domingo, abril 21, 2013

Pode ser Jesus a chamar


Um dia, Jesus andava a caminhar junto ao Templo de Jerusalém, no pórtico de Salomão, e foi rodeado por um grupo de homens. Recordemos o texto de S. João:

“Era inverno. Jesus passeava no templo, no pórtico de Salomão. Os judeus rodearam-No e perguntaram-Lhe: Até quando nos deixarás na incerteza? Se tu és o Cristo [isto é, o Messias], diz-nos claramente. Jesus respondeu-lhes: Eu vo-lo digo, mas não acreditais. As obras que faço em nome de meu Pai, estas dão testemunho de mim. Entretanto, não credes, porque não sois das minhas ovelhas” (João 10, 22-26).


Jerôme Nadal (ed.), Os Judeus rodeiam Jesus no Pórtico de Salomão (porm.)


Comenta Santo Agostinho: “Esses não procuravam a verdade, mas estavam a tramar uma cilada. Se era inverno e estavam cheios de frio, por que é que não faziam nada para se aproximarem daquele fogo divino? Aproximar-se significa acreditar. Quem crê, aproxima-se. Quem nega, afasta-se. A alma não se move com os pés, mas com o afecto do coração. Neles, tinha-se apagado totalmente o fogo da caridade, e ardia somente o desejo de fazer mal. Estavam muito distantes embora estivessem ali. Não se aproximavam pela fé, mas estavam à sua volta, perseguindo-O. Queriam ouvir dizer do Senhor: E sou o Messias. Mas do Messias tinham uma opinião somente humana” (Homilia 48 sobre o Evangelho de S. João, n. 3)

Jesus entristeceu-Se profundamente pela sua dureza de coração e pela sua falta de fé, e disse-lhes: “Vós não acreditais, porque não sois das minhas ovelhas” (João 10, 26).

No entanto, Jesus sabia que havia outros que ouviam com amor as suas palavras, como as ovelhas que reconhecem com alegria a voz do pastor, e vão com ele para toda a parte. E sobre estes, disse: “As minhas ovelhas escutam a minha voz. Eu conheço as minhas ovelhas, e elas seguem-Me. Eu dou-lhes a vida eterna” (João 10, 27-28).

Os que hoje são pastores em nome de Jesus –o Papa, os Bispos e os sacerdotes – é isto que têm de oferecer às suas ovelhas: a vida eterna. É para aí que as têm de encaminhar: para vida eterna. Tudo o resto é secundário. Tudo o resto é relativo. Volto ao comentário de Santo Agostinho: “Aqui está a pastagem. (…) A vida eterna é apresentada como uma boa pastagem. A erva não seca, onde tudo está sempre verdejante e cheio de vida. Nessa pastagem encontra-se somente a vida (ibid., n. 5).

Falando de novo das suas ovelhas, assegura Jesus: “E elas jamais hão-de perecer” (João 10, 28), subentendendo-se, segundo Santo Agostinho, que, aos que O rodeavam, Jesus quer advertir: “E vós perecereis eternamente, porque não sois das minhas ovelhas(ibid., n. 6).

Jesus acrescenta ainda, falando das suas ovelhas: “E ninguém as arrebatará da minha mão” (João 10, 28). É evidente que sempre houve e há, também hoje, muitas, dificuldades, perseguições, tentações de todo o tipo, que nos poderiam afastar de Jesus, mas nunca ninguém o conseguirá, se nós não consentirmos, porque foi o Pai que nos deu a Jesus, “e ninguém pode arrebatar nada da mão do Pai” (João 10, 29).  

Isto implica que podemos viver a nossa fé com a consciência dos muitos perigos que a rodeiam, mas também com grande confiança: fomos dados a Jesus pelo Pai, e por isso acreditamos que ninguém nos pode roubar da mão de Jesus, ninguém nos pode arrebatar da mão do Pai.

Pergunta Agostinho: “Que pode fazer o lobo? Que podem fazer o ladrão e o salteador? (...) Destas ovelhas, o lobo não pode arrebatar nenhuma, nem o ladrão roubar, nem o salteador matar. Aquele que sabe o quanto pagou por elas, está seguro do seu número” (ibid., n. 6).

Este episódio que teve lugar no Templo, no pórtico de Salomão, termina de uma maneira dramática. Jesus disse-lhes claramente: “Eu e o Pai somos um” (João 10, 30). Então “os Judeus pegaram de novo em pedras para o apedrejar” (João 10, 31). Jesus defende-Se, argumentando que as suas obras revelam que está unido ao Pai: “o Pai está em mim e eu no Pai” (João 10, 38). “Procuraram então prendê-lo, mas Ele escapou-Se das suas mãos” (João 10, 39). Foi a última vez que esteve no Templo. Não mais lá voltou. Nessa altura, foi para além do Jordão, e muitos acreditaram n’Ele (João 10, 42).

Quanto a nós, sabemos bem que tudo começa pela escuta da voz do Bom Pastor: “As minhas ovelhas escutam a minha voz” Depois é que vem o conhecimento e o seguimento: “Eu conheço as minhas ovelhas, e elas seguem-Me”. É necessário dispormo-nos a escutar, baixar o ruído à nossa volta, fazer silêncio para ouvir, procurar captar e entender, e depois seguir o Pastor.

Estas palavras de Jesus, no entanto, põem-nos uma questão: como podemos escutar a sua voz?
Escutamos Jesus, principalmente, na leitura do Santo Evangelho, na nossa oração pessoal e na Liturgia da Igreja. Todos temos a experiência de que é assim.

