domingo, fevereiro 10, 2013

O «abortivo»


No 5º Domingo do «Tempo Comum», no Ano C, lê-se, na 2ª leitura, uma passagem da 1ª Carta aos Coríntios, que é um precioso testemunho da ressurreição de Jesus, a que devemos dar a nossa maior atenção.

Há tempos, um eclesiástico que escreve no «Diário de Notícias», publicou uma crónica em que afirma que, depois da morte de Jesus, os discípulos fizeram um balanço de toda a sua vida, e então concluíram ou “acreditaram que ele está vivo em Deus”. (Respondi a esta crónica num post anterior intitulado «Da ressurreição aos Evangelhos da Infância. Resposta a Anselmo Borges»).

Mas salta à vista que os textos do Novo Testamento dizem muito mais. Recordemos apenas o que diz S. Paulo neste texto da 1ª Carta aos Coríntios:

“Transmiti-vos em primeiro lugar o que eu mesmo recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Pedro e depois aos Doze. Em seguida apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maior parte ainda vive, enquanto alguns já faleceram. Posteriormente apareceu a Tiago e depois a todos os Apóstolos. Em último lugar, apareceu-me também a mim, como o abortivo” (1 Coríntios 15, 3-8).

O abortivo”. Esta última palavra também se poderia traduzir como: «alguém que nasceu fora de tempo». Que significa? Um erudito exegeta do séc. XVII, o jesuíta Cornelius a Lapide (1567 – 1637), explica deste modo, no seu comentário à 1ª Epístola aos Coríntios, este estranho qualificativo:

“De acordo com alguns autores, como Santo Ambrósio de Milão e S. João Crisóstomo, abortivo significa tardio, fora de tempo; ou seja, já depois de Cristo ter subido ao Céu é que Paulo nasceu em Cristo e se tornou Apóstolo. De acordo com Santo Anselmo, S. Paulo fala assim de si mesmo porque foi derrubado por terra pelo poder divino, (como lemos nos Actos dos Apóstolos), compelido e como que obrigado a nascer de novo; os que nascem fora de tempo são empurrados para o mundo pela violência da natureza. Ora, como Santo Anselmo de novo observa, alguns que nascem assim, vêm em perigo de vida e por vezes nascem cegos. E na verdade S. Paulo ficou algum tempo cego depois da sua conversão. (…)
Conclui-se deste versículo que Cristo apareceu a Paulo, não por um anjo, como pensa Haymo (monge do séc. IX), mas em pessoa; não numa visão, como lhe apareceu noutro momento, em Actos 21, 18, nem em êxtase, como se regista em 2 Coríntios 12. 2, mas no espaço, em forma corpórea; pois foi assim que Cristo apareceu a Cefas (Pedro), Tiago e outros apóstolos; Além disso, se fosse qualquer outro tipo de manifestação, não seria prova da Ressurreição de Cristo. A aparição de Cristo a que alude aqui é a que aconteceu na conversão de Paulo (Actos 9. 3), quando ele viu Cristo antes que a luz brilhante o cegasse”.

E Cornelius a Lapide conclui, com uma interessante aplicação à Eucaristia:

“Portanto, conclui-se também que Cristo então desceu do Céu, visto que, como S. Tomás e outros autores dizem, S. Paulo ouviu a voz de Cristo a falar diante de si. Donde resulta novamente que Cristo estava, então, em dois lugares, no Céu e no nosso mundo, perto de Paulo; porque, de acordo com Actos 3, 21, Cristo nunca deixou o Céu ao qual subiu. Se Cristo está então em dois lugares, por que não pode Ele estar ao mesmo tempo no Céu e na Eucaristia?”
 
O que fica muito claro, em relação a S. Paulo, é que o Apóstolo dos Gentios não teve apenas uma visão mental, como escreve o Pe. Ryan Erlenbush, O. P., num post do seu blog, (que pode ser lido aqui), em que me inspirei para a anterior citação de Cornelius a Lapide e para a citação do Catecismo da Igreja Católica, que virá mais adiante.

Esclarece o Pe. Ryan: “Não foi apenas uma «visão» meramente intelectual ou imaginativa. Mais: tal como o nosso Salvador apareceu no seu próprio e verdadeiro corpo diante dos outros apóstolos, assim também nosso Senhor revelou o seu corpo próprio e natural a S. Paulo”.

