domingo, janeiro 27, 2013

Jesus não andou à procura da verdade


Qual terá sido a emoção de Teófilo, ao ler pela primeira vez o Evangelho que S. Lucas escreveu, e lhe enviou? Teófilo já era cristão, já tinha sido instruído na fé. Mas agora podia ler o relato da vida, dos ensinamentos e dos milagres de Jesus, numa narração cuidada e ordenada, em que S. Lucas, inspirado pelo Espírito Santo, recolheu numerosos testemunhos que ouviu, e integrou muitos outros textos dispersos ou relatos breves que já existiam. E assim nasceu este Evangelho, que S. Lucas dedica a Teófilo, (nome que significa: «aquele que ama a Deus»), a quem o envia com muita amizade, e a quem explica por que o faz: “para que tenhas conhecimento seguro do que te foi ensinado” (Lucas 1, 1-4).

Também nós precisamos de ter este “conhecimento seguro” do anúncio de Jesus que nos foi transmitido. A nossa fé não é uma impressão vaga, um palpite, uma intuição: é uma certeza firme!

É necessário que aprofundemos cada vez mais este “conhecimento seguro” do mistério de Cristo, pela leitura diária do Santo Evangelho e pelo estudo e meditação da doutrina da fé.

É indispensável ler diariamente o Evangelho: pode ser uma leitura seguida de cada um dos quatro Evangelhos, ou a leitura do Evangelho do dia, ou ambas as coisas: serão apenas uns breves minutos, mas que aumentarão na mente e no coração de cada um o fascínio por Jesus Cristo, e o desejo de O seguir e de O amar cada vez mais.

Esta certeza firme que possuiremos, apesar das nossas fraquezas, será também um reflexo da absoluta segurança que tinha Jesus, no cumprimento da sua missão, como é patente no episódio da ida de Jesus à sinagoga de Nazaré (Lucas 4, 16-21).
 
Jesus ensina na sinagoga de Nazaré - Mosteiro (ortodoxo) de Dečani, Kosovo
 
 
É útil situar no tempo este episódio. Depois do milagre de Caná, Jesus foi para Cafarnaum, com sua Mãe, os cinco discípulos e outros familiares que também tinham estado na festa do casamento (João 2, 12). Nossa Senhora e estes familiares devem ter seguido para Nazaré, mas Jesus ficou em Cafarnaum, na casa de Simão Pedro. Foi aqui que Jesus, caminhando tranquilamente à beira-mar, chamou definitivamente Pedro e André, Tiago e João (Marcos 1, 16-20), que entretanto tinham voltado à sua anterior profissão, mas que logo a seguir deixariam, para seguir Jesus.

Um dia, depois de ter já ter feito diversos milagres em Cafarnaum (Marcos 1, 21-34), Jesus voltou a Nazaré, “onde se tinha criado”, como diz S. Lucas. E aqui, “segundo o seu costume, entrou na sinagoga a um sábado, e levantou-Se para fazer a leitura” (4, 16). Acabada a leitura, e para grande admiração dos que O ouviam, e que já O conheciam desde criança, Jesus diz: “Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (4, 21). Este comentário equivale a dizer: ‘Eu sou Aquele de quem fala a Escritura Sagrada, Aquele que foi ungido para “anunciar a boa nova aos pobres”. Esse que foi enviado “a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos e o ano da graça do Senhor”(4, 19), Esse, sobre quem repousa o Espírito de Deus, sou Eu mesmo. A Palavra de Deus cumpre-se em Mim. Em Mim, acontece finalmente a salvação prometida’.

São palavras de uma enorme ousadia: como é que Jesus fala com tanta certeza? Acreditamos que Jesus era o Filho de Deus, mas, como homem, sabia quem era? Jesus conhecia claramente qual era a sua missão?

Sim, Jesus não andou à procura da verdade: sempre conheceu a verdade, que Ele próprio tinha a missão de revelar. Como escreveu um grande santo do séc. VII, S. Máximo Confessor, “a natureza humana do Filho de Deus, não por si mesma, mas pela sua união ao Verbo, conhecia e manifestava em si tudo o que é próprio de Deus” (São Máximo Confessor, Quaestiones et dubia, Q. I, 67: CCG10, 155 [66: PG 90. 840], citado pelo Catecismo da Igreja Católica, n. 473).

Em primeiro lugar, Jesus, Filho de Deus feito homem, tinha um conhecimento íntimo e imediato de seu Pai. Podermos dizer que Jesus, no mais íntimo da sua alma, via o Pai, incessantemente, constantemente, o que era para Ele fonte de uma imensa alegria e felicidade. Por outro lado, na sua inteligência humana manifestava-se o conhecimento divino que tinha dos pensamentos secretos do coração do homem (Mc 2, 8; Jo 2, 25; 6, 61) (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 473).

Mas, além disso, na mente humana de Jesus, pela sua união com o Verbo, existia também o perfeito conhecimento do plano salvador de Deus, que Ele tinha vindo revelar (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 474). Jesus sabia, pois, quem era, e qual a sua missão.