No entanto, também sabemos que nunca ninguém ouviu Jesus na intimidade do seu coração, sem que primeiro, antes, alguém lhe tenha já feito pelo menos um primeiro anúncio de Jesus. Não se descobre Jesus por simples meditação, mas pelo testemunho de um outro cristão, que já vive a graça de fé. Sem haver um primeiro anúncio de Jesus Cristo, feito por um outro cristão, será impossível conhecê-Lo e amá-Lo.

Nos Actos dos Apóstolos, lemos como Paulo e Barnabé anunciavam Jesus Cristo em várias cidades da Ásia Menor. Numa dessas cidades, Antioquia da Pisídia, (na actual Turquia), houve muitos Judeus e prosélitos, isto é, convertidos ao judaísmo, que, após a pregação de S. Paulo, passaram a seguir os dois apóstolos, e “no sábado seguinte, reuniu-se quase toda a cidade para ouvir a palavra do Senhor” (Actos 13, 44). Como era de prever, surgiram invejas e blasfémias por parte dos Judeus, e então Paulo e Barnabé perceberam que deviam voltar-se especialmente para os gentios. Sentiram que era necessário fazê-lo, e era isso que Deus queria. Naturalmente, quando ouviram isto, “os gentios encheram-se de alegria, e glorificavam a palavra do Senhor” (Actos 13, 48). Houve grande entusiasmo e muitas conversões! É claro que também houve logo perseguições, Paulo e Barnabé foram expulsos da cidade, e tiveram que seguir para uma cidade vizinha, Icónio, mas não se afligiram por causa disso, e “os discípulos estavam cheios de alegria e do Espírito Santo” (Actos 13, 52).

Qualquer cristão pode falar de Jesus a outra pessoa? Sim, este anúncio de Jesus, que conduz á fé, cada cristão pode fazê-lo, com toda a naturalidade, em todas as circunstâncias, a qualquer outra pessoa, mas há alguns, por vontade de Deus, como S. Paulo e os outros Apóstolos, que são especialmente consagrados para o fazerem. E é necessário que seja assim. Faz parte da dinâmica da vida cristã, que alguns dediquem a sua vida ao anúncio de Jesus Cristo e ao serviço dos seus irmãos. Como escreveu o Beato João Paulo II na sua mensagem para o Dia Mundial de Oração pelas Vocações de 2004, “trata-se de homens e mulheres que aceitam colocar a existência totalmente ao serviço do seu Reino”.

Não é uma simples decisão sua, mas é Deus que os chama, na Igreja, para o bem de todos. E é por isso que hoje todos nos unimos em oração ardente pelas vocações de especial entrega a Deus, e em particular pelas vocações ao sacerdócio, à vida consagrada e ao serviço missionário. É necessário pedir confiadamente a Deus estas vocações. João Paulo II dizia que é preciso implorar este dom “com insistência e humildade confiante”.

Nas paróquias e nas famílias esta oração deve ser constante. Além da oração, podemos oferecer com amor sofrimentos e sacrifícios pelas vocações. O Beato João Paulo II, que conhecia por experiência, sobretudo na fase final da sua vida, o que é o doença e o sofrimento que a acompanha, lembrava que “muitos doentes, em todas as partes do mundo, unem os seus sofrimentos à Cruz de Jesus, para implorar vocações santas!” E depois, falando de si próprio, dizia com gratidão: “Eles acompanham-me espiritualmente também a mim, no ministério de Pedro que Deus me confiou, e oferecem à causa do Evangelho uma contribuição inestimável, embora muitas vezes de modo totalmente oculto”. Que podemos também nós oferecer, para que haja mais vocações sacerdotais e outras vocações de total dedicação ao anúncio de Jesus Cristo?

Aqueles que Jesus chama são pessoas normais, habitualmente jovens, iguais aos outros jovens da sua idade, rapazes ou raparigas. E às vezes acontece, quando menos se espera, que se começa a ouvir um apelo especial. É Jesus que chama. Em alguns casos, torna-se logo uma evidência. Noutros, talvez mais frequentes, não se tem logo a certeza. E então começa um caminho, que pode ser longo, de procura e discernimento.

Se alguém sentir esse apelo especial de Jesus, não feche o coração. Procure ouvir melhor. Pode ser Jesus a chamar. E, se for Jesus, um dia ouvirá nitidamente. O Bom Pastor fala claramente. A sua voz é inconfundível. E aquilo que um dia pode ter sido uma surpresa, então será uma certeza. Mas é preciso que as vozes do mundo não se sobreponham à voz do Senhor.

sábado, abril 13, 2013

Uma tarefa de amor


Uma tarefa de amor

O Evangelho de S. João, no seu último capítulo, diz-nos que Jesus ressuscitado confiou a Pedro uma missão. É a missão mais extraordinária e de maior responsabilidade que alguma vez foi confiada a um ser humano. “Apascenta os meus cordeiros… Apascenta as minhas ovelhas” (João 21, 15-17). Pedro desempenhou-a até ao dia em que se cumpriu este anúncio de Jesus: “… outro te cingirá e te levará para onde não queres” (João 21, 18), isto é, até ao dia da sua morte. Pedro morreu em Roma, no ano 64, crucificado como Jesus. Uma fonte muito antiga diz-nos que Pedro, por humildade, pediu para ser crucificado de cabeça para baixo. Pedro deu a vida, como Jesus, mas a sua missão prosseguiu naqueles que lhe sucederam, até hoje, até ao Papa Francisco, e assim continuará a ser, até ao fim dos tempos.