Portanto, foi, sem dúvida, uma aparição absolutamente excepcional, como ensina o Catecismo da Igreja Católica, nesta excelente síntese sobre as manifestações de Cristo ressuscitado:

“«Então, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi elevado ao céu e sentou-se à direita de Deus» (Marcos 16, 19). O corpo de Cristo foi glorificado desde o momento da sua ressurreição, como o provam as propriedades novas e sobrenaturais de que, a partir de então, ele goza permanentemente (Actos 10, 41). Mas, durante os quarenta dias em que vai comer e beber familiarmente com os discípulos (Actos 10, 41) e instruí-los sobre o Reino (Actos 1, 3), a sua glória fica ainda velada sob as aparências duma humanidade normal (cf. Marcos 16, 12; Lucas 24. 15; João 20, 14-15; 21, 4.). A última aparição de Jesus termina com a entrada irreversível da sua humanidade na glória divina, simbolizada pela nuvem (cf. Actos 1, 9; também Lucas 9. 34-35; Êxodo 13, 22) e pelo céu (cf. Lucas 24, 51), onde a partir de então, está sentado à direita de Deus (cf. Marcos 16, 19; Actos 2, 33; 7. 56: também Salmo 110, 1). Só de modo absolutamente excepcional e único é que Se mostrará a Paulo, «como a um aborto» (1 Coríntios 15, 8), numa última aparição que o constitui Apóstolo (cf. 1 Coríntios 9, 1: Gálatas 1, 16)” (n. 659).
 
MICHELANGELO Buonarroti, A conversão de Saulo, Fresco, Cappella Paolina, Vaticano
 
Escreve ainda pertinentemente o Pe. Ryan Erlenbush:

“Fica assim muito claro que a aparição a S. Paulo é radicalmente diversa de qualquer outra visão concedida aos Santos. Porque, mesmo que o nosso Salvador tenha manifestado ocasionalmente a sua Sagrada Humanidade a videntes e místicos, não podemos de modo algum pensar que o seu corpo veio do céu para a Terra no seu estado verdadeiro e natural. Essa seria a Segunda Vinda!
Ou antes, sempre que um místico parece falar como se tivesse «tocado» ou «visto» o corpo físico e verdadeiro de Jesus (isto é, Cristo na sua aparência verdadeira, como quando caminhava sobre a terra ou apareceu após a Ressurreição), devemos entender isto como tendo sido apenas uma visão. Porque nenhum outro senão S. Paulo viu o corpo físico, natural e verdadeiro de Cristo segundo o modo próprio das manifestações da Ressurreição”.
 
E conclui:
“É por isso que S Paulo é um apóstolo – porque ele viu o Senhor ressuscitado, tal como fizeram S. Pedro e os outros. Mas é isto que faz também dele um «abortivo» ou nascido fora de tempo: viu Jesus ressuscitado por esta via absolutamente única e excepcional, porque o Senhor voltou à Terra, não para ser visto por todos, como acontecerá na sua Segunda Vinda, mas apenas para ser visto por aquele que quis consagrar como Apóstolo dos Gentios”.


 

domingo, fevereiro 03, 2013

Ano da Fé e indulgências.


O Ano da Fé, proclamado pelo Papa Bento XVI, teve início no dia 11 de Outubro e concluir-se-á a 24 de Novembro de 2013. Trata-se de uma oportunidade para “comemorar o dom precioso da fé” (Carta Porta Fidei, 8).

Para ajudar a alcançar esse objectivo, no dia 14 de Setembro de 2012, a Penitenciaria Apostólica emanou um Decreto, através do qual o Papa Bento XVI concede especiais indulgências, “a fim de que os fiéis sejam mais estimulados ao conhecimento e ao amor pela doutrina da Igreja católica e obtenham dela frutos espirituais mais abundantes”.

O Catecismo da Igreja Católica contém uma boa síntese da doutrina das Indulgências, que é oportuno recordar:

As indulgências

A doutrina e a prática das indulgências na Igreja estão estreitamente ligadas aos efeitos do sacramento da Penitência.

QUE É A INDULGÊNCIA?

«A indulgência é a remissão, perante Deus, da pena temporal devida aos pecados cuja culpa já foi apagada; remissão que o fiel devidamente disposto obtém em certas e determinadas condições, pela acção da Igreja, a qual, enquanto dispensadora da redenção, distribui e aplica por sua autoridade o tesouro das satisfações de Cristo e dos santos»[1] . «A indulgência é parcial ou plenária, consoante liberta parcialmente ou na totalidade da pena temporal devida ao pecado»[2].  «O fiel pode lucrar para si mesmo as indulgências [...], ou aplicá-las aos defuntos»[3] (Catecismo da Igreja Católica, n. 1471).