Por isso, na sinagoga de Nazaré, pôde dizer com toda a verdade: “Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lucas 4, 21).

Jesus, Filho de Deus feito homem, cumpre o plano de Deus, e realiza plenamente as esperanças dos homens. Jesus responde às grandes questões que há na mente e no coração de todos: Que sentido tem a vida? Porquê a morte? Como podemos ser melhores?

Jesus é decisivo para a vida humana, e nós temos experiência disso. N’Ele somos conhecidos, amados, purificados, libertados, salvos. D’Ele nos vem a graça para viver de um modo novo.

domingo, janeiro 20, 2013

Manifestou a Sua glória





Lemos no Evangelho de S. João o relato do primeiro milagre de Jesus, em Caná da Galileia. S. João salienta que “estava lá a mãe de Jesus”, e, como observa S. Tomás de Aquino no seu Comentário a S. João (Super Io., cap. 2 l. 1), foi em atenção a Nossa Senhora que Jesus foi convidado. Não é de estranhar que fosse assim, porque, nesse momento, Jesus era ainda praticamente um desconhecido, até os próprios discípulos, que em breve deixarão tudo para seguir definitivamente Jesus (Marcos 1, 16-20), ainda pouco sabiam d’Ele. Só a sua Mãe sabe muito bem quem Ele é, e por isso o seu papel neste episódio é tão importante.

 
 
Jerôme Nadal, ed., As bodas de Caná da Galileia
Mas que significa esta presença de Jesus nas bodas de Caná?

Em primeiro lugar, em sentido espiritual, as bodas significam a união de Cristo e da Igreja. Cristo é o Esposo da Igreja, e a Igreja, sua Esposa. Falando do matrimónio, S. Paulo diz: “Este mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja” (Efésios 5, 32). As núpcias do Filho de Deus aconteceram, como explica S. Tomás de Aquino, quando o Verbo encarnou e Se fez homem. Então o Filho de Deus Se uniu definitivamente com a humanidade. Depois, “este matrimónio foi tornado público quando a Igreja se uniu ao Verbo pela fé”. Destas núpcias diz o Apocalipse: “Chegaram as núpcias do Cordeiro. Sua Esposa está preparada” (19, 7). Mas a sua plena realização será na glória do Céu, como também se lê no Apocalipse: “Felizes os convidados para a ceia das núpcias do Cordeiro” (19, 9).

Em segundo lugar, em sentido imediato ou histórico, Jesus, ao participar nesta festa, mostra que não despreza o matrimónio entre o homem e a mulher, nem simplesmente o tolera, mas que abençoa a união matrimonial, e lhe dá as graças de que necessita para que possa ser aquilo que é chamada a ser desde o início da humanidade: uma comunhão de amor e de vida.

O casamento é uma comunhão de duas pessoas, um homem e uma mulher, que, na sua unidade e diversidade, querem ser, e se comprometem a ser, um para o outro, um dom total.

Ele também é o ambiente humano natural e mais adequado para a geração e crescimento de novas vidas. Nele se fundamenta a família, como espaço alargado de encontro e convivência de diferentes pessoas e diferentes gerações. O seu autor é Deus, e Deus é também o seu garante e o seu defensor. Mas é necessário que toda a sociedade o admire e o defenda como um «bem comum» que é extremamente importante para todos: casais, pessoas solteiras, crianças, famílias e comunidades, e para a sociedade em geral.

Bento XVI tem defendido energicamente a família contra graves ameaças que hoje a afectam, e disse recentemente que, “na questão da família, não está em jogo meramente uma determinada forma social, mas o próprio homem: está em questão, o que é o homem e o que é preciso fazer para ser justamente homem” (Discurso à Cúria Romana, 21 de Dezembro de 2012).
Naquele dia, em Caná da Galileia, o amor de Cristo pelos casais revelou-se de um modo imprevisível. Aconteceu que a Virgem Maria, sempre atenta a tudo, disse a Jesus a dado momento: “Não têm vinho”. Foi uma forma muito delicada de chamar a atenção de Jesus para aquele problema dos noivos e pedir a sua intervenção. Maria foi, junto de Jesus, a porta-voz carinhosa das angústias daquele casal.
Esta forma de intervir, por parte de Nossa Senhora, é muito especial, revelando, como nota S. Tomás, “o seu amor respeitoso em relação a Cristo”.
 
