sufocar o que há de bom na vida humana. O mal às vezes parece que é mais forte do que o bem e a verdade. O maligno parece às vezes que é o senhor do mundo. Quem irá prevalecer? Quem irá vencer definitivamente?

A Palavra de Deus também nos dá a resposta a esta pergunta. Lendo o Apocalipse, somos convidados a ver, na luz da fé, o que viu, com olhar profético, S. João: “Eu, João, vi um novo céu e uma nova terra… Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu da presença de Deus…” (Apocalipse 21, 1-2). É uma visão bela e grandiosa, que alenta a nossa esperança. Embora continuasse a viver num mundo muito violento e injusto, João viu em Deus “um novo céu e uma nova terra”, isto é, um Universo novo, ou antes, renovado, radicalmente transformado.

Haverá uma renovação física do Universo, para que ele próprio participe, à sua maneira, na glória de Cristo ressuscitado? Há vários passos do Novo Testamento que nos transmitem esta mensagem. No entanto, não sabemos quando nem como acontecerá essa renovação. O que sabemos, com toda a clareza, como diz o Apocalipse, é que haverá uma renovação moral e espiritual: o mundo novo e definitivo será um mundo sem maldade e sem pecado, em que a vitória de Cristo ressuscitado se estenderá a todas as dimensões da vida.

Deus acendeu nos nossos corações a esperança deste mundo novo, e não devemos deixar que a chama desta esperança se apague em nós. Não nos devemos resignar ao mundo, tal como ele existe hoje.

Este mundo não é definitivo, não nos «enche as medidas», e precisa de ser, desde já, profundamente purificado.

E pedimos por intercessão do Imaculado Coração de Maria, que esta purificação comece por nós, pelos nossos corações e por toda a nossa vida. Que a nossa vida seja já hoje renovada, convertida, pela graça de Cristo, e assim sejamos fermento de um mundo novo, transformado pela presença de Deus e pela sua inesgotável misericórdia.

Jesus não nos convida a uma vida ‘mediana’, em que apenas se procura não cometer grandes erros, nem grandes desvios, mas sim a uma vida entregue, segundo a medida do seu amor levado “até ao fim” (João 13, 1). As diversas religiões e sabedorias da humanidade é que são animadas por ideais de harmonia, equilíbrio, bom senso, mas a fé cristã é completamente diferente. Nós não somos chamados a um certo ‘equilíbrio’, mas sim uma entrega total, porque Jesus, ao morrer por nós, deu-nos a prova máxima do amor (João 15, 3).



E por isso, Jesus não nos manda ser apenas ‘boas pessoas’, mas diz-nos: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros”(João 13, 34).
 
Jerôme Nadal (ed.), Jesus lava os pás aos Apóstolos (1595)
 

Há muitos graus e formas de amor, e nem todas igualmente verdadeiras. Mas o amor a que Jesus nos chama é “novo”: “como Eu vos amei”. A Paixão de Jesus mostra-nos de um modo profundamente emocionante como foi, e até onde chegou este amor. Nunca ninguém amou como Jesus. Parece impossível atingir a perfeição e a intensidade do amor de Jesus. No entanto, o amor de Jesus é o modelo, a fonte, a inspiração e o referencial de todo o amor humano.

Todos nos podemos perguntar: estou a amar como Jesus? Ou o meu amor é apenas terreno, mundano fechado, egoísta? Os que são casados ou os que são solteiros, os noivos que preparam o seu casamento ou os jovens que estão no Seminário, os doentes e os sãos, os idosos e os mais novos: todos somos chamados a amar como Jesus. O amor de Jesus é dom, mais do que posse, é esquecimento de si, para pensar no outro, e é muitas vezes renúncia, feita com alegria, para fazer os outros mais felizes.

O amor de Jesus leva os namorados a guardar-se na pureza e castidade, até ao dia em que, pela mão de Jesus, cada um se dê ao outro para sempre. Leva os casais a uma fidelidade de coração e de todo o ser, que não se discute e nunca está em questão. E leva até alguns a renunciar a um amor humano, para servir com alegria e por amor, na Igreja, os outros irmãos.

“Como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros”. Segundo conta um autor do séc. III, Tertuliano, os primeiros cristãos tomaram tão a sério estas palavras de Jesus, que os gentios exclamavam, admirados: «Vede como eles se amam!» (Apologeticum 39, 7, CCL 1, 151).

Nós acreditamos no amor de Jesus, e acreditamos que é possível vivê-lo. Isto não significa que sejamos perfeitos: continuamos a ser imperfeitos e pecadores. Mas pedimos-Lhe que nos dê um coração novo, capaz de viver o seu mandamento novo, e assim antecipar, à nossa volta e no mundo em que vivemos, esse tempo que ansiosamente esperamos, em que o próprio Deus fará novas “todas as coisas”.