AS PENAS DO PECADO

Para compreender esta doutrina e esta prática da Igreja, deve ter-se presente que o pecado tem uma dupla consequência. O pecado grave priva-nos da comunhão com Deus e, portanto, torna-nos incapazes da vida eterna, cuja privação se chama «pena eterna» do pecado. Por outro lado, todo o pecado, mesmo venial, traz consigo um apego desordenado às criaturas, o qual precisa de ser purificado, quer nesta vida quer depois da morte, no estado que se chama Purgatório. Esta purificação liberta do que se chama «pena temporal» do pecado. Estas duas penas não devem ser consideradas como uma espécie de vingança, infligida por Deus, do exterior, mas como algo decorrente da própria natureza do pecado. Uma conversão procedente duma caridade fervorosa pode chegar à total purificação do pecador, de modo que nenhuma pena subsista[4] (Catecismo da Igreja Católica, n. 1472).

O perdão do pecado e o restabelecimento da comunhão com Deus trazem consigo a abolição das penas eternas do pecado. Mas subsistem as penas temporais. O cristão deve esforçar-se por aceitar, como uma graça, estas penas temporais do pecado, suportando pacientemente os sofrimentos e as provações de toda a espécie e, chegada a hora, enfrentando serenamente a morte: deve aplicar-se, através de obras de misericórdia e de caridade, bem como pela oração e pelas diferentes práticas da penitência, a despojar-se completamente do «homem velho» e a revestir-se do «homem novo»[5] (Catecismo da Igreja Católica, n. 1473).

O cristão que procura purificar-se do seu pecado e santificar-se com a ajuda da graça de Deus, não se encontra só. «A vida de cada um dos filhos de Deus está ligada de modo admirável, em Cristo e por Cristo, à vida de todos os outros irmãos cristãos, na unidade sobrenatural do corpo Místico de Cristo, como que numa pessoa mística»[6] (Catecismo da Igreja Católica, n. 1474).

Na comunhão dos santos, «existe, portanto, entre os fiéis – os que já estão na pátria celeste, os que foram admitidos à expiação do Purgatório, e os que vivem ainda peregrinos na terra – um constante laço de amor e uma abundante permuta de todos os bens»[7]. Nesta admirável permuta, a santidade de um aproveita aos demais, muito para além do dano que o pecado de um tenha podido causar aos outros. Assim, o recurso à comunhão dos santos permite ao pecador contrito ser purificado mais depressa e mais eficazmente das penas do pecado (Catecismo da Igreja Católica, n. 1475).

A estes bens espirituais da comunhão dos santos, também lhes chamamos o tesouro da Igreja, «que não é um somatório de bens, como quando se trata das riquezas materiais acumuladas no decurso dos séculos, mas sim o preço infinito e inesgotável que têm junto de Deus as expiações e méritos de Cristo, nosso Senhor, oferecidos para que a humanidade seja liberta do pecado e chegue à comunhão com o Pai. É em Cristo, nosso Redentor, que se encontram em abundância as satisfações e os méritos da sua redenção»[8] (Catecismo da Igreja Católica, n. 1476).

«Pertencem igualmente a este tesouro o preço verdadeiramente imenso, incomensurável e sempre novo que têm junto de Deus as orações e boas obras da bem‑aventurada Virgem Maria e de todos os santos, que se santificaram pela graça de Cristo, seguindo as suas pegadas, e que realizaram uma obra agradável ao Pai; de modo que, trabalhando pela sua própria salvação, igualmente cooperaram na salvação dos seus irmãos na unidade do corpo Místico»[9] (Catecismo da Igreja Católica, n. 1477).

OBTER A INDULGÊNCIA DE DEUS MEDIANTE A IGREJA

A indulgência obtém-se mediante a Igreja que, em virtude do poder de ligar e desligar que lhe foi concedido por Jesus Cristo, intervém a favor dum cristão e lhe abre o tesouro dos méritos de Cristo e dos santos, para obter do Pai das misericórdias o perdão das penas temporais devidas pelos seus pecados. É assim que a Igreja não quer somente vir em ajuda deste cristão, mas também incitá-lo a obras de piedade, penitência e caridade[10] (Catecismo da Igreja Católica, n. 1478).

Uma vez que os fiéis defuntos, em vias de purificação, também são membros da mesma comunhão dos santos, nós podemos ajudá-los, entre outros modos, obtendo para eles indulgências, de modo que sejam libertos das penas temporais devidas pelos seus pecados (Catecismo da Igreja Católica, n. 1479).