E explica o Doutor Angélico: “No amor respeitoso que temos em relação a Deus, basta-nos simplesmente apresentar a nossa indigência, segundo este versículo: “Senhor, diante de vós estão todos os meus desejos, e o meu gemido não vos é oculto” (Salmo 37 [38], 10). De que maneira Deus virá em nossa ajuda, não nos compete procurar sabê-lo, pois, como diz o Apóstolo, não sabemos o que convém pedir nas nossas orações (Romanos 8, 26). É por isso que a Mãe de Jesus apresenta unicamente a Cristo a indigência dos outros, dizendo: «Não têm vinho» ”.
A primeira reacção de Jesus, no entanto, parece negativa: “Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora”. Este modo de Jesus falar não revela dureza, mas profundidade. Foi assim que Jesus falou a sua Mãe, do alto da Cruz, referindo-Se ao discípulo que estava ao seu lado: “Mulher, eis o teu filho” (João 19, 26). Aqui, em Caná, deve ter havido um breve silêncio, o olhar da Mãe cruzou-se com o olhar do Filho, e Maria, habituada a meditar todas as coisas no seu coração, sentiu que o Filho iria atender a sua súplica e adiantar o relógio da história da salvação e, sem mais demoras, disse em voz baixa aos serventes: “Fazei tudo o que Ele vos disser”.
Então, Jesus levanta-Se, e manda-lhes encher de água as seis talhas de pedra que ali existiam, destinadas à purificação dos judeus. Poderiam levar ao todo mais de 600 litros, era um trabalho demorado e cansativo, mas eles obedeceram, e então o milagre acontece, e toda aquela água preciosa mas sem sabor se transforma num vinho excelente, para grande admiração do chefe de mesa, que estranha que só então se tenha servido “o vinho bom”.
Terá sido só um milagre para resolver um problema de uma festa de casamento? Não, foi muito mais do que isso, foi uma primeira revelação do poder divino de Jesus, e em todo ele se contém um novo e profundo simbolismo.
 
Ao presenciarmos este milagre, percebemos a diferença que há entre o Antigo Testamento e o Novo: a água dos rituais de purificação dos judeus transformou-se no vinho precioso do Evangelho e da graça de Cristo. A água só servia para a limpeza corporal exterior, mas a graça de Jesus Cristo renova e purifica o homem por dentro. A água, portanto, simboliza a Antiga Aliança, à qual o povo foi sempre infiel, e o vinho representa a Nova Aliança, que um dia será selada na perfeita obediência filial e no Sangue precioso de Jesus Cristo derramado na cruz.
Quando se aperceberam do que tinha acontecido, deve ter havido um certo alvoroço entre os presentes. É provável que, nesse momento, Jesus, acompanhado pelos discípulos, se tenha retirado discretamente. Tinha começado a era dos milagres, sinais dos tempos messiânicos, tempos de abundância, de alegria, de reconciliação e de cura. Com júbilo contemplativo, S. João observa que Jesus “manifestou a Sua glória, e os seus discípulos acreditaram n’Ele”.
Como escreve S. Tomás, “tinham antes de mais acreditado n’Ele como um homem de bem, que pregava uma doutrina justa e recta, mas desde então passaram a acreditar n’Ele como Deus”.

 

domingo, janeiro 13, 2013

Epifanias de Cristo

O Baptismo de Jesus nos Jordão é uma segunda Epifania, termo que vem das palavras gregas epi, que significa sobre, e phania, que significa manifestação: assim como Jesus se manifestou aos Magos do Oriente, assim se manifesta agora no seu Baptismo como verdadeiro Filho de Deus. A esta segunda Epifania pode chamar-se, portanto, Teofania, de Theos, palavra grega que significa Deus: o baptismo de Jesus é manifestação de Deus, manifestação da Santíssima Trindade.

E haverá ainda uma terceira Epifania, que aconteceu em Caná da Galileia, quando Jesus converteu a água em vinho, (como leremos no Evangelho do próximo domingo; este texto, infelizmente, só se lê hoje no «Ano C»). Santo António de Lisboa, num dos seus sermões, depois de comentar os anteriores significados, chama-lhe Bethfania, de beth, em hebraico, que significa casa, “porque, passado um ano do baptismo, realizou um milagre divino entre as paredes de uma casa, numa festa de núpcias” (Sermão para a Epifania do Senhor, 2)

Estas três epifanias são celebradas desde há muitos séculos em dias distintos, como muito bem explica no seu blog o Pe. John Hunwicke. Mas há ainda alguns textos na liturgia latina que salientam a sua unidade, como esta antífona do Benedictus da Solenidade da Epifania do Senhor: “Hoje a Igreja uniu-se ao seu esposo celeste, porque, no Jordão, Cristo a lavou dos seus pecados; os Magos, com presentes, correm às festas das núpcias reais; e os convivas alegram-se com a água transformada em vinho. Aleluia”.

Esta unidade aparece ainda mais claramente na antífona do Magnificat das II Vésperas da Epifania:

Tribus miraculis ornatum  diem sanctum colimus: hodie stella magos duxit ad praesepium,  hodie vinum ex aqua factum est ad nuptias,  hodie in Jordane Christus baptizari voluit,  ut salvaret nos universos.  Haec est dies illa, quam fecit Dominus;  exsultemus et laetemur in ea. Alleluia”, que se pode traduzir assim, como propõe o Duarte Valério, no blog Ecce super montes:

“Celebramos um dia santo ornado de três milagres: hoje, a estrela conduziu os Magos ao presépio; hoje, foi feito vinho a partir de água nas núpcias; hoje, no Jordão, Cristo quis ser baptizado por João, para nos salvar. Aleluia”.

A tradução da Liturgia das Horas é esta: “Recordamos neste dia três mistérios: hoje a estrela guiou os Magos ao presépio; hoje, nas bodas de Caná, a água foi mudada em vinho; hoje, no rio Jordão, Cristo quis ser baptizado, para nos salvar. Aleluia”.

