terça-feira, março 05, 2013

Fazer penitência. Do Concílio ao Conclave.

Preparar o Conclave


Michelangelo Buanarroti, Interior da Capela Sistina (1475-83; 1508-12; 1535-41)


Antes do início do Concílio Vaticano II, o Papa João XXIII escreveu uma Encíclica, em que convidava toda a Igreja a uma preparação intensa do grande acontecimento eclesial que já estava muito próximo.

Este seu apelo terá sido correspondido pelos católicos daquele tempo?

Não temos maneira de saber, nem nos é possível julgar – a não ser pelos frutos – se assim foi ou não.

De resto, Bento XVI no seu último encontro com o clero de Roma, em 14 de Fevereiro passado, já depois de ter anunciado a sua renúncia, fez uma sugestiva avaliação do Concílio, ou antes, dos dois Concílios que acabaram por existir.

Referiu que existia “o verdadeiro Concílio – mas havia também o Concílio dos meios de comunicação”. E foi este que predominou, e criou “tantas calamidades, tantos problemas, realmente tanta miséria: seminários fechados, conventos fechados, liturgia banalizada..., enquanto o verdadeiro Concílio teve dificuldade em se concretizar, em ser levado à prática”.

Conclui, porém, afirmando a sua convicção de que é agora, passados cinquenta anos, que “se afirma o verdadeiro Concílio com toda a sua força espiritual”. E terminou deste modo o seu longo e emotivo discurso ao clero de Roma, já com sabor de despedida:

“E é nossa missão, precisamente neste Ano da Fé, começando deste Ano da Fé, trabalhar para que o verdadeiro Concílio, com a própria força do Espírito Santo, se torne realidade e seja realmente renovada a Igreja. Temos esperança de que o Senhor nos ajudará. Eu, retirado, com a minha oração estarei sempre convosco e, juntos, caminhemos com o Senhor, na certeza de que vence o Senhor!”

Recuando agora no tempo mais de 50 anos, será interessante lembrar o que pediu João XXIII aos católicos, poucos meses antes de se iniciar o Concílio Vaticano II.

Fê-lo através da Encíclica Paenitentiam agere (Fazer penitência), publicada no 1° dia de Julho de 1962, ao tempo (e ainda hoje, na Forma Extraordinária do Rito Romano) festa do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Já o título da Encíclica é muito expressivo: fazer penitência! E começa assim:

“Fazer penitência pelos próprios pecados é, para o homem pecador, segundo o explícito ensinamento de nosso Senhor Jesus Cristo, a primeira condição, não apenas para solicitar o perdão mas ainda para chegar à salvação eterna. Evidente se torna, pois, quão justificada é a atitude da Igreja Católica, dispensadora dos tesouros da divina Redenção, a qual sempre considerou a penitência como condição indispensável para o aperfeiçoamento da vida de seus filhos e para seu melhor futuro” (n. 1).

E recorda o que ele próprio tinha feito logo na convocação do Concílio:

“Por este motivo, na constituição apostólica de convocação do Concílio Ecuménico Vaticano II, quisemos dirigir aos fiéis o convite para dignamente se prepararem para o grande acontecimento não só com a oração e com a prática ordinária das virtudes cristãs, mas também com a mortificação voluntária” (n. 2).

Mas estava na altura, pensa João XXIII, de “renovar com maior insistência a mesma exortação”. O Concílio iria começar poucos meses depois, em 11 de Outubro desse ano!

Evoca então os apelos à penitência no Antigo Testamento, salienta o lugar que teve a penitência no ensino de Jesus Cristo e dos Apóstolos, e lembra o pensamento e a prática da Igreja ao longo dos séculos, nomeadamente na preparação dos Concílios anteriores.

E finalmente exorta: é preciso que haja oração e penitência.

Em cada diocese, na iminência do Concílio, deverá haver “uma solene novena em honra do Espírito Santo”, e também “ uma função penitencial propiciatória” (nn. 14-15).