[1] Paulo VI, Const. ap. Indulgentiarum doctrina, Normae. I: AAS 59 (1967) 21
[2] Paulo VI, Const. ap. Indulgentiarum doctrina, Normae. 2: AAS 59 (1967) 21.
[3] CIC can. 994.
[4] Cf. Concílio de Trento, Sess. 14ª, Canones de sacramento Paenitentiae. can. 12-13: DS 1712-1713; Id., Sess. 25ª, Decretum de purgatorio: DS 1820.
[5] Cf. Efésios4, 24.
[6] Paulo VI, Const. ap. Indulgentiarum doctrina, 5: AAS 59 (1967) 11.
[7] Paulo VI, Const. ap. Indulgentiarum doctrina, 5: AAS 59 (1967) 12.
[8] Paulo VI, Const. ap. Indulgentiarum doctrina, 5: AAS 59 (1967) 11
[9] Paulo VI, Const. ap. Indulgentiarum doctrina, 5: AAS 59 (1967) 11-12
[10] Cf. Paulo VI, Const. ap. Indulgentiarum doctrina, 8: AAS 59 (1967) 16-17; Concílio de Trento, Sess. 25ª, Decretum de Indulgentiis: DS 1835.

quinta-feira, janeiro 31, 2013

Da ressurreição aos Evangelhos da Infância. Resposta a Anselmo Borges

1. 
Num artigo publicado no Diário de Notícias, que pode ser lido aqui, a propósito do livro de Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré. A infância de Jesus, (Lisboa, Principia, 2012), o Pe. Anselmo Borges comenta diversos textos evangélicos relativos à infância de Jesus, não vendo neles, segundo uma expressão do jesuíta Juan Masiá, que cita, mais do que “um símbolo iluminador do que acontece em todo o nascimento”.
 


Parece pouco. Muito pouco. Mas já voltaremos a este assunto.
 
Porque, primeiro, Anselmo Borges começa por falar da morte de Jesus e do que se lhe seguiu, e aqui é igualmente acentuada a sua visão redutora, quando escreve: “Depois da crucifixão, fazendo o cômputo todo da sua existência, incluindo o modo como morreu - para dar testemunho do amor e da verdade do que moveu a sua vida: Deus que é amor -, os discípulos acreditaram que ele está vivo em Deus.
 
Significativamente, ao falar do que se seguiu à morte de Jesus na cruz, o Pe. Anselmo Borges não usa nunca a palavra “ressurreição”, porque, se o fizesse, teria de reconhecer que os discípulos (e os cristãos de todos os tempos) não acreditaram apenas que Jesus “está vivo em Deus”, mas sempre acreditaram e anunciaram que, se Jesus “está vivo em Deus”, como de facto crêem, é porque “ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras; e subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai” (Credo de Niceia-Constantinopla).
 
Ao dizer somente que, após a morte de Jesus, “os discípulos acreditaram que ele está vivo em Deus”, Anselmo Borges propõe uma visão redutora da fé da Igreja, o que é, no mínimo, estranho para um padre católico.
 
Mas isso é um problema dele. (E talvez não só dele).
 
O que Anselmo Borges não pode fazer, no entanto, por amor à verdade e por respeito pelos textos do Novo Testamento, é afirmar ou insinuar que os autores humanos destes textos também achavam, como ele, que, após a morte de Jesus, os discípulos acreditaram apenas que Jesus estava vivo em Deus.
 
Os textos do Novo Testamento que se referem ao que aconteceu a Jesus depois da morte na cruz, não querem nunca dizer apenas que, agora, Jesus “está vivo em Deus”.
 
Todos esses textos, na sua diversidade, na sua nem sempre fácil complementaridade, pretendem sempre dizer muito mais. Querem sempre expressamente e intencionalmente dizer muito mais. Não somos nós, leitores tardios, que vemos esse «mais» nos textos. São eles que o dizem, são eles que o proclamam aos quatro ventos.
 
Os seus autores estarão enganados? Terão sido vítimas de uma ilusão? Houve alguns que o pensaram, no passado, a meu ver sem nenhum fundamento.
 
Mas, mesmo que se tivessem enganado, mesmo que tivessem sido vítimas de uma ilusão (o que estou firmemente convencido de que não aconteceu), uma coisa é certa: todos afirmam, na grande variedade dos seus matizes, ou mesmo sob expressões diversas, que Jesus “ressuscitou verdadeiramente”, como ouvem dizer, segundo S. Lucas, os dois discípulos de Emaús, ao regressar ao local onde “acharam reunidos os Onze e os que com eles estavam. Todos diziam: «O Senhor ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão»” (Lucas 24, 33-34).