Pedro recebeu de Jesus uma responsabilidade maior que ele, maior que o seu coração. O mesmo aconteceu com o conjunto dos Apóstolos. Jesus confiou-lhes o mundo inteiro, todos os homens de todos os tempos. Quando o Papa, sucessor de Pedro, avalia a grandeza divina da missão que Jesus Cristo lhe confiou; ou quando um bispo, sucessor dos Apóstolos, sente até onde chega a sua missão pastoral; ou até quando um sacerdote toma consciência de que Jesus lhe confiou os seus irmãos, como pastor das suas almas, acredito que só pode haver um sentimento: é uma missão maior que o coração humano. Como é possível aceitá-la, como é possível cumpri-la?

Se fosse uma simples tarefa humana, seria impossível. Ou então, só poderia ser realizada por pessoas muito excepcionais. Mas Jesus quis que fosse realizada por pessoas normais, como Pedro, pescador da Galileia. É possível? Sim, mas com uma condição: que o seu coração seja engrandecido pelo amor a Jesus. Por isso, Jesus ressuscitado perguntou a Pedro, não apenas uma, mas três vezes: “Simão, filho de João, tu amas-Me?” Inicialmente, e porque a missão de Pedro é única e singular na Igreja, Jesus perguntou-lhe: “Tu amas-Me mais do que estes?” Mas depois, nas duas vezes seguintes, Jesus perguntou apenas: “Tu amas-Me?” E Pedro, com absoluta transparência e sinceridade, respondeu, sem esconder a tristeza pelo seu fraco amor passado, mas agora com uma força nova, e confiando plenamente em Jesus: “Senhor, Tu sabes tudo, bem sabes que Te amo”.

A missão que Jesus Cristo confiou a S. Pedro, bem como aos Apóstolos e aos seus sucessores e colaboradores, não é uma simples tarefa humana, é um «amoris officium», um «ofício de amor», como diz Santo Agostinho: “Sit amoris officium pascere dominicum gregem” (“Que seja uma tarefa e um dever de amor apascentar o rebanho do Senhor”: In Iohannis Evangelium Tractatus 123,5).

Só este amor a Cristo é que permite cumpri-la. Sem ele, seria impossível! No entanto, este amor a Cristo, que permite a alguns homens dedicar a sua vida ao serviço da fé dos seus irmãos, é Cristo que o dá. É Ele que chama, é Ele que envia, é Ele que confia àqueles que entende, esta missão e a sua imensa responsabilidade.

Na Igreja, a função pastoral foi sempre uma «tarefa de amor». É por isso que é normal e muito conveniente que aqueles que a exercem como bispos ou sacerdotes vivam a sua vocação na radicalidade interior de uma entrega total. Os sacerdotes não se casam, não porque não admirem o matrimónio ou não respeitem os casais que vivem em matrimónio, muito pelo contrário, mas porque a sua vida tem a dinâmica de uma entrega total, por amor, a Jesus Cristo e à Igreja. Assim, o seu coração não se estreita, mas engrandece-se, e torna-se capaz de estar atento a cada um, e de servir cada um, segundo as suas circunstâncias particulares e as exigências pessoais do seu caminho para Deus.

Pode objectar-se que também há pessoas que vivem na sua profissão muito dedicadas aos outros, e se casam normalmente: por que não os sacerdotes? Sim, é verdade, mas o celibato dos sacerdotes é o sinal de uma escolha e de uma consagração feita por Jesus a alguns dos seus irmãos ao serviço de todos, e é o sinal desta entrega total, em resposta ao chamamento inteiramente livre e gratuito de Jesus.

Que ninguém tenha medo, se for chamado por Jesus Cristo por este caminho! Como é um dom do Coração de Jesus, é preciso pedir-Lhe que o dê! Na sua Carta aos sacerdotes, da Quinta-Feira Santa de 2004, escreveu o Papa Beato João Paulo II: “Na verdade, as vocações são um dom de Deus, que se devem suplicar incessantemente. (…) A oração, enriquecida pela oferta silenciosa do sofrimento, é o primeiro e mais eficaz meio da pastoral vocacional. Rezar é manter fixo o olhar em Cristo, confiando que d’Ele mesmo, único sacerdote, e da sua divina oblação, brotam abundantemente, pela acção do Espírito Santo, os germes de vocação necessários em cada época para a vida e a missão da Igreja” (n. 5).

No final do diálogo que o Evangelho de S. João descreve, Jesus disse a Pedro, simplesmente: “Tu segue-Me” (João 21, 22) (em latim: “Tu me sequere”). É tão simples e tão fácil como isto: seguir Jesus, ir com Ele, nunca se afastar d’Ele, para dar a vida por todos, como Jesus, e a todos e cada um ajudar a crescer no amor a Deus e na santidade da vida cristã.

Na Igreja, todos vivemos a alegria da fé e o assombro de reconhecer a presença de Jesus ressuscitado no meio de nós. Precisamos de pedir para todos esta capacidade de reconhecimento imediato de Jesus na nossa vida, como o discípulo "a quem Jesus amava", que exclamou com grande alegria: “É o Senhor” (João 21, 7). E pedimos também o entusiasmo e a prontidão de Simão Pedro: “quando ouviu dizer que era o Senhor” (João 21, 7), lançou-se ao mar, para se encontrar com Jesus quanto antes, porque tinha um grande desejo de estar com Jesus, e nunca se separar d’Ele.