O tempo da Epifania, em sentido lato, é portanto um período de celebração contemplativa e de reflexão profunda sobre as múltiplas manifestações do Deus-Homem, Jesus Cristo.
 
Como aconteceu esta segunda Epifania de Cristo, o seu Baptismo? Os quatro Evangelhos, embora com matizes diferentes, mostram-nos que Jesus, um dia, se integrou silenciosamente na multidão dos que esperavam o baptismo de João. Sem nenhum gesto, sem nenhuma palavra, como acontece muitas vezes na nossa vida; quase não damos por Ele, naquele momento não O reconhecemos... Mas Jesus está ali, e não é apenas um de nós, não é somente um amigo, é o próprio Filho de Deus junto de nós.

Assim aconteceu naquele dia: “quando todo o povo recebeu o baptismo, Jesus também foi baptizado”. Parece ser apenas mais um, mas não: Jesus é o Messias, que nos procura, que vem ter connosco, onde quer que estejamos, e vem sem nenhum poder humano, apenas com a força do seu infinito amor e da sua misericórdia. 
 

Piero della Francesca, Baptismo de Cristo (1448-1450)
 

O Evangelho diz-nos que, depois de descer às águas, Jesus permanece em oração. Esta é uma preciosa informação de S. Lucas, que não podemos passar em claro: o ministério de Jesus começa com a oração, e termina com a oração (Lucas 22, 46).

A oração de Jesus é modelo e exemplo para nós, mas principalmente revela a sua plena união com o Pai, manifesta que Jesus Cristo vive, também como homem, uma perfeita sintonia com a vontade do Pai e uma perfeita contemplação da face do Pai.

E o Pai corresponde a esta perfeita obediência e intimidade filial de seu Filho.

S. Lucas diz-nos que, “enquanto orava, o Céu abriu-se, e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corporal, como uma pomba”. “O Céu abriu-se”, quer dizer, vai começar a definitiva revelação de Deus aos homens. E o Espírito Santo, que já habitava na humanidade de Cristo, vai impeli-Lo nesta nova etapa da história da salvação, para libertar os que estavam sob o domínio de Satanás e anunciar a boa nova aos pobres.

Depois, o próprio Jesus ouve estas palavras que Lhe são dirigidas a Si, exclusivamente: “ «Tu és o meu Filho muito amado: em Ti pus toda a minha complacência”.

No entanto, também para nós é muito importante ouvi-las. Ao convidar-nos a escutar estas palavras, no momento em que Jesus Cristo vai iniciar a sua caminhada pela Galileia, para proclamar o Reino de Deus em palavras e obras, S. Lucas quer anunciar-nos de novo quem é Jesus: Ele é o Filho que quis tornar-Se Servo, como anuncia Isaías, para cumprir em nosso favor, com a sua fragilidade humana e o seu poder divino, o plano do Pai. Jesus não é um simples homem nem um profeta excepcional, é o “Filho muito amado”, que aceita morrer e dar a vida por todos. Cristo aceita mergulhar na morte, como mergulhou nas águas do Jordão, para que também nós possamos ser, n’Ele, filhos de Deus.

O baptismo, enquanto imersão nas águas, é uma espécie de sepultura, a que depois se segue, na emersão, uma espécie de ressurreição. O baptismo de Jesus anuncia assim o nosso próprio baptismo, em que «imergimos» na morte de Cristo para podermos «emergir» com Ele, isto é, participar na sua ressurreição. Diz-nos S. Paulo: “Ou ignorais que todos os que fomos baptizados em Jesus Cristo, fomos baptizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com Ele na sua morte pelo baptismo para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova. Se fomos feitos o mesmo ser com ele por uma morte semelhante à sua, sê-lo-emos igualmente por uma comum ressurreição (Romanos 6, 3-5).

Esta identificação com Cristo manifesta-se na vida, em tantas escolhas que fazemos, e também na liturgia, que precisamos de viver mais intensamente e mais piedosamente. A liturgia tem que ser oração e ao mesmo tempo, expressão de entrega.

 

domingo, janeiro 06, 2013

Mais do que palavras. Sinais exteriores de fé

 





Mais do que palavras. Sinais exteriores de fé pelo celebrante

O significado das genuflexões e outros gestos

Pe. Nicola Bux

"Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d'Ele, adoraram-No" (Mateus 2, 11).


Jerôme Nadal (ed.), A adoração dos magos
 
A propósito da atitude dos Magos diante do Deus Menino, transcrevo este artigo do Pe. Nicola Bux, publicado pela agância ZENIT. O Pe. Nicola Bux é professor de Liturgia Oriental em Bari e consultor da Congregação para a Doutrina da Fé, para as Causas dos Santos, para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, bem como do Departamento de Celebrações Litúrgicas do Santo Padre).
 