Mas é sobre a penitência que se detém mais longamente. Primeiro, a penitência interior:

“Antes de tudo é necessária a penitência interior, isto é, o arrependimento e a purificação dos próprios pecados, o que especialmente se obtém com uma boa confissão e comunhão, e com a assistência ao sacrifício eucarístico. A este género de penitência deverão ser convidados todos os fiéis durante a novena ao Espírito Santo. Vãs seriam, com efeito, as obras exteriores de penitência se não fossem acompanhadas da limpeza interior da alma e do sincero arrependimento dos próprios pecados. Neste sentido deve-se entender o severo aviso de Jesus: «Se não fizerdes penitência, todos igualmente perecereis» (Lucas 13, 5)” (n. 16).

Lemos este passo no Evangelho do 3º Domingo da Quaresma (no Ano C), com uma tradução portuguesa diferente: “E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante”. (Mas a tradução do texto da Encíclica parece mais conforme com a versão latina da Vulgata e da Neo-Vulgata: “Sed, si non paenitentiam egeritis, omnes similiter peribitis”.

E depois João XXIII fala da penitência externa:

“Além disto, devem os fiéis ser convidados também à penitência exterior, quer para sujeitarem o corpo ao comando da recta razão e da fé, quer para expiarem as suas culpas e as dos outros (…). A primeira penitência exterior que todos devemos fazer é a de, com ânimo resignado e confiante, aceitarmos de Deus todas as dores e sofrimentos que se nos deparam na vida, e tudo o que importa fadiga e incómodo no exacto cumprimento das obrigações do nosso estado, no nosso trabalho quotidiano e no exercício das virtudes cristãs".

E continua:

“Além das penitências que necessariamente temos de enfrentar pelas dores inevitáveis desta vida mortal, é preciso que os cristãos sejam tão generosos a ponto de também oferecerem a Deus mortificações voluntárias, à imitação do nosso divino Redentor, que, segundo a expressão do príncipe dos apóstolos, «morreu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, a fim de vos conduzir a Deus. Morto na carne, foi vivificado no espírito» (1 Pedro 3, 18)”. (…)

“Sirvam nisto de exemplo e de incitamento também os santos da Igreja, cujas mortificações infligidas ao seu corpo, não raro inocentíssimo, enchem-nos de admiração e quase nos assustam. Ante esses campeões da santidade, cristã, como não oferecer ao Senhor alguma privação ou pena voluntária da parte também dos fiéis, que talvez tantas culpas tenham a expiar? Elas são tanto mais agradáveis a Deus quanto não vêm da enfermidade natural da nossa carne e do nosso espírito, mas espontânea e generosamente são oferecidas ao Senhor em holocausto de suavidade” (n. 17-19).

Assim se exprimiu João XXIII, e se estas suas palavras nos parecerem surpreendentes, senão chocantes, isso dever-se-á apenas a que esta dimensão da vida cristã foi esquecida e sistematicamente desprezada entre nós, nomeadamente na catequese e na pregação, nas últimas décadas.

Mas temos de a recuperar, para alcançarmos a nossa santificação e a conversão do mundo.

Mas agora aproxima-se a eleição de um novo Papa. A Igreja parece fragilizada, e enfrenta tremendos problemas, cuja consciência levou Bento XVI à grave e dolorosa decisão de renunciar ao exercício do ministério petrino, para que outro Papa os possa enfrentar, com nova fortaleza e capacidade de governo.

Que poderemos então fazer? No fundo, é simples: o que pediu João XXIII.

Quase 51 anos depois, o que podemos e devemos fazer, agora que estamos na iminência, não de um Concílio, mas de um Conclave que elegerá o novo Papa, será recuperar os pedidos do Beato João XXIII, e aplica-los ao momento actual, de cuja gravidade ninguém poderá ter dúvidas.