Jerôme Nadal (ed.), Aparição de Cristo junto ao mar de Tiberíades

O segredo da vida da Igreja é realizar fielmente, em cada momento, o que Jesus nos pede. Naquela noite, os discípulos tinham ido pescar, mas “não apanharam nada” (João 21, 3). Mas, “ao romper da manhã”, o próprio Jesus ressuscitado, ainda antes de ser reconhecido, disse aos discípulos: “«Lançai a rede para a direita do barco e encontrareis». Eles lançaram a rede, e já mal a podiam arrastar por causa da abundância de peixes” (João 21, 4-6). Se formos dóceis ao que Jesus nos disser, pela voz da Igreja, na direcção espiritual ou no silêncio da nossa oração, seremos surpreendidos pela fecundidade extraordinária dos nossos esforços.
Naquele dia, Jesus preparou com grande carinho uma refeição aos seus discípulos. Hoje, com infinito amor, alimenta-nos com o Pão santíssimo da Eucaristia. Que nenhuma dificuldade ou incompreensão silencie o nosso anúncio de Jesus Cristo, e que as nossas vozes se juntem ao louvor tributado pelo universo inteiro, pelos anjos e por todos os santos “Àquele que está sentado no Trono, e ao Cordeiro”, como diz o Livro do Apocalipse. A Ele “o louvor e a honra, a glória e o poder, pelos séculos dos séculos” (Apocalipse 5, 13). 

A fé é um salto para o abismo?

A fé é um salto para o abismo?
 
1. No relato das aparições de Jesus ressuscitado, segundo o Evangelho de S. João, podemos distinguir dois momentos, e depois deles um terceiro, que acontece no presente. Primeiro, a vinda de Jesus na tarde daquele dia, “o primeiro da semana”: “Veio Jesus, colocou-Se no meio deles, e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor” (João 20, 19-20).
Na madrugada desse dia, já Maria Madalena tinha visto a pedra retirada do sepulcro: “Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde O puseram” (João 20, 2). Alertados por ela, Pedro e o “outro discípulo” correram ao sepulcro. Diante dos sinais da morte de Jesus, as ligaduras e o sudário, que agora eram sinais de vida, o discípulo que acompanhava Pedro “viu e acreditou” (João 20, 8).
A eles se refere Jesus, ao dizer a Tomé, oito dias depois: “Porque me viste, acreditaste. Felizes os que acreditaram sem terem visto” (João 20, 29). É bom notar que a forma correcta do verbo, no texto original, é: acreditaram, e não: acreditam. (Veja-se a versão da Neo-Vulgata: “Dicit ei Iesus: «Quia vidisti me, credidisti. Beati, qui non viderunt et crediderunt!»”). Pedro e o outro discípulo, antes de verem Jesus, acreditaram na sua ressurreição. Viram os sinais, e acreditaram no mistério.
Jerôme Nadal (ed.), Aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos e a Tomé
 
Daqui podemos concluir que a fé não é cega nem irracional. Apoia-se em sinais, em factos carregados de significado, que são como setas que mostram o caminho e conduzem o homem até ao próprio mistério de Deus. Hoje, quase dois mil anos depois, a nossa fé apoia-se no testemunho daqueles que viram: primeiro, viram os sinais – o túmulo vazio, o sudário, as ligaduras – e depois viram o próprio Jesus ressuscitado. Julgamos que o seu testemunho é digno de crédito, até porque deram a vida por aquilo que anunciaram. Apoiados nesse testemunho, também nós acreditamos, e a nossa fé é luminosa e serena, tranquila e forte.
2. O segundo momento é o diálogo, muito breve, entre Tomé, “um dos Doze”, que “não estava com eles quando veio Jesus”. Estes disseram-lhe: “Vimos o Senhor”. Mas ele respondeu-lhes: “Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei” (João 20, 24-25). Tomé recusa o testemunho dos seus companheiros, e com isto arrisca-se a ficar definitivamente separado de Cristo e separado dos outros.
Relendo este diálogo, podemos compreender melhor o que é a Igreja. A Igreja é uma comunidade de fé, que vive o mistério da ressurreição de Cristo. Quando entramos nela, a primeira coisa que nos dizem é: «Vimos o Senhor». Isto foi o que nos disseram os Apóstolos.
E porque foi isto que nos disseram os Apóstolos, as primeiras palavras que a Igreja diz a quem a procura ou nela entra são: «Jesus ressuscitou». Se aceitamos este anúncio, experimentamos a comunhão da Igreja, graças à qual “todos os que haviam abraçado a fé viviam unidos e tinham tudo em comum”, como lemos nos Actos dos Apóstolos (2, 44). Se o recusarmos, como inicialmente o recusou Tomé, mergulhamos na solidão e no cepticismo. Ficamos sós, com os nossos preconceitos e com o nosso egoísmo.
Tomé, porém, não ficou só, porque o próprio Jesus, “oito dias depois”, o retirou da solidão e da dúvida, mostrando-lhe as cicatrizes gloriosas da sua Paixão, e dizendo-lhe, com um tom imperioso e amigo ao mesmo tempo: "Deixa de ser incrédulo, torna-te crente!"
E S. Tomé não se limita a reconhecer, com uma certa vergonha e arrependimento: «Tinham razão, era verdade...» Mas faz um extraordinário acto de fé, que o leva muito para além do que os seus olhos vêm. Tomé vê a humanidade ressuscitada de Jesus Cristo, e reconhece a sua divindade: “Meu Senhor e meu Deus” (João 20, 28). Vê o sinal da humanidade glorificada de Jesus, e crê na divindade, que os seus olhos não podiam ver. Afinal, também Tomé deu este salto – dos sinais para o mistério, do visível para o invisível, que define o acto de fé, este passo em frente, que também nós damos, que não nos lança no abismo, mas nos braços de Deus.
3. Terceiro momento: hoje. A liturgia do 2º Domingo da Páscoa convida-nos a fazer o mesmo acto de fé em Jesus ressuscitado que os Apóstolos fizeram, e a dar com eles este passo em frente, para além do que vemos ou sentimos.
Diante de Jesus ressuscitado também nós dizemos: «Meu Senhor e meu Deus». Mas, ao proceder assim, permitimos que Jesus Cristo nos leve mais longe do que alguma vez podíamos tínhamos imaginado, no sentido de uma vida cristã mais coerente, mais exigente, mais radical.
É isto, no fundo, que significa celebrar a Páscoa: um grande deslumbramento, que nos conduz a um novo seguimento de Jesus Cristo, a um compromisso total, a uma obediência alegre, a uma entrega incondicional.

terça-feira, março 05, 2013

Fazer penitência. Do Concílio ao Conclave.