S. Paulo é muito discreto em relação ao seu encontro com Cristo ressuscitado, esse acontecimento decisivo que teve lugar alguns anos mais tarde, e que o transformou de perseguidor em anunciador, e apenas alude sobriamente a esse acontecimento numa passagem da Carta aos Gálatas (1, 13-20), que conclui com esta solene afirmação: “Acerca do que vos escrevo – Deus é minha testemunha – não estou a mentir” (Gálatas 1, 20).

Mas há um passo da 1ª Carta aos Coríntios (escrita cerca do ano 55), em que S. Paulo afirma, sob a forma de pergunta, o essencial desse acontecimento que tudo mudou na sua vida: “ (…) Não vi eu a Jesus Cristo Senhor nosso?” (1 Coríntios 9, 1)

Na verdade, Saulo de Tarso viu Jesus Cristo, não “vivo em Deus”, mas diante de si. E viu-O por uma única razão: porque Jesus “ressuscitou verdadeiramente”.





Cristo ressuscitou. Christos Anesti!

Por essa mesma e única razão, S. João põe na boca dos discípulos este testemunho dirigido a Tomé, após a primeira aparição do Ressuscitado: “Vimos o Senhor” (João 20, 29).

Pelas razões que entender ou por simples preconceito positivista, Anselmo Borges poderá duvidar da credibilidade destes relatos, e é talvez por isso que não os cita nunca, mas não pode negar que é este o testemunho ou a mensagem que todos os textos do Novo Testamento que se referem ao que aconteceu depois da morte de Jesus, querem transmitir, como transparece, com deslumbrante limpidez e inequívoca fidedignidade histórica nesta passagem da 1ª Carta aos Coríntios:
 
“Eu vos transmiti primeiramente o que eu mesmo havia recebido: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; apareceu a Cefas, e em seguida aos Doze. Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte ainda vive (e alguns já morreram); depois apareceu a Tiago, em seguida a todos os apóstolos. E, por último de todos, apareceu também a mim, como a um abortivo. Porque eu sou o menor dos apóstolos, e não sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. Mas, pela graça de Deus, sou o que sou, e a graça que Ele me deu não tem sido inútil. Ao contrário, tenho trabalhado mais do que todos eles; não eu, mas a graça de Deus que está comigo. Portanto, seja eu ou sejam eles, assim pregamos, e assim crestes (1 Coríntios 15, 3- 11).
2.
Relativamente aos Evangelhos da Infância, Anselmo Borges submete-se ao diktat, (que é um verdadeiro dogma exegético), de que que os Evangelhos de Mateus e Lucas utilizam “um género literário próprio, o midraxe, que não quer narrar factos, mas ler teologicamente”.
Mas será que é isto que Mateus e Lucas fazem? Só por preconceito é que se poderá dizê-lo.
S. Mateus caracteriza expressamente muitas partes da sua narrativa como estritamente históricas, utilizando repetidamente as formas verbais «acontecer», «cumprir», ou outras semelhantes.
É o caso das passagens seguintes: 1, 18.22; 2, 15.17.23; 4, 14; 8, 17; 12, 17; 13, 35; 21, 4: 26, 56; 27, 9; 28, 15. E nunca introduz de modo diferente nenhum outro trecho em que vai relatar eventos ou acontecimentos factuais, pelo que podemos concluir que Mateus pretendia que o seu Evangelho tivesse um carácter estritamente histórico (Cf. J. W. SCOTT, “Matthew’s intention to write history”, Westminster Theological Journal 47 (1985) 68-81, disponível aqui).
É inegável, portanto, que Mateus quer narrar factos. Um dos pioneiros da moderna «crítica da redacção», o teólogo e exegeta evangélico Willi Marxsen, declara que “Mateus escreve como historiador, como as suas citações do Antigo Testamento em particular demonstram” (Introduction to the New Testament, Oxford, Blackwell, 1968, p. 157).
S. Lucas, por sua vez, teve o cuidado de comunicar a “Teófilo” a sua preocupação de integrar numa narração cuidada e ordenada os numerosos testemunhos que ouviu ou recolheu, incorporando também no seu Evangelho muitos outros textos dispersos ou relatos breves que já existiam (cf. Lucas 1, 1-4).  
Bento XVI observa no entanto que, na base dos relatos de S. Lucas referentes à infância de Jesus, parece estar um texto hebraico. Por isso, houve quem tentasse compreender os dois primeiros capítulos deste Evangelho “a partir de um género literário antigo, designando-os como um «midraxe hagádico», isto é, uma interpretação da Sagrada Escritura através de narrações”. A semelhança literária é inegável; apesar disso, conclui Bento XVI, “é claro que a narrativa de Lucas da infância não se situa no antigo judaísmo, mas no cristianismo primitivo” (J. RATZINGER / BENTO XVI, A infância de Jesus, p. 20).
Que significa esta afirmação? Significa que S. Lucas não pretende «interpretar» mas anunciar o acontecimento de Cristo, na sua facticidade e na sua novidade irredutível aos antigos relatos, embora estes, que têm no mistério de Cristo o seu cumprimento, o possam, por isso mesmo, iluminar e ajudar a compreender.
Numerosos episódios bíblicos e antigas profecias que ficaram como que suspensas no tempo, como palavas “à espera” (cf. ibid., p. 46), isto é, à espera de uma realização definitiva, agora cumprem-se em Jesus.
É o que diz ainda Bento XVI:  
“A história aqui narrada [nos Evangelhos de Mateus e Lucas] não é simplesmente uma ilustração das palavras antigas, mas a realidade que as palavras aguardavam. Esta, nas palavras, por si sós, não era reconhecível, mas as palavras alcançam o seu significado pleno através do evento em que as mesmas se tornam realidade” (p. 20).
Por isso, nos Evangelhos não temos histórias, mas história, em que as antigas profecias encontram o seu cumprimento:
“Resumindo, Mateus e Lucas – cada um à sua maneira – queriam, não tanto narrar «histórias», mas escrever história: história real, sucedida, embora certamente interpretada e compreendida com base na Palavra de Deus. Isto significa também que não havia a intenção de narrar de modo completo, mas de escrever aquilo que, à luz da Palavra e para a comunidade nascente da fé, se revelava importante. As narrativas da infância são história interpretada e, a partir da interpretação, escrita e condensada" (J. RATZINGER / BENTO XVI, A infância de Jesus, p. 21).
Sendo bem claro, portanto, que os Evangelistas não «inventaram» estas «histórias», mas quiseram escrever «história», qual é a mensagem essencial que esta «história» continua hoje a transmitir-nos?
 