Em primeiro lugar, seguindo a sua primeira sugestão, também hoje poderemos fazer uma novena em honra do Espírito Santo, para invocar sobre os Cardeais proximamente reunidos em Conclave “a abundância das luzes celestes e das graças divinas”

Um bom modo de realizar hoje esta novena será recitar durante nove dias seguidos o hino «Veni Creator Spiritus». Transcrevo a seguir a letra latina deste hino e uma possível tradução literal:

 

Veni, Creator Spíritus, mentes tuórum visita,
imple supérna grátia, quae tu creásti péctora.
Qui díceris Paráclitus, altíssimi donum Dei,
fons vivus, ignis, cáritas, et spiritális únctio.
Tu septifórmis múnere, dígitus paternae déxterae,
tu rite promíssum Patris, sermóne ditans gúttura.
Accénde lumen sénsibus; infunde amórem córdibus,
infírma nostri córporis virtúte firmans pérpeti.
Hostem repéllas lóngius, pacémque dones prótinus;
ductóre sic te praevio vitemus omne noxium.
Per te sciámus da Patrem, noscamus atque Filium;
teque utriúsque Spíritum credamus omni témpore.
Deo Patri sit glória, et Fillio, qui a mórtuis
surréxit, ac Paráclito, in saeculórum saecula. Amen.
Vinde Espírito Criador, visitai as almas vossas,
enchei da graça do alto, os corações que criastes.
Sois chamado Consolador, o dom de Deus Altíssimo,
fonte viva, fogo, caridade, e unção espiritual.
Sois formado de sete dons, o dedo da direita de Deus,
Solene promessa do Pai que inspira as palavras.
Iluminai os sentidos, infundi o amor nos corações,
fortalecei para sempre os nossos corpos enfermos.
Afastai o inimigo, dai-nos a paz sem demora,
e assim guiados por Vós, evitaremos todo o mal.
Fazei-nos conhecer o Pai, e revelai-nos o Filho,
para acreditar sempre em Vós, Espírito que de ambos procedeis.
Glória seja dada ao Pai, e ao Filho, que da morte ressuscitou,
e ao Espírito Paráclito, pelos séculos dos séculos. Amen.

 

Depois, poderá rezar-se a oração colecta da Missa pro eligendo Pontifice, da Forma Extraordinária do Rito Romano:

Suplicamos, ó Deus, com humildade: que a vossa imensa piedade conceda à Sacrossanta Igreja Romana um Pontífice; que, por seu zelo por nós, possa ser-Vos agradável, e que seja assíduo no Governo da Igreja para a glória e honra do Vosso nome. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amen.

Ou então a Colecta da Missa para a eleição do Papa ou do Bispo, da Forma Ordinária do Rito Romano:

Ó Deus, pastor eterno, que governais o vosso povo com providente solicitude, concedei à Igreja, pela vossa bondade infinita, o pastor que seja do vosso agrado pela santidade da sua vida e inteiramente consagrado ao serviço do vosso povo. Por Nosso Senhor Jesus cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo. Amen.

Finalmente, será da maior oportunidade meditar e levar à prática tudo o que João XXIII diz sobre a penitência.

E considerando que estamos na Quaresma, que é um tempo penitencial por excelência, faz sentido que cada católico, sob a permissão ou a orientação do seu confessor ou director espiritual, escolha uma penitência especial e adicional pelo governo pastoral da Igreja e pela pesada responsabilidade que será colocada sobre o Colégio Cardinalício, que muito em breve vai reunir-se em Conclave.

Para que seja eleito um Papa sábio, santo e forte, um Papa que não tenha medo dos lobos, e que governe com fortaleza a Santa Igreja.

 







 

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

Não podemos ter dois Papas


Não podemos ter dois Papas

Depois das sentidas homenagens a Bento XVI, que culminaram na sua última audiência geral, é tempo de fazer silêncio.

É tempo de retirar das sacristias a sua fotografia, e de não mais dizer o seu nome na Oração Eucarística.

É tempo – com grande tristeza o digo – de não mais vermos nem ouvirmos Bento XVI, que voluntariamente vai entrar num recolhimento definitivo.
 
 

Não tendo feito luto por Bento XVI, que, graças a Deus, ainda está neste mundo, temos de proceder, porém, como se já não estivesse entre nós, porque, apesar dos títulos que continuará a usar, e que evocam o ministério a que renunciou, a partir das 20h00 (19h00 em Portugal) do último dia de Fevereiro de 2013, não mais será Papa.