Preparar o Conclave


Michelangelo Buanarroti, Interior da Capela Sistina (1475-83; 1508-12; 1535-41)


Antes do início do Concílio Vaticano II, o Papa João XXIII escreveu uma Encíclica, em que convidava toda a Igreja a uma preparação intensa do grande acontecimento eclesial que já estava muito próximo.

Este seu apelo terá sido correspondido pelos católicos daquele tempo?

Não temos maneira de saber, nem nos é possível julgar – a não ser pelos frutos – se assim foi ou não.

De resto, Bento XVI no seu último encontro com o clero de Roma, em 14 de Fevereiro passado, já depois de ter anunciado a sua renúncia, fez uma sugestiva avaliação do Concílio, ou antes, dos dois Concílios que acabaram por existir.

Referiu que existia “o verdadeiro Concílio – mas havia também o Concílio dos meios de comunicação”. E foi este que predominou, e criou “tantas calamidades, tantos problemas, realmente tanta miséria: seminários fechados, conventos fechados, liturgia banalizada..., enquanto o verdadeiro Concílio teve dificuldade em se concretizar, em ser levado à prática”.

Conclui, porém, afirmando a sua convicção de que é agora, passados cinquenta anos, que “se afirma o verdadeiro Concílio com toda a sua força espiritual”. E terminou deste modo o seu longo e emotivo discurso ao clero de Roma, já com sabor de despedida:

“E é nossa missão, precisamente neste Ano da Fé, começando deste Ano da Fé, trabalhar para que o verdadeiro Concílio, com a própria força do Espírito Santo, se torne realidade e seja realmente renovada a Igreja. Temos esperança de que o Senhor nos ajudará. Eu, retirado, com a minha oração estarei sempre convosco e, juntos, caminhemos com o Senhor, na certeza de que vence o Senhor!”

Recuando agora no tempo mais de 50 anos, será interessante lembrar o que pediu João XXIII aos católicos, poucos meses antes de se iniciar o Concílio Vaticano II.

Fê-lo através da Encíclica Paenitentiam agere (Fazer penitência), publicada no 1° dia de Julho de 1962, ao tempo (e ainda hoje, na Forma Extraordinária do Rito Romano) festa do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Já o título da Encíclica é muito expressivo: fazer penitência! E começa assim:

“Fazer penitência pelos próprios pecados é, para o homem pecador, segundo o explícito ensinamento de nosso Senhor Jesus Cristo, a primeira condição, não apenas para solicitar o perdão mas ainda para chegar à salvação eterna. Evidente se torna, pois, quão justificada é a atitude da Igreja Católica, dispensadora dos tesouros da divina Redenção, a qual sempre considerou a penitência como condição indispensável para o aperfeiçoamento da vida de seus filhos e para seu melhor futuro” (n. 1).

E recorda o que ele próprio tinha feito logo na convocação do Concílio:

“Por este motivo, na constituição apostólica de convocação do Concílio Ecuménico Vaticano II, quisemos dirigir aos fiéis o convite para dignamente se prepararem para o grande acontecimento não só com a oração e com a prática ordinária das virtudes cristãs, mas também com a mortificação voluntária” (n. 2).

Mas estava na altura, pensa João XXIII, de “renovar com maior insistência a mesma exortação”. O Concílio iria começar poucos meses depois, em 11 de Outubro desse ano!

Evoca então os apelos à penitência no Antigo Testamento, salienta o lugar que teve a penitência no ensino de Jesus Cristo e dos Apóstolos, e lembra o pensamento e a prática da Igreja ao longo dos séculos, nomeadamente na preparação dos Concílios anteriores.

E finalmente exorta: é preciso que haja oração e penitência.

Em cada diocese, na iminência do Concílio, deverá haver “uma solene novena em honra do Espírito Santo”, e também “ uma função penitencial propiciatória” (nn. 14-15).

Mas é sobre a penitência que se detém mais longamente. Primeiro, a penitência interior:

“Antes de tudo é necessária a penitência interior, isto é, o arrependimento e a purificação dos próprios pecados, o que especialmente se obtém com uma boa confissão e comunhão, e com a assistência ao sacrifício eucarístico. A este género de penitência deverão ser convidados todos os fiéis durante a novena ao Espírito Santo. Vãs seriam, com efeito, as obras exteriores de penitência se não fossem acompanhadas da limpeza interior da alma e do sincero arrependimento dos próprios pecados. Neste sentido deve-se entender o severo aviso de Jesus: «Se não fizerdes penitência, todos igualmente perecereis» (Lucas 13, 5)” (n. 16).

Lemos este passo no Evangelho do 3º Domingo da Quaresma (no Ano C), com uma tradução portuguesa diferente: “E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante”. (Mas a tradução do texto da Encíclica parece mais conforme com a versão latina da Vulgata e da Neo-Vulgata: “Sed, si non paenitentiam egeritis, omnes similiter peribitis”.