3.
Tanto o Evangelho de S. Lucas como o de S. Mateus, pretendem transmitir esta mensagem: o Filho de Deus, Jesus Cristo, foi gerado no seio de Maria pelo poder de Deus.
Os Evangelhos de S. Mateus e S. Lucas, cada um a seu modo, anunciam que Jesus foi gerado e nasceu por puro dom de Deus, que Maria acolheu no seu coração e em todo o seu ser. Jesus não foi gerado por um homem, mas pelo poder de Deus, e foi acolhido, de um modo livre e consciente, pela pura disponibilidade virginal de Maria.
Não é por acaso que S. Lucas inicia assim o seu relato do anúncio do Anjo a Maria, apresentando-a repetidamente como a Virgem: “No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de David, e o nome da virgem era Maria” (1, 26-27).
Este anúncio é uma surpresa divina. É um dado inteiramente novo, que se impõe à fé, e que os cristãos acolheram desde o início com imensa alegria e admiração. “Desde as primeiras formulações da fé, a Igreja confessou que Jesus foi concebido unicamente pelo poder do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, afirmando igualmente o aspecto corporal deste acontecimento” (Catecismo da Igreja Católica, n. 496).
Os Evangelhos entendem a concepção de Jesus como uma obra divina, que ultrapassa toda a compreensão e possibilidade humanas. “O que nela se gerou é fruto do Espírito Santo”, diz o Anjo a José, a respeito de Maria, sua esposa (Mateus 1, 20).
De realçar que no livro A infância de Jesus, Bento XVI não foge à pergunta decisiva: 
“O que os dois evangelistas Mateus e Lucas, de forma diferente e com base em tradições diversas, nos referem sobre a concepção de Jesus por obra do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, é um acontecimento histórico real, ou é uma lenda piedosa, que, a seu modo, quer exprimir e interpretar o mistério de Jesus?” (p. 47).
E responde que nem nas narrativas sobre a geração e o nascimento dos faraós egípcios, nem nos textos provenientes do ambiente greco-romano se pode falar de verdadeiros paralelos. Conclui então:
“As narrações em Mateus e Lucas não são formas mais desenvolvidas de mitos. Segundo a sua noção de fundo, estão solidamente colocadas na tradição bíblica de Deus Criador e Redentor. Mas, quanto ao seu conteúdo concreto, provêm de tradição familiar, são uma tradição transmitida que conserva o sucedido” (p. 48).
 