A fé na presença do Senhor, e em particular na sua presença Eucarística, é expressa de forma exemplar pelo sacerdote, quando ele se ajoelha com profunda reverência durante a Santa Missa ou antes da Comunhão Eucarística

Na liturgia pós-conciliar estes actos de devoção foram reduzidas ao mínimo em nome da sobriedade. O resultado é que as genuflexões se tornaram uma raridade, ou um gesto superficial. Nós tornamo-nos mesquinhos com os nossos gestos de reverência diante do Senhor, embora, muitas vezes, elogiemos os Judeus e Muçulmanos pelo seu fervor e maneira de rezar.

Mais do que palavras, uma genuflexão manifesta a humildade do sacerdote, que se reconhece apenas como um ministro, e também a sua dignidade, dado ser capaz de tornar presente o Senhor no sacramento. No entanto, há outros sinais de devoção.

Quando o sacerdote estende as mãos em oração, ele indica a súplica do pobre e humilde. A Instrução Geral do Missal Romano (IGMR) estabelece que o sacerdote “quando celebra a Eucaristia, deve servir a Deus e ao povo com dignidade e humildade, e pelo seu porte e pela maneira como diz as palavras divinas deve transmitir aos fiéis a presença viva de Cristo” (n. 93). Uma atitude de humildade está em consonância com o próprio Cristo, manso e humilde de coração. Ele deve crescer e eu diminuir.

Ao caminhar para o altar, o sacerdote deve ser humilde, sem ostentação, sem ceder em olhar para a direita e para a esquerda, como se buscasse aplausos. Em vez disso, deve olhar para Jesus; Cristo crucificado está presente altar, diante do qual o sacerdote deve inclinar-se. O mesmo é feito diante das imagens sagradas exibidas na abside ou aos lados do altar, a Virgem, o santo titular, os outros santos.

Segue-se o beijo reverente do altar e eventualmente o incenso, o sinal da cruz e a sóbria saudação dos fiéis. Após a saudação é o acto penitencial, a ser realizado sentidamente, com os olhos baixos. Na forma extraordinária, os fiéis ajoelham-se, imitando o publicano que agradou ao Senhor.

O celebrante não deve levantar a sua voz, e deve manter um tom claro para a homilia, mas a voz deve ser submissa e suplicante na oração, solene quando cantada. “Nos textos que deverão ser ditos em voz alta e clara, quer pelo sacerdote quer pelo diácono, ou pelo leitor, ou por todos, o tom de voz deve corresponder ao género do próprio texto, ou seja, dependendo se se trata de uma leitura, uma oração, um comentário, uma aclamação, ou de um texto cantado; o tom também deve ser adaptado à forma de celebração e à solenidade da reunião” (IGMR, n. 38).

O sacerdote tocará os dons sagrados com admiração, e purificará os vasos sagrados com calma e atenção, em consonância com o exemplo de tantos santos e sacerdotes anteriores a ele. Ele baixará a cabeça sobre o pão e o cálice aquando da pronunciação das palavras de consagração e na invocação do Espírito Santo (epiclese). Levantará separadamente a Hóstia e o Cálice, fixando o seu olhar sobre eles em adoração e, em seguida, baixá-los-á em meditação. Ajoelhar-se-á duas vezes em adoração solene. Continuará com recolhimento e em tom de oração desde a anamnese à doxologia, levantando os dons sagrados em oferta ao Pai.

Após a comunhão, o silêncio de acção de graças pode ser feito de pé, melhor do que sentado, em sinal de respeito, ou de joelhos, se for possível, como fazia João Paulo II até ao final, quando celebrava na sua capela particular, com a cabeça abaixada e as mãos unidas. Pedia que o dom recebido por ele fosse um remédio para a vida eterna, como na fórmula que acompanha a purificação dos vasos sagrados; muitos fiéis fazem-no e são um exemplo.

Não deverão a patena e o cálice (vasos que são sagrados por causa do que contêm) serem cobertos “louvavelmente” (IGMR, n. 118; cf. 183), em sinal de respeito – e também por razões de higiene – como as Igrejas Orientais fazem?

O sacerdote, após a saudação e bênção final, subindo ao altar para beijá-lo, voltará a levantar os olhos para o crucifixo e fará uma inclinação diante do altar e uma genuflexão diante do tabernáculo. Então voltará para a sacristia, recolhido, sem dissipar com olhares e palavras a graça do mistério celebrado.

Desta forma os fiéis irão ser ajudados a compreender os sinais sagrados da liturgia, que é algo sério, em que tudo tem um significado para o encontro com o mistério de Deus.