 

terça-feira, abril 23, 2013

É possível mudar de sexo? Quem «muda de sexo» pode casar»?


É possível mudar de sexo?
 
O texto que se segue é um resumo do livro de D. Elio Sgreccia, Manual de bioética: I. Fundamentos e ética biomédica. Aspectos médico-sociais, S. Paulo, Ed. Loyola, 2ª edição, 2002, pp. 499-525. (Ver aqui algumas passagens do livro sobre o assunto em apreço).
 
 

Lamentavelmente, a edição portuguesa deste mesmo livro, Manual de bioética, Lisboa, Principia Editora, 2009, (que é uma obra fundamental), não inclui este capítulo.
 
 

O Cardeal Elio Sgreccia é Presidente Emérito da Pontifícia Academia para a Vida.
 
 

Reproduzo o resumo de Dom Estêvão Bettencourt (OSB), adaptando o texto. (Dom Estêvão Bettencourt foi director e redactor da primeira revista sobre Apologética Católica do Brasil, a Pergunte e Responderemos (PR), publicação mensal do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, desde 1957 até 2008. Veja aqui uma lista dos seus artigos).
 
 

TRANSEXUALISMO

Distingam-se quatro pontos: 1) noção de transexualismo; 2) origem desta tendência; 3) liceidade da intervenção cirúrgica; 4) o matrimónio dos transexuais.

1. Transexualismo: Que é?

A fim de chegar a uma definição clara, considerem-se as modalidades de sexo:

1.      Sexo cromossómico, determinado pela presença ou ausência do cromossoma Y na bagagem genética da célula embrional do indivíduo. Indivíduos que têm um Y com um ou mais X são do sexo masculino; os que não têm Y são geneticamente femininos. Estes dados são resultado objectivo da fecundação.

2.      Sexo gonádico: baseia-se nas características histológicas da gónada. O sexo masculino possui tecido testicular, ao passo que o feminino possui tecido ovariano.

3.      Sexo dos canais genitais (ou ductal). O canal de Muller é próprio da mulher, o canal de Wolf é próprio do homem.

4.      Sexo fenotípico ou genital: é determinado pelas características dos genitais externos.

Na sexualidade física normal existe harmonia e concordância entre esses componentes citados; existem anomalias que determinam um estado de intersexualidade quando há discordância entre os caracteres genéticos, gonádicos, fenotípicos ou canais do sexo. As anomalias podem ser as seguintes:

a)     Pseudo-hermafroditismo: quando há discordância entre os caracteres fenotípicos ou genitais e os gonádicos e cromossómicos, e isso pode-se dar em duas situações:

1)     Pseudo-hermafroditismo feminino: os genitais são masculinos (mais ou menos diferenciados) enquanto as gónadas e a bagagem cromossómicas são femininas, no caso, p. ex., da síndrome androgenital congénita;

2)     Pseudo hermafroditismo masculino: os genitais são femininos, mas as gónadas e a bagagem cromossómica são masculinas, i. é, testiculares (síndrome de Morris ou do testículo feminilizante);

b)     Hermafroditismo verdadeiro (muito raro): há tecidos ovarianos e testiculares contemporaneamente. Também neste caso pode haver duas hipóteses; o caso geral é o que apresenta um fenótipo predominantemente masculino, ainda que haja genitais externos rudimentares, às vezes com a concomitância de "menstruações" depois da puberdade sob a forma de hematúria, devido à presença de um útero rudimentar.

Alguns distúrbios estão relacionados também com defeitos genéticos: p. ex., a síndrome de Klinefelter é devida à presença de 47 cromossomas com fórmula XXY ou em forma de mosaico XX-XY; o indivíduo apresenta genitais externos normalmente desenvolvidos no sentido masculino ou hipoplásticos associados a oligospermia ou a aspermia. A síndrome de Turner, ao contrário, é devida à presença de 45 cromossomos (falta o X), com fenótipo feminino e ausência de ovários férteis.

Essas várias formas de anomalias que dizem respeito aos componentes físicos do sexo e estão também compreendidas na legislação referente à rectificação do sexo não configuram o que se define como transexualismo propriamente dito. O transexualismo define-se como um conflito entre o sexo físico "normal" nos seus componentes atrás relacionados e a tendência psicológica que é sentida numa direcção oposta. Na quase totalidade dos casos, trata-se de indivíduos de sexo físico masculino que, psicologicamente, se sentem mulheres e tendem a identificar-se com o sexo feminino. São muito raros os casos em sentido contrário, ou seja, de indivíduos fisicamente mulheres que pretendem tornar-se homens.