 

Theotokos Aeiparthenos, A Eleusa Theotokos de Tolga  (séc. XIII)
  
4.
Mas porquê a concepção virginal de Jesus no seio de Maria? Por que motivo quis Deus, segundo S. Mateus e S. Lucas, que o seu Filho se fizesse homem deste modo, e não como todos os outros seres humanos, que vêm ao mundo como fruto da doação espiritual e física dos seus pais?
Por esta razão: porque o nascimento do Filho de Deus não é uma decisão humana, mas o resultado de uma decisão inteiramente gratuita e misericordiosa de Deus. “A virgindade de Maria manifesta a iniciativa absoluta de Deus na Encarnação. Jesus só tem Deus por Pai” (Catecismo da Igreja Católica, n. 503).
Jesus não podia ser gerado como os outros seres humanos, porque Ele não é um simples homem, mas o próprio Deus feito homem.
A humanidade de Jesus foi criada pelo poder de Deus no seio de Maria. A virgindade de Maria e a concepção virginal de Jesus são o sinal do poder de Deus, que faz acontecer a Encarnação do Filho unigénito do Pai.
Além disso, “Jesus é concebido pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria, porque Ele é o Novo Adão, o Homem Novo, que inaugura a criação nova” (Catecismo da Igreja Católica, n. 504).
A vida de cada ser humano é sempre um mistério admirável, mas não é isso que os Evangelhos pretendem primariamente comunicar, ao contrário do que diz Anselmo Borges. A sua mensagem bem clara é que Jesus não é apenas mais um, entre tantos milhões de seres humanos, com toda a dignidade própria da condição humana e também com o peso de tantas misérias que se transmitem de geração em geração, mas um começo inteiramente novo.
No entanto, Jesus só pode ser o Homem Novo, porque é “fruto do Espírito Santo” (Mateus 1, 20).
Por conseguinte, o que dizemos no Credo – «Creio em Jesus Cristo, seu [de Deus] único Filho, Nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo; nasceu da Virgem Maria – é mesmo verdade?
“A resposta, sem qualquer hesitação, é sim” – afirma Bento XVI – que cita o teólogo suíço Reformado Karl Barth, para assinalar que há dois pontos na história de Jesus em que a acção de Deus intervém no mundo material: no parto da Virgem e na ressurreição do sepulcro:
«Karl Barth fez notar que, na história de Jesus, há dois pontos nos quais o agir de Deus intervém directamente no mundo material: o seu nascimento da Virgem e a ressurreição do sepulcro, de onde Jesus saiu e não sofreu a corrupção. (…) Por isso, estes dois pontos – o parto virginal e a ressurreição real do túmulo – são verdadeiro critério da fé. Se Deus não tem poder também sobre a matéria, então Ele não é Deus. Mas Ele possui esse poder e, com a concepção e a ressurreição de Jesus Cristo, inaugurou uma nova criação; assim, enquanto Criador, Ele é também o nosso Redentor. Por isso, a concepção e o nascimento de Jesus da Virgem Maria são elementos fundamentais da nossa fé e um luminoso sinal de esperança» (p. 51-52).
Conclusão
Compreende-se assim facilmente que, ao não aceitar todo o conteúdo neotestamentário da ressurreição de Jesus – ou ao dilui-la de tal modo que fica equiparada a uma simples sobrevivência em Deus, que não se chega a saber se é pessoal, se simplesmente virtual – Anselmo Borges negue também a concepção virginal de Jesus Cristo e as própria virgindade de Maria, e esvazie completamente a densa mensagem dos Evangelhos da Infância, equiparando-a a uma simples exaltação da dignidade humana.
É um lamentável empobrecimento, que esvazia e destrói a fé cristã.
Não menos lamentável, porém, é verificar que a sua negação não decorre da compreensão das Escrituras ou de uma límpida reflexão teológica, mas do puro preconceito, que é o maior inimigo, não só da fé, mas também da razão. 
José Manuel dos Santos Ferreira
 




 

domingo, janeiro 27, 2013

Jesus não andou à procura da verdade


Qual terá sido a emoção de Teófilo, ao ler pela primeira vez o Evangelho que S. Lucas escreveu, e lhe enviou? Teófilo já era cristão, já tinha sido instruído na fé. Mas agora podia ler o relato da vida, dos ensinamentos e dos milagres de Jesus, numa narração cuidada e ordenada, em que S. Lucas, inspirado pelo Espírito Santo, recolheu numerosos testemunhos que ouviu, e integrou muitos outros textos dispersos ou relatos breves que já existiam. E assim nasceu este Evangelho, que S. Lucas dedica a Teófilo, (nome que significa: «aquele que ama a Deus»), a quem o envia com muita amizade, e a quem explica por que o faz: “para que tenhas conhecimento seguro do que te foi ensinado” (Lucas 1, 1-4).

Também nós precisamos de ter este “conhecimento seguro” do anúncio de Jesus que nos foi transmitido. A nossa fé não é uma impressão vaga, um palpite, uma intuição: é uma certeza firme!