 

domingo, dezembro 23, 2012

Et incarnatus est


I. In principio erat Verbum

In principio erat Verbum, Evangelhos de Lindsfarne, Biblioteca Britânica (séc. VII)

Começamos por uma evidência: quando falamos, pensamos. Embora às vezes pareça haver pessoas que falam sem pensar, a verdade é que, antes de qualquer palavra que dizemos, há sempre um pensamento que está na sua base. Em alguns casos é um «bom pensamento», e noutros, um «mau pensamento».
Todas as nossas palavras têm na base um pensamento. No entanto, nem todos os pensamentos se exprimem em palavras. Há muitos pensamentos que permanecem silenciosos dentro de nós. Esses pensamentos são palavras silenciosas dentro de nós. A maior parte deles nunca serão traduzidos em palavras sonoras. E podemos dizer que essas palavras silenciosas, esses pensamentos interiores, são «gerados» pela nossa alma. (Isso torna-se mais evidente no termo «conceito». O «conceito» é concebido pela nossa mente, é «gerado» pela nossa alma). Portanto, o nosso pensamento é como que se fosse «filho» da nossa alma.
Em Deus também acontecerá assim? Sim, em Deus também há uma palavra interior, silenciosa, infinita e eterna, a que se chama Verbo. “Verbo” vem do latim “Verbum”, que significa exactamente “palavra”. (Em grego diz-se “Logos”, que se traduz em latim precisamente por “Verbum”).  
O Verbo é a Palavra silenciosa e eterna gerada em Deus. Porque é gerado, o Verbo chama-se Filho. E Aquele que gera, chama-Se Pai. São as duas primeiras Pessoas da Santíssima Trindade: o Pai e o Filho. E há ainda uma terceira Pessoa: o Espírito Santo, que é Amor, (de quem falaremos noutro momento).
No seu comentário ao Símbolo dos Apóstolos, S. Tomás de Aquino explica: “O Filho de Deus é tão-só o Verbo de Deus, não como um verbo exteriormente proferido, porque tal verbo passa, mas como um verbo interiormente concebido; por isso, o próprio Verbo de Deus é de uma só natureza com Deus e igual a Deus”.
E continua, citando o Evangelho de S. João: “S. João, quando falou do Verbo de Deus, destruiu as três heresias atrás referidas: a de Fotino, quando disse: “No princípio era o Verbo”; a de Sabélio, quando disse: “e o Verbo estava em Deus”; e a de Ario, quando disse: “e o Verbo era Deus” (João 1, 1)”.
In principio erat Verbum...”: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus”: assim começa o Prólogo do Evangelho de S. João, que iremos ler na Missa do Dia de Natal.
Até há alguns anos, este texto era lido pelo sacerdote no final de todas as Missas. Agora só se lê no Natal, na Missa do Dia, em que é ouvido talvez sem grande atenção, e por isso este texto tão belo e profundo, que raramente é comentado pelos sacerdotes, está bastante esquecido.
Mais adiante, S. João escreve: “E o Verbo fez-Se carne, e habitou entre nós” (João 1, 14). “O Verbo fez-Se carne…”: estas é a mensagem central de S. João e de todo o Cristianismo. Voltaremos a este texto mais adiante, porque nele está contido o significado do Natal, o verdadeiro Mistério do Natal.
Mas primeiro, continuando a seguir a exposição de S. Tomás de Aquino, no seu comentário ao Símbolo dos Apóstolos, vamos retirar algumas consequências que vêm para a nossa vida pelo facto de Jesus ser o Filho de Deus, o Verbo de Deus:
1.       Ouvir: “Em primeiro lugar, se o Verbo de Deus é o Filho de Deus e todas as palavras de Deus possuem alguma semelhança com esse Verbo, todos nós devemos ouvir com satisfação as palavras de Deus. Se ouvirmos com prazer as palavras de Deus, isto é sinal de que amamos a Deus”.
2.       Acreditar: “Em segundo lugar, devemos crer nas palavras de Deus, porque é assim que o Verbo de Deus habita em nós, isto é, Cristo, que é o Verbo de Deus”.
3.       Meditar: “Em terceiro lugar, convém que sempre tenhamos o Verbo de Deus, que permanece em nós, como objecto das nossas meditações. Não é conveniente apenas crer, mas é necessário também meditar, pois de outro modo, a fé não nos seria útil. A meditação sobre o Verbo de Deus é muito útil contra o pecado. Lê-se nos Salmos: «Guardei no meu coração a Vossa palavra, para não pecar contra vós” (Salmo 118, 11). Lê-se, ainda, a respeito do homem justo: «na lei do Senhor medita dia e noite» (Salmo 1, 2). Por isso, se diz da Bem-aventurada Virgem Maria que «conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração» (Lucas 2, 51).
4.       Comunicar: “Em quarto lugar, convém que o homem comunique aos outros a palavra de Deus, advertindo, pregando e inflamando. Encontram-se nas cartas de S. Paulo os seguintes textos: «Que nenhuma palavra má proceda da vossa boca, mas somente as boas palavras que edificam» (Efésios 4, 29). “Que a palavra de Cristo habite em vós abundantemente, com toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros” (Colossenses 3, 16); “Prega a palavra, insiste, oportuna e inoportunamente, repreende, exorta e ameaça, com toda a paciência e doutrina” (2 Timóteo 4, 2).
5.       Cumprir: “Em último lugar, devemos cumprir o que a palavra de Deus determinou. Lê-se em S. Tiago: “Sede realizadores da palavra de Deus e não apenas ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tiago 1, 22).