E depois João XXIII fala da penitência externa:

“Além disto, devem os fiéis ser convidados também à penitência exterior, quer para sujeitarem o corpo ao comando da recta razão e da fé, quer para expiarem as suas culpas e as dos outros (…). A primeira penitência exterior que todos devemos fazer é a de, com ânimo resignado e confiante, aceitarmos de Deus todas as dores e sofrimentos que se nos deparam na vida, e tudo o que importa fadiga e incómodo no exacto cumprimento das obrigações do nosso estado, no nosso trabalho quotidiano e no exercício das virtudes cristãs".

E continua:

“Além das penitências que necessariamente temos de enfrentar pelas dores inevitáveis desta vida mortal, é preciso que os cristãos sejam tão generosos a ponto de também oferecerem a Deus mortificações voluntárias, à imitação do nosso divino Redentor, que, segundo a expressão do príncipe dos apóstolos, «morreu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, a fim de vos conduzir a Deus. Morto na carne, foi vivificado no espírito» (1 Pedro 3, 18)”. (…)

“Sirvam nisto de exemplo e de incitamento também os santos da Igreja, cujas mortificações infligidas ao seu corpo, não raro inocentíssimo, enchem-nos de admiração e quase nos assustam. Ante esses campeões da santidade, cristã, como não oferecer ao Senhor alguma privação ou pena voluntária da parte também dos fiéis, que talvez tantas culpas tenham a expiar? Elas são tanto mais agradáveis a Deus quanto não vêm da enfermidade natural da nossa carne e do nosso espírito, mas espontânea e generosamente são oferecidas ao Senhor em holocausto de suavidade” (n. 17-19).

Assim se exprimiu João XXIII, e se estas suas palavras nos parecerem surpreendentes, senão chocantes, isso dever-se-á apenas a que esta dimensão da vida cristã foi esquecida e sistematicamente desprezada entre nós, nomeadamente na catequese e na pregação, nas últimas décadas.

Mas temos de a recuperar, para alcançarmos a nossa santificação e a conversão do mundo.

Mas agora aproxima-se a eleição de um novo Papa. A Igreja parece fragilizada, e enfrenta tremendos problemas, cuja consciência levou Bento XVI à grave e dolorosa decisão de renunciar ao exercício do ministério petrino, para que outro Papa os possa enfrentar, com nova fortaleza e capacidade de governo.

Que poderemos então fazer? No fundo, é simples: o que pediu João XXIII.

Quase 51 anos depois, o que podemos e devemos fazer, agora que estamos na iminência, não de um Concílio, mas de um Conclave que elegerá o novo Papa, será recuperar os pedidos do Beato João XXIII, e aplica-los ao momento actual, de cuja gravidade ninguém poderá ter dúvidas.

Em primeiro lugar, seguindo a sua primeira sugestão, também hoje poderemos fazer uma novena em honra do Espírito Santo, para invocar sobre os Cardeais proximamente reunidos em Conclave “a abundância das luzes celestes e das graças divinas”

Um bom modo de realizar hoje esta novena será recitar durante nove dias seguidos o hino «Veni Creator Spiritus». Transcrevo a seguir a letra latina deste hino e uma possível tradução literal:

 

Veni, Creator Spíritus, mentes tuórum visita,
imple supérna grátia, quae tu creásti péctora.
Qui díceris Paráclitus, altíssimi donum Dei,
fons vivus, ignis, cáritas, et spiritális únctio.
Tu septifórmis múnere, dígitus paternae déxterae,
tu rite promíssum Patris, sermóne ditans gúttura.
Accénde lumen sénsibus; infunde amórem córdibus,
infírma nostri córporis virtúte firmans pérpeti.
Hostem repéllas lóngius, pacémque dones prótinus;
ductóre sic te praevio vitemus omne noxium.
Per te sciámus da Patrem, noscamus atque Filium;
teque utriúsque Spíritum credamus omni témpore.
Deo Patri sit glória, et Fillio, qui a mórtuis
surréxit, ac Paráclito, in saeculórum saecula. Amen.
Vinde Espírito Criador, visitai as almas vossas,
enchei da graça do alto, os corações que criastes.
Sois chamado Consolador, o dom de Deus Altíssimo,
fonte viva, fogo, caridade, e unção espiritual.
Sois formado de sete dons, o dedo da direita de Deus,
Solene promessa do Pai que inspira as palavras.
Iluminai os sentidos, infundi o amor nos corações,
fortalecei para sempre os nossos corpos enfermos.
Afastai o inimigo, dai-nos a paz sem demora,
e assim guiados por Vós, evitaremos todo o mal.
Fazei-nos conhecer o Pai, e revelai-nos o Filho,
para acreditar sempre em Vós, Espírito que de ambos procedeis.
Glória seja dada ao Pai, e ao Filho, que da morte ressuscitou,
e ao Espírito Paráclito, pelos séculos dos séculos. Amen.

 

Depois, poderá rezar-se a oração colecta da Missa pro eligendo Pontifice, da Forma Extraordinária do Rito Romano:

Suplicamos, ó Deus, com humildade: que a vossa imensa piedade conceda à Sacrossanta Igreja Romana um Pontífice; que, por seu zelo por nós, possa ser-Vos agradável, e que seja assíduo no Governo da Igreja para a glória e honra do Vosso nome. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amen.

Ou então a Colecta da Missa para a eleição do Papa ou do Bispo, da Forma Ordinária do Rito Romano:

Ó Deus, pastor eterno, que governais o vosso povo com providente solicitude, concedei à Igreja, pela vossa bondade infinita, o pastor que seja do vosso agrado pela santidade da sua vida e inteiramente consagrado ao serviço do vosso povo. Por Nosso Senhor Jesus cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo. Amen.

Finalmente, será da maior oportunidade meditar e levar à prática tudo o que João XXIII diz sobre a penitência.

