Que
significa esta afirmação? Significa que S. Lucas não pretende «interpretar» mas
anunciar o acontecimento de Cristo, na sua facticidade e na sua novidade
irredutível aos antigos relatos, embora estes, que têm no mistério de Cristo o
seu cumprimento, o possam, por isso mesmo, iluminar e ajudar a compreender.
Numerosos
episódios bíblicos e antigas profecias que ficaram como que suspensas no tempo,
como palavas “à espera” (cf. ibid., p.
46), isto é, à espera de uma realização definitiva, agora cumprem-se em Jesus.
É
o que diz ainda Bento XVI:
“A história
aqui narrada [nos Evangelhos de Mateus e Lucas] não é simplesmente uma
ilustração das palavras antigas, mas a realidade que as palavras aguardavam.
Esta, nas palavras, por si sós, não era reconhecível, mas as palavras alcançam
o seu significado pleno através do evento em que as mesmas se tornam realidade”
(p. 20).
Por
isso, nos Evangelhos não temos histórias,
mas história, em que as antigas
profecias encontram o seu cumprimento:
“Resumindo,
Mateus e Lucas – cada um à sua maneira – queriam, não tanto narrar «histórias»,
mas escrever história: história real, sucedida, embora certamente interpretada
e compreendida com base na Palavra de Deus. Isto significa também que não havia
a intenção de narrar de modo completo, mas de escrever aquilo que, à luz da
Palavra e para a comunidade nascente da fé, se revelava importante. As
narrativas da infância são história interpretada e, a partir da interpretação,
escrita e condensada" (J. RATZINGER / BENTO XVI, A infância de Jesus, p. 21).
Sendo
bem claro, portanto, que os Evangelistas não «inventaram» estas «histórias», mas
quiseram escrever «história», qual é a mensagem essencial que esta «história»
continua hoje a transmitir-nos?
3.
Tanto
o Evangelho de S. Lucas como o de S. Mateus, pretendem transmitir esta
mensagem: o Filho de Deus, Jesus Cristo, foi gerado no seio de Maria pelo poder
de Deus.
Os
Evangelhos de S. Mateus e S. Lucas, cada um a seu modo, anunciam que Jesus foi
gerado e nasceu por puro dom de Deus, que Maria acolheu no seu coração e em
todo o seu ser. Jesus não foi gerado por um homem, mas pelo poder de Deus, e
foi acolhido, de um modo livre e consciente, pela pura disponibilidade virginal
de Maria.
Não
é por acaso que S. Lucas inicia assim o seu relato do anúncio do Anjo a Maria,
apresentando-a repetidamente como a Virgem: “No sexto mês, o anjo Gabriel foi
enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem
desposada com um homem que se chamava José, da casa de David, e o nome da
virgem era Maria” (1, 26-27).
Este
anúncio é uma surpresa divina. É um dado inteiramente novo, que se impõe à fé,
e que os cristãos acolheram desde o início com imensa alegria e admiração.
“Desde as primeiras formulações da fé, a Igreja confessou que Jesus foi
concebido unicamente pelo poder do Espírito Santo no seio da Virgem Maria,
afirmando igualmente o aspecto corporal deste acontecimento” (Catecismo da Igreja Católica, n. 496).
Os
Evangelhos entendem a concepção de Jesus como uma obra divina, que ultrapassa
toda a compreensão e possibilidade humanas. “O que nela se gerou é fruto do Espírito
Santo”, diz o Anjo a José, a respeito de Maria, sua esposa (Mateus 1, 20).
De
realçar que no livro A infância de Jesus,
Bento XVI não foge à pergunta decisiva:
“O que os dois
evangelistas Mateus e Lucas, de forma diferente e com base em tradições
diversas, nos referem sobre a concepção de Jesus por obra do Espírito Santo no
seio da Virgem Maria, é um acontecimento histórico real, ou é uma lenda
piedosa, que, a seu modo, quer exprimir e interpretar o mistério de Jesus?” (p.
47).
E
responde que nem nas narrativas sobre a geração e o nascimento dos faraós
egípcios, nem nos textos provenientes do ambiente greco-romano se pode falar de
verdadeiros paralelos. Conclui então:
“As narrações
em Mateus e Lucas não são formas mais desenvolvidas de mitos. Segundo a sua
noção de fundo, estão solidamente colocadas na tradição bíblica de Deus Criador
e Redentor. Mas, quanto ao seu conteúdo concreto, provêm de tradição familiar,
são uma tradição transmitida que conserva o sucedido” (p. 48).