Com grande tristeza o digo. Mas não poderia mesmo ser de outra maneira, porque não podemos ter dois Papas.

terça-feira, fevereiro 19, 2013

O novo movimento litúrgico que Bento XVI desejou

O Cardeal António Cañizares Llovera, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, deu, em Dezembro de 2010, uma entrevista a Il Giornale, (acessível aqui), e que se reproduz abaixo, em tradução portuguesa.
Quando se multiplicam as expressões de gratidão para com Bento XVI, não seria justo esquecer o que fez pela liturgia.
 
 
Bento XVI celebra Missa no Terreiro do Paço (10.05.2010)
 

 
É verdade que Bento XVI fez mais do que aquilo que Cañizares refere nesta entrevista. Seria justo, por amor pela verdade histórica, mencionar também a liberalização, pelo Papa, mediante o motu próprio Summorum Pontificum, de 7 de Julho de 2007, (ver aqui uma tradução portuguesa), da celebração do rito romano antiquior, («mais antigo»), ou seja, a permissão do “uso do Missal de 1962, como Forma extraordinária da Liturgia da Missa”, tal como Bento XVI explicou na Carta que dirigiu aos Bispos na ocasião.
 
De tudo o que o Cardeal Cañizares refere, destaca-se, no entanto, a afirmação de que Bento XVI desejou “um novo movimento litúrgico”.

Embora discretamente, este “novo movimento litúrgico” está já a acontecer em muitas partes do mundo, e o seu fruto será certamente aprofundar a compreensão da liturgia como encontro com o mistério.




 
Bento XVI celebra Missa na Catedral de Westminster (18.10.2010)
 
 
 
O novo movimento litúrgico que Bento XVI desejou
 
A liturgia católica vive “uma certa crise” e Bento XVI quer dar vida a um novo movimento litúrgico, que traga novamente mais sacralidade e silêncio na Missa e mais atenção à beleza no canto, na música e na arte sacra. O Cardeal António Cañizares Llovera, de 65 anos, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, que enquanto bispo na Espanha era chamado de “o pequeno Ratzinger”, é o homem ao qual o Papa confiou esta tarefa. Nesta entrevista a Il Giornale, o “ministro” da liturgia de Bento XVI revela e explica programas e projectos.
 
Como cardeal, Joseph Ratzinger tinha lamentado uma certa pressa na reforma litúrgica pós-conciliar. Qual é a sua opinião?

A reforma litúrgica foi realizada com muita presa. Havia óptimas intenções e o desejo de aplicar o Vaticano II. Mas houve precipitação. Não se deu tempo e espaço suficientes para acolher e interiorizar os ensinamentos do Concílio. De uma vez, mudou-se o modo de celebrar. Recordo bem a mentalidade então difundida: era preciso mudar, criar alguma coisa nova. Aquilo que havíamos recebido, a tradição, era vista como um obstáculo. A reforma foi compreendida como obra humana; muitos pensavam que a Igreja fosse obra de nossas mãos e não de Deus. A renovação litúrgica foi vista como uma pesquisa de laboratório, fruto da imaginação e da criatividade - a palavra mágica de então.
 
Como cardeal, Ratzinger desejou uma “reforma da reforma” litúrgica, palavras actualmente impronunciáveis, mesmo no Vaticano. Todavia, parece evidente que Bento XVI a deseja. Pode falar-nos dela?
Não sei se se pode ou se é conveniente falar de “reforma da reforma”. O que vejo absolutamente necessário e urgente, segundo o que deseja o Papa, é dar vida a um novo, claro e vigoroso movimento litúrgico em toda a Igreja. Porque, como explica Bento XVI no primeiro volume de sua Opera Omnia, na relação com a liturgia decide-se o destino da fé e da Igreja. Cristo está presente na Igreja através dos sacramentos. Deus é o sujeito da história, não nós. A liturgia não é uma acção do homem, mas é acção de Deus.