E considerando que estamos na Quaresma, que é um tempo penitencial por excelência, faz sentido que cada católico, sob a permissão ou a orientação do seu confessor ou director espiritual, escolha uma penitência especial e adicional pelo governo pastoral da Igreja e pela pesada responsabilidade que será colocada sobre o Colégio Cardinalício, que muito em breve vai reunir-se em Conclave.

Para que seja eleito um Papa sábio, santo e forte, um Papa que não tenha medo dos lobos, e que governe com fortaleza a Santa Igreja.

 







 

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

Não podemos ter dois Papas


Não podemos ter dois Papas

Depois das sentidas homenagens a Bento XVI, que culminaram na sua última audiência geral, é tempo de fazer silêncio.

É tempo de retirar das sacristias a sua fotografia, e de não mais dizer o seu nome na Oração Eucarística.

É tempo – com grande tristeza o digo – de não mais vermos nem ouvirmos Bento XVI, que voluntariamente vai entrar num recolhimento definitivo.
 
 

Não tendo feito luto por Bento XVI, que, graças a Deus, ainda está neste mundo, temos de proceder, porém, como se já não estivesse entre nós, porque, apesar dos títulos que continuará a usar, e que evocam o ministério a que renunciou, a partir das 20h00 (19h00 em Portugal) do último dia de Fevereiro de 2013, não mais será Papa.

Com grande tristeza o digo. Mas não poderia mesmo ser de outra maneira, porque não podemos ter dois Papas.

terça-feira, fevereiro 19, 2013

O novo movimento litúrgico que Bento XVI desejou

O Cardeal António Cañizares Llovera, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, deu, em Dezembro de 2010, uma entrevista a Il Giornale, (acessível aqui), e que se reproduz abaixo, em tradução portuguesa.
Quando se multiplicam as expressões de gratidão para com Bento XVI, não seria justo esquecer o que fez pela liturgia.
 
 
Bento XVI celebra Missa no Terreiro do Paço (10.05.2010)
 

 
É verdade que Bento XVI fez mais do que aquilo que Cañizares refere nesta entrevista. Seria justo, por amor pela verdade histórica, mencionar também a liberalização, pelo Papa, mediante o motu próprio Summorum Pontificum, de 7 de Julho de 2007, (ver aqui uma tradução portuguesa), da celebração do rito romano antiquior, («mais antigo»), ou seja, a permissão do “uso do Missal de 1962, como Forma extraordinária da Liturgia da Missa”, tal como Bento XVI explicou na Carta que dirigiu aos Bispos na ocasião.
 
De tudo o que o Cardeal Cañizares refere, destaca-se, no entanto, a afirmação de que Bento XVI desejou “um novo movimento litúrgico”.

Embora discretamente, este “novo movimento litúrgico” está já a acontecer em muitas partes do mundo, e o seu fruto será certamente aprofundar a compreensão da liturgia como encontro com o mistério.




 
Bento XVI celebra Missa na Catedral de Westminster (18.10.2010)
 
 
 
O novo movimento litúrgico que Bento XVI desejou
 
A liturgia católica vive “uma certa crise” e Bento XVI quer dar vida a um novo movimento litúrgico, que traga novamente mais sacralidade e silêncio na Missa e mais atenção à beleza no canto, na música e na arte sacra. O Cardeal António Cañizares Llovera, de 65 anos, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, que enquanto bispo na Espanha era chamado de “o pequeno Ratzinger”, é o homem ao qual o Papa confiou esta tarefa. Nesta entrevista a Il Giornale, o “ministro” da liturgia de Bento XVI revela e explica programas e projectos.
 
Como cardeal, Joseph Ratzinger tinha lamentado uma certa pressa na reforma litúrgica pós-conciliar. Qual é a sua opinião?

A reforma litúrgica foi realizada com muita presa. Havia óptimas intenções e o desejo de aplicar o Vaticano II. Mas houve precipitação. Não se deu tempo e espaço suficientes para acolher e interiorizar os ensinamentos do Concílio. De uma vez, mudou-se o modo de celebrar. Recordo bem a mentalidade então difundida: era preciso mudar, criar alguma coisa nova. Aquilo que havíamos recebido, a tradição, era vista como um obstáculo. A reforma foi compreendida como obra humana; muitos pensavam que a Igreja fosse obra de nossas mãos e não de Deus. A renovação litúrgica foi vista como uma pesquisa de laboratório, fruto da imaginação e da criatividade - a palavra mágica de então.
 
Como cardeal, Ratzinger desejou uma “reforma da reforma” litúrgica, palavras actualmente impronunciáveis, mesmo no Vaticano. Todavia, parece evidente que Bento XVI a deseja. Pode falar-nos dela?
Não sei se se pode ou se é conveniente falar de “reforma da reforma”. O que vejo absolutamente necessário e urgente, segundo o que deseja o Papa, é dar vida a um novo, claro e vigoroso movimento litúrgico em toda a Igreja. Porque, como explica Bento XVI no primeiro volume de sua Opera Omnia, na relação com a liturgia decide-se o destino da fé e da Igreja. Cristo está presente na Igreja através dos sacramentos. Deus é o sujeito da história, não nós. A liturgia não é uma acção do homem, mas é acção de Deus.