O transexualismo apresenta-se como uma síndrome na qual existe uma "pulsão" psicológica, aparentemente primária (ou, de qualquer modo, surgida em tempos remotos), de pertencer ao sexo oposto ao genético, endócrino, fenotípico e obviamente também ao do registo civil, pulsão essa que é acompanhada por um comportamento psicossexual de tipo nitidamente oposto ao previsto pelo sexo anatómico, e que se associa ao desejo obsessivo de "libertar-se" dos atributos genitais que possui e de adquirir os do sexo oposto. Quando essa "pulsão" é de longa data e profundamente amadurecida, há uma fase de "irreversibilidade" que leva o indivíduo à intervenção cirúrgica correctiva: obviamente isso é mais fácil e traz resultados estético-funcionais apreciáveis quando o que é masculino se "corrige" para o feminino, sendo muito menos fácil e válida a direcção oposta.

Para explicar melhor essa anomalia, é bom distingui-la ainda de outras duas formas, que têm também raiz psicológica: o homossexualismo e o travestismo.

Na homossexualidade não se sentem os aspectos físicos do sexo num sentido ambíguo e conflituante; são usados em vista da satisfação erótica posta num indivíduo do mesmo sexo. O homossexual não deseja mudar de sexo, mas simplesmente ter relações sexuais com indivíduos do mesmo sexo.

O travestismo é uma síndrome na qual não há desejo profundo de mudança de sexo, mas a simples instauração de uma necessidade psíquica de usar roupas do outro sexo como condição necessária para conseguir a excitação sexual: a relação sexual tende a acontecer com indivíduos do sexo oposto.

2. Transexualismo: origem

Duas são as teorias que debatem a origem do transexualismo.

1) Seria devido a carências endócrinas e a mecanismos neuro-hormonais.

2) A maior parte dos autores defende, pelo contrário, a origem socio-psicogénica do transexualismo: seriam os estímulos extrínsecos provenientes do ambiente social e familiar no qual o paciente vive os que determinariam, por sua precocidade e absoluta persistência, a orientação sexual do transexual. A génese dessa anomalia seria devida a um processo de identificação da criança com a mãe e a irmã (híper-protectoras e possessivas) na ausência de uma consistente figura paterna, processo esse levado ao ponto de induzir o impulso de se tornar mulher.

A idade da instauração da anomalia, numa e noutra hipótese, remontaria aos primeiríssimos tempos da infância (1-2 anos).

A importância ética das diferentes origens estaria no facto de que a eventual origem orgânica das anomalias justificaria melhor, segundo alguns, a solicitação de intervenção correctiva mediante terapia médico-cirúrgica, enquanto a origem psicossocial comportaria consequentemente a legitimidade e a necessidade apenas de uma terapia psicológica, na hipótese de que seja eficaz.

Sobre a irreversibilidade de anomalia parece ser suficiente, mas não definitiva, a concordância entre os autores: a grande maioria considera que a anomalia não é reversível no sentido de possibilidade de harmonizar a psique com a configuração do sexo fenotípico; sobre este ponto parece haver concordância entre as afirmações tanto dos defensores da origem orgânica como dos defensores da origem psicossocial.

Parece confirmado cientificamente que a execução da intervenção médico-cirúrgica não leva a superar o conflito precedente, não recompõe a harmonia com o novo sexo, mas até parece agravar a sensação de frustração:

·        Passando à avaliação das consequências das intervenções, é preciso considerar antes de mais nada, realisticamente, que até a mais perfeita operação não realiza nunca uma autêntica e verdadeira mudança de sexo. A permanência da próstata e das vesículas seminais no transexual masculino e a impossibilidade de uma cópula fisiológica por parte do pénis artificial no transexual feminino não permitem falar de genitais respectivamente femininos e masculinos.

·        A pseudo-vagina é apenas uma imitação do órgão feminino, ainda que se adapte à cópula, e mais ainda o é o pénis postiço; assim sendo, por mais argumentações que se apresentem, não se pode sustentar que, sob o ponto de vista anatómico, o sexo tenha mudado.