É necessário que aprofundemos cada vez mais este “conhecimento seguro” do mistério de Cristo, pela leitura diária do Santo Evangelho e pelo estudo e meditação da doutrina da fé.

É indispensável ler diariamente o Evangelho: pode ser uma leitura seguida de cada um dos quatro Evangelhos, ou a leitura do Evangelho do dia, ou ambas as coisas: serão apenas uns breves minutos, mas que aumentarão na mente e no coração de cada um o fascínio por Jesus Cristo, e o desejo de O seguir e de O amar cada vez mais.

Esta certeza firme que possuiremos, apesar das nossas fraquezas, será também um reflexo da absoluta segurança que tinha Jesus, no cumprimento da sua missão, como é patente no episódio da ida de Jesus à sinagoga de Nazaré (Lucas 4, 16-21).
 
Jesus ensina na sinagoga de Nazaré - Mosteiro (ortodoxo) de Dečani, Kosovo
 
 
É útil situar no tempo este episódio. Depois do milagre de Caná, Jesus foi para Cafarnaum, com sua Mãe, os cinco discípulos e outros familiares que também tinham estado na festa do casamento (João 2, 12). Nossa Senhora e estes familiares devem ter seguido para Nazaré, mas Jesus ficou em Cafarnaum, na casa de Simão Pedro. Foi aqui que Jesus, caminhando tranquilamente à beira-mar, chamou definitivamente Pedro e André, Tiago e João (Marcos 1, 16-20), que entretanto tinham voltado à sua anterior profissão, mas que logo a seguir deixariam, para seguir Jesus.

Um dia, depois de ter já ter feito diversos milagres em Cafarnaum (Marcos 1, 21-34), Jesus voltou a Nazaré, “onde se tinha criado”, como diz S. Lucas. E aqui, “segundo o seu costume, entrou na sinagoga a um sábado, e levantou-Se para fazer a leitura” (4, 16). Acabada a leitura, e para grande admiração dos que O ouviam, e que já O conheciam desde criança, Jesus diz: “Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (4, 21). Este comentário equivale a dizer: ‘Eu sou Aquele de quem fala a Escritura Sagrada, Aquele que foi ungido para “anunciar a boa nova aos pobres”. Esse que foi enviado “a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos e o ano da graça do Senhor”(4, 19), Esse, sobre quem repousa o Espírito de Deus, sou Eu mesmo. A Palavra de Deus cumpre-se em Mim. Em Mim, acontece finalmente a salvação prometida’.

São palavras de uma enorme ousadia: como é que Jesus fala com tanta certeza? Acreditamos que Jesus era o Filho de Deus, mas, como homem, sabia quem era? Jesus conhecia claramente qual era a sua missão?

Sim, Jesus não andou à procura da verdade: sempre conheceu a verdade, que Ele próprio tinha a missão de revelar. Como escreveu um grande santo do séc. VII, S. Máximo Confessor, “a natureza humana do Filho de Deus, não por si mesma, mas pela sua união ao Verbo, conhecia e manifestava em si tudo o que é próprio de Deus” (São Máximo Confessor, Quaestiones et dubia, Q. I, 67: CCG10, 155 [66: PG 90. 840], citado pelo Catecismo da Igreja Católica, n. 473).

Em primeiro lugar, Jesus, Filho de Deus feito homem, tinha um conhecimento íntimo e imediato de seu Pai. Podermos dizer que Jesus, no mais íntimo da sua alma, via o Pai, incessantemente, constantemente, o que era para Ele fonte de uma imensa alegria e felicidade. Por outro lado, na sua inteligência humana manifestava-se o conhecimento divino que tinha dos pensamentos secretos do coração do homem (Mc 2, 8; Jo 2, 25; 6, 61) (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 473).

Mas, além disso, na mente humana de Jesus, pela sua união com o Verbo, existia também o perfeito conhecimento do plano salvador de Deus, que Ele tinha vindo revelar (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 474). Jesus sabia, pois, quem era, e qual a sua missão.

Por isso, na sinagoga de Nazaré, pôde dizer com toda a verdade: “Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lucas 4, 21).

Jesus, Filho de Deus feito homem, cumpre o plano de Deus, e realiza plenamente as esperanças dos homens. Jesus responde às grandes questões que há na mente e no coração de todos: Que sentido tem a vida? Porquê a morte? Como podemos ser melhores?

Jesus é decisivo para a vida humana, e nós temos experiência disso. N’Ele somos conhecidos, amados, purificados, libertados, salvos. D’Ele nos vem a graça para viver de um modo novo.