O Papa, mais que com decisões impostas de cima, fala com o exemplo. Como ler as mudanças introduzidas por ele nas celebrações papais?
Antes de tudo, não deve haver nenhuma dúvida sobre a bondade da renovação litúrgica conciliar, que trouxe grandes benefícios para a vida da Igreja, como a participação mais consciente e activa dos fiéis e a presença enriquecida da Sagrada Escritura.
Mas, além destes e outros benefícios, não faltaram sombras, surgidas nos anos seguintes ao Vaticano II: a liturgia, isto é um facto, foi “ferida” por deformações arbitrárias, provocadas também pela secularização que desgraçadamente atinge também o interior da Igreja. Consequentemente, em muitas celebrações, já não se coloca Deus no centro, mas o homem e o seu protagonismo, a sua acção criativa; o papel principal é dado à assembleia. A renovação conciliar foi entendida como uma ruptura e não como um desenvolvimento orgânico da tradição.
Devemos reavivar o espírito da liturgia e para isso são significativos os gestos introduzidos nas liturgias do Papa: a orientação da acção litúrgica, a cruz no centro do altar, a comunhão de joelhos, o canto gregoriano, o espaço para o silêncio, a beleza na arte sacra. É também necessário e urgente promover a adoração eucarística: diante da presença real do Senhor, não se pode senão estar em adoração.
 
 
Quando se fala de uma recuperação da dimensão do sagrado, há sempre quem apresente tudo isso como um simples retorno ao passado, fruto de nostalgia. Como responderia?

A perda do sentido do sagrado, do Mistério, de Deus, é uma das perdas de consequências mais graves para um verdadeiro humanismo. Quem pensa que reavivar, recuperar e reforçar o espírito da liturgia e a verdade da celebração possa ser um simples retorno a um passado superado, ignora a verdade das coisas. Colocar a liturgia no centro da vida da Igreja efectivamente não é nostálgico, mas, ao contrário, é a garantia de estar a caminho em direcção ao futuro.
Como avalia o estado da liturgia católica no mundo?

Diante do risco da rotina, diante de algumas confusões, da pobreza e da banalidade do canto e da música sacra, pode-se dizer que há uma certa crise. Por isso é urgente um novo movimento litúrgico. Bento XVI, indicando o exemplo de São Francisco de Assis, muito devoto do Santíssimo Sacramento, explicou que o verdadeiro reformador é alguém que obedece à fé: não age de modo arbitrário e não se arroga nenhuma autoridade sobre o rito. Não é o dono, mas o guardião do tesouro instituído pelo Senhor e a nós confiado. O Papa, portanto, pede à nossa Congregação que promova uma renovação conforme o Vaticano II, em sintonia com a tradição litúrgica da Igreja, sem esquecer a norma conciliar que prescreve não introduzir inovações, excepto quando as requererem uma verdadeira e comprovada utilidade para a Igreja, com a advertência de que as novas formas, em todo caso, devem surgir organicamente daquelas já existentes.
O que pretende fazer como Congregação?
Devemos considerar a renovação litúrgica segundo a hermenêutica da continuidade, na forma indicada por Bento XVI para ler o Concílio. E para fazer isto, é necessário superar a tendência de “congelar” o estado actual da reforma pós-conciliar de um modo que não faz justiça ao desenvolvimento orgânico da liturgia da Igreja. Estamos procurando levar adiante um grande empenho na formação dos sacerdotes, seminaristas, consagrados e fiéis leigos, para favorecer a compreensão do verdadeiro significado das celebrações da Igreja. Isto requer uma adequada e ampla instrução, vigilância e fidelidade nos ritos, e uma autêntica educação para vivê-los plenamente. Este empenho será acompanhado da revisão e da actualização dos textos introdutórios das diversas celebrações (prenotanda). Também estamos conscientes que dar impulso a este novo movimento não será possível sem uma renovação da pastoral da iniciação cristã.


Uma perspectiva que deveria ser aplicada também à arte e à música…
O novo movimento litúrgico deverá fazer descobrir a beleza da liturgia. Por isso, abriremos uma nova seção da nossa Congregação dedicada à “Arte e música sacra” a serviço da liturgia. Isso nos levará a oferecer, quanto antes, critérios e orientações para a arte, canto e a música sacras. Como também pensamos em oferecer o mais rapidamente possível critérios e orientações para a pregação.

Nas Igrejas desaparecem os genuflexórios, a Missa às vezes é ainda um espaço aberto à criatividade, cortam-se até mesmo as partes mais sagradas do Cânon. Como inverter esta tendência?