Com Tomás de Aquino, dirigimos com admiração o nosso olhar para Nossa Senhora, em cujo seio o Verbo Se fez Carne, em cujas entranhas puríssimas o Filho de Deus Se fez homem! “A Bem-aventurada Virgem Maria observou, por ordem, estas cinco coisas, ao gerar em si o Verbo de Deus. Primeiro, escutou: “O Espírito Santo descerá sobre ti” (Lucas 1, 35). Depois, consentiu mediante a fé: “Eis aqui a escrava do Senhor” (Lucas 1, 38). Em terceiro lugar, recebeu-O e levou-O no seu seio. Em quarto lugar, pronunciou-O e deu-O a luz. Em quinto lugar, alimentou-O e amamentou-O”.

 II. Et incarnatus est
Nós temos palavras silenciosas, que são os nossos pensamentos, que às vezes se ouvem, quando falamos, e outras vezes até as escrevemos em papel ou noutros suportes, e assim é possível guardá-las, quase tocá-las… 
Também em Deus, como dissémos, há um pensamento silencioso, o seu Verbo eterno, que é o Filho de Deus, gerado pelo Pai. O Verbo de Deus, o seu pensamento eterno e silencioso, seria sempre para nós inteiramente inacessível, a não ser pelas suas obras, mas um dia pôde ser ouvido, pode ser escutado, e até ser visto pelos homens!
S. Tomás de Aquino, no seu Comentário ao Símbolo dos Apóstolos, explica:
“O Verbo de Deus não era conhecido senão pelo Pai, enquanto estava no seio do Pai. Mas logo que se revestiu da carne, tal como o verbo se reveste da voz, tornou-se manifesto e conhecido. Lê-se na Escritura: «Depois disso foi visto na terra, e conviveu com os homens» (Baruc 3, 38)”.
O Verbo de Deus foi ouvido e visto, mas além disso foi também “tocado”, como acontece de certo modo com as palavras que escrevemos:
“Assim também – escreve S. Tomás – o Verbo de Deus tornou-se visível e palpável, quando foi, de certo modo, escrito na nossa carne…”.
O Verbo de Deus fez-Se carne, fez-Se homem, e começou por ser um Menino recém-nascido. Dentro de poucos dias vamos celebrar o Natal, e em todas as missas, quer da noite, quer da aurora, quer do dia, iremos ajoelhar às palavras do Credo:

ET INCARNATUS EST DE SPIRITU SANCTO EX MARIA VIRGINE: ET HOMO FACTUS EST.
 
E ENCARNOU PELO ESPÍRITO SANTO, NO SEIO DA VIRGEM MARIA, E SE FEZ HOMEM.
 


Presépio do Portal Poente da Igreja dos Jerónimos - Nicolau de Chanterenne (1517)

“O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós”, escreve S. João (1, 14). Como diz o Símbolo dos Apóstolos, “foi concebido pelo poder do Espírito Santo; nasceu da Virgem Maria”.
Que benefícios tiramos da Encarnação do Filho de Deus? Grandes benefícios, como são principalmente os seguintes, segundo o Doutor Angélico:
1.       “Confirma-se a nossa fé”. Conhecemos muito mais perfeitamente quem é Deus, como diz S. João: “A Deus, nunca ninguém O viu. O Filho Unigénito, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer” (João 1, 18). Por isso, “muitos mistérios da fé, que antes estavam velados, nos foram revelados após a vinda de Cristo”.
2.       “Eleva-se a nossa esperança”. Ao fazer-Se homem, o Filho de Deus efectuou “uma certa troca, ou seja, assumiu um corpo com uma alma, e dignou-se nascer da Virgem, para nos fazer o dom da sua divindade; fez-Se homem, para fazer o homem, Deus”. Extraordinária consequência! E pensar que, por vezes, os homens fazem tudo para se tornarem animais! Mas o nosso destino e a nossa glória, como diz S. Paulo, está “na esperança da glória dos filhos de Deus” (Romanos 5, 2).
3.       “Inflama-se a caridade”. S. João não se cansa de nos lembrar que “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito” (João 3, 16). “Portanto, por esta consideração, se deve reacender e inflamar o nosso amor para com Deus”.
4.       “Em quarto lugar, para conservação da pureza de nossa alma”. A natureza humana foi elevada à união com uma Pessoa divina. A Encarnação do Filho de Deus deu à humanidade uma dignidade inaudita. “O homem, pois, reconsiderando e atendendo à sua própria exaltação, deve perceber como se degrada e avilta a si e à sua natureza, pelo pecado”.
5.       “Em quinto lugar – conclui S. Tomás – a meditação dos mistérios da Encarnação aumenta em nós o desejo de nos aproximarmos de Cristo”. E usa uma comparação: “Se alguém, irmão de um rei, estivesse longe dele, naturalmente desejaria aproximar-se dele, estar com ele, permanecer junto dele. Ora, sendo Cristo nosso irmão, devemos desejar estar com Ele e unirmo-nos a Ele. (…) S. Paulo desejava partir para estar com Cristo: esse desejo cresce também em nós pela consideração do mistério da Encarnação”.
Concluindo