.jpg) |
Theotokos Aeiparthenos, A Eleusa Theotokos de Tolga (séc. XIII)
|
4.
Mas
porquê a concepção virginal de Jesus no seio de Maria? Por que motivo quis Deus,
segundo S. Mateus e S. Lucas, que o seu Filho se fizesse homem deste modo, e
não como todos os outros seres humanos, que vêm ao mundo como fruto da doação
espiritual e física dos seus pais?
Por
esta razão: porque o nascimento do Filho de Deus não é uma decisão humana, mas
o resultado de uma decisão inteiramente gratuita e misericordiosa de Deus. “A
virgindade de Maria manifesta a iniciativa absoluta de Deus na Encarnação.
Jesus só tem Deus por Pai” (Catecismo da Igreja Católica, n. 503).
Jesus
não podia ser gerado como os outros seres humanos, porque Ele não é um simples
homem, mas o próprio Deus feito homem.
A
humanidade de Jesus foi criada pelo poder de Deus no seio de Maria. A
virgindade de Maria e a concepção virginal de Jesus são o sinal do poder de
Deus, que faz acontecer a Encarnação do Filho unigénito do Pai.
Além
disso, “Jesus é concebido pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria, porque
Ele é o Novo Adão, o Homem Novo, que inaugura a criação nova” (Catecismo da Igreja Católica, n. 504).
A
vida de cada ser humano é sempre um mistério admirável, mas não é isso que os
Evangelhos pretendem primariamente comunicar, ao contrário do que diz Anselmo
Borges. A sua mensagem bem clara é que Jesus não é apenas mais um, entre tantos
milhões de seres humanos, com toda a dignidade própria da condição humana e
também com o peso de tantas misérias que se transmitem de geração em geração,
mas um começo inteiramente novo.
No
entanto, Jesus só pode ser o Homem Novo, porque é “fruto do Espírito Santo” (Mateus
1, 20).
Por
conseguinte, o que dizemos no Credo – «Creio em Jesus Cristo, seu [de Deus]
único Filho, Nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo;
nasceu da Virgem Maria – é mesmo verdade?
“A
resposta, sem qualquer hesitação, é sim” – afirma Bento XVI – que cita o
teólogo suíço Reformado Karl Barth, para assinalar que há dois pontos na
história de Jesus em que a acção de Deus intervém no mundo material: no parto
da Virgem e na ressurreição do sepulcro:
«Karl Barth
fez notar que, na história de Jesus, há dois pontos nos quais o agir de Deus
intervém directamente no mundo material: o seu nascimento da Virgem e a
ressurreição do sepulcro, de onde Jesus saiu e não sofreu a corrupção. (…) Por
isso, estes dois pontos – o parto virginal e a ressurreição real do túmulo –
são verdadeiro critério da fé. Se Deus não tem poder também sobre a matéria,
então Ele não é Deus. Mas Ele possui esse poder e, com a concepção e a
ressurreição de Jesus Cristo, inaugurou uma nova criação; assim, enquanto Criador,
Ele é também o nosso Redentor. Por isso, a concepção e o nascimento de Jesus da
Virgem Maria são elementos fundamentais da nossa fé e um luminoso sinal de
esperança» (p. 51-52).
Conclusão
Compreende-se
assim facilmente que, ao não aceitar todo o conteúdo neotestamentário da
ressurreição de Jesus – ou ao dilui-la de tal modo que fica equiparada a uma
simples sobrevivência em Deus, que não se chega a saber se é pessoal, se
simplesmente virtual – Anselmo Borges negue também a concepção virginal de
Jesus Cristo e as própria virgindade de Maria, e esvazie completamente a densa mensagem
dos Evangelhos da Infância, equiparando-a a uma simples exaltação da dignidade
humana.
É
um lamentável empobrecimento, que esvazia e destrói a fé cristã.
Não
menos lamentável, porém, é verificar que a sua negação não decorre da
compreensão das Escrituras ou de uma límpida reflexão teológica, mas do puro preconceito, que é o maior inimigo, não só da fé, mas
também da razão.
José
Manuel dos Santos Ferreira