A vigilância da Igreja é fundamental e não deve ser considerada como algo inquisitório ou repressivo, mas como um serviço. Em todo o caso, devemos tornar todos conscientes da exigência, não só dos direitos dos fiéis, mas também do “direito de Deus”.
Existe também o risco oposto, isto é, o de se crer que a sacralidade da liturgia dependa da riqueza dos paramentos: uma posição fruto de esteticismo que parece ignorar o coração da liturgia…
A beleza é fundamental, mas é algo muito diferente de um esteticismo vazio, formalista e estéril, no qual se cai às vezes. Existe o risco de se acreditar que a beleza e a sacralidade da liturgia dependem da riqueza ou da antiguidade dos paramentos. É necessária uma boa formação e uma boa catequese baseada no Catecismo da Igreja Católica, evitando também o risco oposto, o da banalização, e actuando com decisão e energia quando se recorrem a costumes que tiveram seu sentido no passado, mas que actualmente não têm ou não ajudam de nenhum modo a verdade da celebração.


Pode dar-nos alguma indicação concreta sobre o que poderia mudar na liturgia?
Mais que pensar em mudanças, devemos empenhar-nos em reavivar e promover um novo movimento litúrgico, seguindo o ensinamento de Bento XVI, a reavivar o sentido do sagrado e do Mistério, colocando Deus no centro de tudo. Devemos impulsionar a adoração eucarística, renovar e melhorar o canto litúrgico, cultivar o silêncio, dar mais espaço à meditação. Disso surgirão as mudanças…
 

domingo, fevereiro 17, 2013

Uma luta de dimensão cósmica


Uma luta de dimensão cósmica


Começou a Quaresma: já demos por isso? Mas qual é o interesse da Quaresma? Que «utilidade» é que tem? O interesse da Quaresma, a utilidade que tem, está bem expressa na oração inicial da Missa do 1º Domingo: “Concedei-nos, Deus omnipotente, que, pela observância quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo, e a nossa vida seja um digno testemunho”.
É isso que está em jogo na Quaresma: que consigamos ter uma “maior compreensão do mistério de Cristo”, e a nossa vida, com toda a normalidade, e em todas as circunstâncias, fale de Jesus Cristo aos outros.
Terminada a Quaresma, na Semana Santa, iremos acompanhar de novo, com enorme assombro, os últimos momentos da vida de Jesus neste mundo: a última Ceia com os discípulos, a oração no Jardim das Oliveiras, a prisão, o julgamento, a condenação, a flagelação, a coroação de espinhos, o carregar da cruz sobre os ombros e todos os outros dolorosos tormentos que suportou, e por fim a sua morte na cruz. A força, o drama e o mistério da paixão de Jesus não se atenuaram com o passar dos tempos, pelo contrário, sobressaem ainda mais nitidamente para quem os quiser ver, tal como o filme «A Paixão de Cristo» conseguiu exprimir, de uma forma extraordinariamente verídica, bela e expressiva.
Mas a morte de Jesus não foi o fim: a paixão de Jesus foi coroada pela sua gloriosa ressurreição, que é a obra mais admirável do poder de Deus. A ressurreição de Jesus enche de assombro a mente humana, e inunda de luz e sentido toda a nossa vida, dando-nos a paz no meio das provas, uma esperança inabalável e uma alegria constante e profunda, mesmo por entre as tristezas e dificuldades desta vida.
E a Quaresma existe para nos ajudar a celebrar, na próxima Páscoa, de coração purificado, com um novo amor, com uma fé vibrante, a espantosa paixão e morte de Jesus Cristo, Filho de Deus, e a sua luminosa ressurreição, pela qual Se torna presente a todos os tempos e contemporâneo de todos os homens, de cada um de nós.
A Quaresma é um tempo em que nos tornamos conscientes daquilo que é essencial na nossa vida.
De acordo com uma prática constante ao longo de vinte séculos, todos os cristãos procuram viver, não apenas simbolicamente, mas de um modo efectivo, um maior desprendimento de si mesmos, traduzida numa maior sobriedade na comida e na bebida, e também nos divertimentos e nos gastos supérfluos, não só para criar essa liberdade interior que é necessária para celebrar a Páscoa, mas também para dar a cada um novas oportunidades de exercer uma partilha efectiva com os outros, especialmente os mais necessitados.
Há pessoas que, na Quaresma, de acordo com a mais genuína tradição, praticam um efectivo jejum, outros, pelo menos, não comem doces habitualmente, ou não bebem vinho, ou não bebem café, e esta privação de alimentos ou bebidas faz sentido, porque nos torna menos dependentes do que é relativo e secundário, e mais disponíveis para o essencial, que é o mistério de Cristo, revelação perfeitíssima da infinita misericórdia de Deus para com todos os homens.
Mas, na base destas escolhas pequenas de cada dia, embora importantes, há uma escolha primeira e essencial, uma opção de fundo, que o próprio Jesus viveu antes de nós, e da qual Ele é também, para cada um de nós, um admirável exemplo e um insuperável modelo.
Logo no início da sua vida pública, depois de passar quarenta dias de um rigoroso jejum no deserto, Jesus foi tentado pelo diabo a seguir outros caminhos, totalmente opostos ao projecto do Pai. Depois de ter sido reconhecido pelo Pai, no momento do baptismo, no rio Jordão, como “o Filho muito amado” (Lucas 3, 22), Jesus foi agora posto à prova na sua fidelidade a Deus.
Gustave Doré, As tentações de Cristo
 