O Papa, mais que com decisões impostas de cima, fala com o exemplo. Como ler as mudanças introduzidas por ele nas celebrações papais?
Antes de tudo, não deve haver nenhuma dúvida sobre a bondade da renovação litúrgica conciliar, que trouxe grandes benefícios para a vida da Igreja, como a participação mais consciente e activa dos fiéis e a presença enriquecida da Sagrada Escritura.
Mas, além destes e outros benefícios, não faltaram sombras, surgidas nos anos seguintes ao Vaticano II: a liturgia, isto é um facto, foi “ferida” por deformações arbitrárias, provocadas também pela secularização que desgraçadamente atinge também o interior da Igreja. Consequentemente, em muitas celebrações, já não se coloca Deus no centro, mas o homem e o seu protagonismo, a sua acção criativa; o papel principal é dado à assembleia. A renovação conciliar foi entendida como uma ruptura e não como um desenvolvimento orgânico da tradição.
Devemos reavivar o espírito da liturgia e para isso são significativos os gestos introduzidos nas liturgias do Papa: a orientação da acção litúrgica, a cruz no centro do altar, a comunhão de joelhos, o canto gregoriano, o espaço para o silêncio, a beleza na arte sacra. É também necessário e urgente promover a adoração eucarística: diante da presença real do Senhor, não se pode senão estar em adoração.
 
 
Quando se fala de uma recuperação da dimensão do sagrado, há sempre quem apresente tudo isso como um simples retorno ao passado, fruto de nostalgia. Como responderia?

A perda do sentido do sagrado, do Mistério, de Deus, é uma das perdas de consequências mais graves para um verdadeiro humanismo. Quem pensa que reavivar, recuperar e reforçar o espírito da liturgia e a verdade da celebração possa ser um simples retorno a um passado superado, ignora a verdade das coisas. Colocar a liturgia no centro da vida da Igreja efectivamente não é nostálgico, mas, ao contrário, é a garantia de estar a caminho em direcção ao futuro.
Como avalia o estado da liturgia católica no mundo?

Diante do risco da rotina, diante de algumas confusões, da pobreza e da banalidade do canto e da música sacra, pode-se dizer que há uma certa crise. Por isso é urgente um novo movimento litúrgico. Bento XVI, indicando o exemplo de São Francisco de Assis, muito devoto do Santíssimo Sacramento, explicou que o verdadeiro reformador é alguém que obedece à fé: não age de modo arbitrário e não se arroga nenhuma autoridade sobre o rito. Não é o dono, mas o guardião do tesouro instituído pelo Senhor e a nós confiado. O Papa, portanto, pede à nossa Congregação que promova uma renovação conforme o Vaticano II, em sintonia com a tradição litúrgica da Igreja, sem esquecer a norma conciliar que prescreve não introduzir inovações, excepto quando as requererem uma verdadeira e comprovada utilidade para a Igreja, com a advertência de que as novas formas, em todo caso, devem surgir organicamente daquelas já existentes.
O que pretende fazer como Congregação?
Devemos considerar a renovação litúrgica segundo a hermenêutica da continuidade, na forma indicada por Bento XVI para ler o Concílio. E para fazer isto, é necessário superar a tendência de “congelar” o estado actual da reforma pós-conciliar de um modo que não faz justiça ao desenvolvimento orgânico da liturgia da Igreja. Estamos procurando levar adiante um grande empenho na formação dos sacerdotes, seminaristas, consagrados e fiéis leigos, para favorecer a compreensão do verdadeiro significado das celebrações da Igreja. Isto requer uma adequada e ampla instrução, vigilância e fidelidade nos ritos, e uma autêntica educação para vivê-los plenamente. Este empenho será acompanhado da revisão e da actualização dos textos introdutórios das diversas celebrações (prenotanda). Também estamos conscientes que dar impulso a este novo movimento não será possível sem uma renovação da pastoral da iniciação cristã.


Uma perspectiva que deveria ser aplicada também à arte e à música…
O novo movimento litúrgico deverá fazer descobrir a beleza da liturgia. Por isso, abriremos uma nova seção da nossa Congregação dedicada à “Arte e música sacra” a serviço da liturgia. Isso nos levará a oferecer, quanto antes, critérios e orientações para a arte, canto e a música sacras. Como também pensamos em oferecer o mais rapidamente possível critérios e orientações para a pregação.

Nas Igrejas desaparecem os genuflexórios, a Missa às vezes é ainda um espaço aberto à criatividade, cortam-se até mesmo as partes mais sagradas do Cânon. Como inverter esta tendência?

A vigilância da Igreja é fundamental e não deve ser considerada como algo inquisitório ou repressivo, mas como um serviço. Em todo o caso, devemos tornar todos conscientes da exigência, não só dos direitos dos fiéis, mas também do “direito de Deus”.
Existe também o risco oposto, isto é, o de se crer que a sacralidade da liturgia dependa da riqueza dos paramentos: uma posição fruto de esteticismo que parece ignorar o coração da liturgia…
A beleza é fundamental, mas é algo muito diferente de um esteticismo vazio, formalista e estéril, no qual se cai às vezes. Existe o risco de se acreditar que a beleza e a sacralidade da liturgia dependem da riqueza ou da antiguidade dos paramentos. É necessária uma boa formação e uma boa catequese baseada no Catecismo da Igreja Católica, evitando também o risco oposto, o da banalização, e actuando com decisão e energia quando se recorrem a costumes que tiveram seu sentido no passado, mas que actualmente não têm ou não ajudam de nenhum modo a verdade da celebração.


Pode dar-nos alguma indicação concreta sobre o que poderia mudar na liturgia?
Mais que pensar em mudanças, devemos empenhar-nos em reavivar e promover um novo movimento litúrgico, seguindo o ensinamento de Bento XVI, a reavivar o sentido do sagrado e do Mistério, colocando Deus no centro de tudo. Devemos impulsionar a adoração eucarística, renovar e melhorar o canto litúrgico, cultivar o silêncio, dar mais espaço à meditação. Disso surgirão as mudanças…