Mais ainda. Como se demonstrou, haverá indivíduos mais anormais que antes. Realmente, enquanto antes da intervenção o contraste limitava-se à dissociação entre soma e psique, depois da intervenção isso fica mais complicado, por haver no mesmo soma um contraste entre os elementos de um sexo (genitais externos adaptados) e os do outro sexo (cromossómico e até hormonal). Tudo isso, para além da situação jurídica, não deixa de ter repercussão na vida do transexual. De facto, por meio de pesquisas realizadas, ficou claro que a intervenção cirúrgica nem sempre satisfaz às expectativas do transexual. Dificilmente se consegue a perfeita inserção do indivíduo no contexto social, sobretudo pela dificuldade que tem de resolver os problemas sexuais, uma vez que existe frequentemente a rejeição do parceiro pela sua situação, elemento este que cria ulteriores frustrações. E em alguns casos, vê-se que há reconsideração sobre a intervenção...

3. Intervenção cirúrgica nos casos de autêntico transexualismo

É o caso em que as dificuldades éticas são mais graves. Os que defendem a licitude da intervenção de adequação do sexo físico ao sexo psíquico fundamental apoiam suas razões nas seguintes motivações e situações de facto:

1. A situação psicológica é irreversível e, por isso, o que se tem de tentar é a terapia cirúrgica, i. é, a correcção física;

2. Deve-se optar pela procura da harmonia da pessoa, considerando-se essencial e prioritário a componente psicológica, a qual, neste caso, propende de maneira consciente e irreversível para a correcção do sexo físico. O princípio de totalidade deveria ser construído em função da componente psicológico e da opção psicológica;

3. A razão, não claramente professada, mas subentendida em todas as outras e predominante no momento cultural actual é a da reivindicação de liberdade em matéria de sexo, analogamente ao que acontece no caso do aborto, da esterilização, da manipulação genética e da fertilização in vitro: em todos esses casos, reivindica-se o domínio do indivíduo sobre a "própria" corporeidade e sobre a vida física em geral.

Em resposta a esses argumentos, seja dito:

a) A simples razão da irreversibilidade do mal-estar psíquico não dá sustentação à licitude da terapia cirúrgica.

Admitamos, por hipótese, que se trate de comprovada irreversibilidade. O princípio moral da "terapêutica" exige condições precisas para poder ser licitamente aplicado; estes são: que a intervenção tenha um bom percentual de sucesso, que a intervenção seja realmente terapêutica no sentido de ser dirigida ao bem de todo o físico, eliminando uma parte doente, que a intervenção seja o remédio para uma situação actual, de outro modo incurável, e respeite o bem superior e moral da pessoa. Ora, no nosso caso, estas condições não se verificam nem simultaneamente - como é moralmente exigido - nem individualmente.

É preciso lembrar que, do ponto de vista técnico, removedor-reconstrutivo, esse tratamento de "rectificação de sexo" no transexual é normalmente praticado através de várias fases sucessivas; antes de mais nada, procede-se a uma terapia hormonal que tem influência sobre alguns caracteres externos da sexualidade (configuração externa das mamas), a seguir se põe em prática uma psicoterapia que predisponha para a feminilização - caso mais frequente -acompanhando-a com a mudança dos hábitos do novo sexo, e enfim se pratica a intervenção removedora-reconstrutiva dos órgãos genitais externos. A intervenção tem um aparente sucesso no caso mais frequente da feminilização do transexual homem. Esta última fase comporta a mutilação dos genitais masculinos, a castração, a esterilização e a privação não só da função procriadora, mas até mesmo de uma verdadeira função copulativa.

Agora se entende que, como já ficou dito antes, a intervenção na parte física, para a finalidade de "mudança", não ajusta o sexo ao que é desejado; antes, introduz uma nova distonia no físico entre elementos cromossómico-gonádicos e órgãos externos; ficam estes totalmente sem inervação "procrioceptiva", permanecendo próteses artificiais e não órgãos de sentido e de expressão emotiva e funcional.

Nem se satisfaz o aspecto psicológico, como reconhecem todos, pois os distúrbios aumentam, e os indivíduos que estavam fixados numa solução do conflito, quando este não desaparece, quer porque a adequação física não é "sentida" como satisfatória, quer pela rejeição do eventual companheiro, muitas vezes acabam se suicidando.

Portanto, a intervenção cirúrgica não se justifica moralmente e é, por isso, ilícita.

b) Opção entre "sexo da mente" e "sexo do corpo". Além dos dados até aqui propostos, note-se o seguinte:

Na visão cristã, o corpo humano na sua objectiva conformação e significação de masculinidade e feminilidade exprime "objectivamente" a atitude de toda a pessoa e não apenas o seu aspecto fisicista provisório ou exterior. "Na visão cristã do homem reconhece-se uma especial função do corpo, pois este contribui para a revelação do sentido da vida e da vocação humana. A corporeidade é, de facto, o modo específico de existir e de operar próprio do espírito humano. Este significado é, em primeiro lugar, de natureza antropológica: 'o corpo revela o homem, exprime a pessoa' e é, por isso, a primeira mensagem de Deus ao próprio homem, como que uma espécie de 'sacramento primordial', entendido como um sinal que transmite com eficácia no mundo visível o mistério invisível escondido em Deus desde toda a eternidade". ([2]) Afirma a propósito João Paulo II: "Quando falamos do significado do corpo, fazemos referência em primeiro lugar à plena consciência do ser humano, mas entendemos também toda experiência efectiva do corpo em sua masculinidade-feminilidade e, em todo caso, a sua permanente predisposição para essa experiência" ([3]). O que o Santo Padre afirma coincide com o que é afirmado pelo Concílio sobre a natureza antropológica da corporeidade e da sexualidade e o torna mais explícito, como teremos ocasião de explicar mais adiante. Estas reflexões têm validade racional e objectiva mesmo no simples terreno filosófico.

c) A liberdade sexual como liberdade de escolha do sexo.

Não se pode ignorar que a pressão sociocultural é forte nesse sentido e, depois dos ensinamentos de Freud sobre o determinismo psicológico a propósito da sexualidade, depois das mensagens de Marcuse sobre a "liberalização do sexo" como pressuposto da revolução social e sobre a "sexualidade polimorfa", depois do clima de radicalismo a propósito de liberdade individual, depois de tudo isso, não é de causar espanto que as leis prossigam seu caminho de adequação aos impulsos de liberalização sem respeito à vida física, como aconteceu com o aborto, como está acontecendo com a esterilização.

Não nos deteremos nesse impulso cultural incentivado pelo hedonismo, por alguns estudos de sociólogos e de etólogos, impulso que poderia ser, por sua vez, um fato de difusão da patologia do transexual.

Com o que estamos dizendo, é lógico que não queremos insinuar uma atitude de rejeição diante da situação de sofrimento dessas pessoas, que devem, isso sim, ser ajudadas com métodos de psicoterapia e de apoio humano, como as outras pessoas que sofrem ou são deficientes, mas queremos apenas, talvez, deixar clara uma posição que lhes quer economizar ulterior sofrimento e julga não ser possível subverter a ordem ética da pessoa.

4. O Matrimónio dos transexuais

Nos casos de verdadeiro transexualismo, como consequência de tudo o que afirmamos a propósito da não-licitude da intervenção médico-cirúrgica para a mudança de sexo físico do transexual, acontece que o sexo modificado, posteriormente à intervenção, não é o verdadeiro sexo da pessoa. Além disso, nesses casos, a distonia entre psique e soma é tão forte e estruturada que a liberdade de decisão e, mais ainda, a harmonia entre sexualidade física, sexualidade psicológica e orientação comportamental ficam profundamente perturbadas.

Por isso não há dificuldade em se afirmar que o matrimónio, eventualmente exigido e celebrado depois de uma intervenção médico-cirúrgica, com um sexo que sob o ponto de vista físico é fictício e desfigurado, deve ser declarado arbitrário; tanto mais porque o distúrbio psicofísico deve ser considerado gravemente perturbador da liberdade de escolha e de consentimento. O caso não é muito diferente, a nosso ver, do de um homossexual que pedisse para se casar com uma pessoa do mesmo sexo.

O facto de o eventual parceiro estar a par da intervenção de modificação do sexo físico e ter aceitado esse tipo de união não muda o juízo moral objectivo, mas apenas exime de ulterior ilícito do dolo substancial.

 
Acrescento uma breve conclusão.
Do exposto resultam claramente, além de muitos outros aspectos:
1.                  A ilicitude de qualquer intervenção médico-cirúrgica para uma «mudança de sexo».
2.                 A evidente nulidade de qualquer matrimónio intentado por pessoas nestas circunstâncias, porque os órgãos modificados não passam de próteses artificiais e não órgãos de sentido e de expressão emotiva e funcional, constituindo, em termos canónicos, um evidente caso de impedimento de impotência antecedente e perpétuo.




[1] Elio Sgreccia, Manual de Bioética, 2 vols., tradução de Orlando Soares Moreira. - Ed. Loyola, São Paulo, 686 pp. e 455 pp. respectivamente.

[2] Congregação para a Educação Católica, Orientamenti educativi..., n. 22; JOÃO PAULO II, Audiência geral (12.09.1979), in Insegnamenti di Giovanni Paolo II, II, 2, p. 288; id., Audiência geral (20.02.1980), in Insegnamenti di Giovanni Paolo II, III, 1, p. 430.

[3] JOÃO PAULO II, Audiência geral (25.06.1980), in Insegnamenti di Giovanni Paolo II, III, 1, p. 1833.