Contudo, ao contrário do que normalmente acontece connosco, Jesus não teve nenhuma cumplicidade interior com as tentações que o diabo Lhe sugeriu. Já connosco isso não se passa: temos sempre uma certa apetência para aquele mal que nos é proposto na tentação, mesmo que o queiramos rejeitar. Isso pode até acontecer, por exemplo, com uma pessoa que deixou de fumar ou de beber: se alguém lhe oferecer um cigarro ou uma bebida, pode sentir uma certa apetência interior, ou mesmo um forte desejo, embora sinceramente queira rejeitar essa oferta, e de facto não a aceite.
Jesus, porém, não sentiu nenhum apreço pelas tentações, detestou-as profundamente no seu íntimo, mas elas foram-lhe levadas ao espírito pelo adversário, e teve de as rejeitar explicitamente, pelo terrível desvio que elas representariam ao caminho da salvação. Com absoluta firmeza e impressionante serenidade, Jesus resistiu à tentação, e triunfou sobre o maligno.
Mas há ainda um ensinamento muito importante neste relato das tentações de Jesus. Este episódio revela-nos que há “uma luta, de dimensão cósmica – como a classificou João Paulo II – das forças do mal contra a realização do plano salvífico que o Filho de Deus veio proclamar e inaugurar na sua própria pessoa”.

Em Jesus inicia-se a nova criação; n’Ele se realiza a nova e perfeita aliança entre Deus e a humanidade inteira. N’Ele nos é oferecida a misericórdia de Deus, n’Ele os homens encontram a salvação. Por isso, não admira que o maligno se oponha desesperadamente a Jesus, ouse enfrentá-Lo, e tente, com alguns atractivos absurdos, desviá-Lo do seu caminho.
O Evangelho mostra-nos que Jesus sai vencedor neste primeiro assalto, e vencerá de novo, definitivamente, na hora derradeira da sua paixão e morte. Mas o maligno não desiste, e hoje, como salientou também o Papa João Paulo II, “este combate contra o espírito do mal envolve cada um de nós, chamado a seguir o exemplo do divino Mestre”.

A Quaresma é um tempo de graça para confirmarmos a nossa luta, a nossa esperança e a nossa fidelidade. S. Paulo diz, na Carta aos Romanos: dirigindo-se pessoalmente a cada um dos seus leitores: “Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor, e se acreditares no teu coração que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo” (Romanos 10, 9).
Sabemos que hoje os cristãos podem enfrentar muitas tentações contra a fé. E podem ser tentados a assumir estilos de vida marcados pelo materialismo ou pela sensualidade desordenada, que os afastam da simplicidade do Evangelho e da beleza do amor cristão. É fortíssima a tentação de viver sem Deus, numa indiferença sobranceira e absurda, que retira do espírito humano a admiração e a gratidão. Mas o mistério de Jesus Cristo, se for olhado “em espírito e verdade”, será sempre atraente e fascinante.