Às vezes fala-se da actual crise económica, como se fosse a pior calamidade que alguma vez nos poderia acontecer, mas isso é de um grande irrealismo, como se não tivesse havido ou não possa vir a haver crises muito maiores! Há que relativizar a crise, sem esquecer, evidentemente, os que ela possa afectar mais gravemente, sobretudo os doentes, os idosos, as famílias onde há pessoas sem trabalho, e que é preciso ajudar e apoiar.
Mas que ninguém cometa o erro de celebrar o Natal mais tristemente, só por causa da crise. Mesmo com dificuldades, é possível ter um Natal feliz e alegre. Veja-se a alegria de Nossa Senhora, quando rapidamente se pôs a caminho, ao encontro de Isabel, que estava para ser mãe. E veja-se a alegria daquele que viria a ser S. João Baptista, então ainda no seio de Isabel, tocado pela presença oculta do Salvador, no seio de Maria, sua Mãe (Lucas 1, 39-41).
Também nós, levando Jesus no coração, podemos transmitir aos outros a alegria do seu Santo Nascimento!
Vamos viver um Natal cristão, na simplicidade e na alegria, no ambiente unido e caloroso das nossas famílias e na assembleia sagrada e festiva da grande Igreja. Nas poucas horas que restam, que não fique ninguém sem receber o perdão de Deus na Confissão, para poder fazer da sua alma o presépio vivo do Verbo Encarnado, do Filho de Deus feito homem.

sexta-feira, dezembro 21, 2012

A nova Eva


O primeiro homem e a primeira mulher recebem na Sagrada Escritura o nome de Adão e Eva, como se lê no Génesis.

 
Pe. Marko Rupnik, Adão e Eva, Sacristia da Catedral de Santa Maria Reale da Almudena, Madrid (2005)


Existiram mesmo Adão e Eva? Sim, a Igreja ensina-nos que existiu um primeiro homem e uma primeira mulher criados por Deus: o seu corpo pode ter vindo de uma matéria pré-existente, (eventualmente a partir de outros seres inferiores, chamados hominídeos), mas a sua alma foi directamente criada por Deus, e foi isso que os tornou humanos.

Os nomes que a Sagrada Escritura lhes dá têm um inegável simbolismo e uma grande beleza, que vale por si. São os nossos primeiros pais.

Como verdadeiramente humanos, tinham as mesmas capacidades e necessidades naturais que nós temos. Tinham fome e sede, sentiam frio e calor, etc., eram capazes de pensar, de raciocinar, de abstrair, conheciam coisas e possuíam, como nós, uma infinita capacidade de conhecer mais coisas. Tinham também sentido religioso, uma vez que, como seres humanos, seriam capazes de conhecer a causa última de todas as coisas e o supremo bem, que é Deus.

Como simples seres humanos, poderiam ser felizes, embora de um modo imperfeito e incompleto, como acontece com todos.

Mas Deus tinha-lhes oferecido também outros dons, que iam para além da natureza: podiam viver harmoniosamente consigo mesmos e com o mundo, não tinham uma inclinação mais forte para o mal do que para o bem, e podiam não morrer (ou morrer de outra maneira, sem ser deste modo tão duro e tão doloroso, como acontece connosco).

Deus tinha-lhes também oferecido dons sobrenaturais propriamente ditos: estavam unidos a Deus, tinham um fortíssimo sentimento da presença de Deus, tinham nas suas almas a graça de Deus.

Mas estes dons estavam condicionados à obediência dos nossos primeiros pais, e, segundo o Génesis, Adão e Eva não obedeceram. O problema não foi tanto comer aquele “fruto”, mas a rebelião para com o Criador. E, devido a essa desobediência, a que se chamou mais tarde “pecado original”, perderam a graça de Deus e todos os dons que iam para além da natureza.

Todos esses dons eram totalmente gratuitos (como acentua Pio XII, na Encíclica Humani generis, n. 26). Não os podiam exigir. Quando os perderam, ficaram entregues a si próprios: Deus não os abandonou, mas o paraíso fechou-se.

Começou então uma longa caminhada, difícil e árdua, que continuará enquanto existirem seres humanos sobre a terra.

A partir de então, todos os homens nascem sem Deus na sua alma, como alguém que recebe em herança um terreno que poderia ser uma grande vinha ou uma bela seara ou um jardim encantador, mas que é apenas um terreno inculto, embora, com grande esforço, possa vir a ser cultivado, e produzir uma boa colheita, ou ser coberto de flores maravilhosas.

Graças à dolorosa Paixão e morte de Cristo, recuperámos a amizade de Deus e a graça divina pode ser-nos de novo comunicada, como acontece pela primeira vez no nosso baptismo.

Já quanto aos dons que iriam para além da natureza, não os recuperaremos nunca mais: teremos sempre esta inclinação para o mal (embora a possamos vencer, com a ajuda de Deus), esta desarmonia interior, este desequilíbrio em relação ao mundo exterior, esta necessidade de morrer com uma morte que é separação e divisão. 

Entretanto, o primeiro pecado, com o estado de privação e desarmonia que trouxe consigo, abriu as portas a muitos outros males e pecados, como um rio que transborda as margens e entra nas casas, inundando tudo e muitas vezes levando consigo a morte e a destruição.

Todos os homens foram (e são) atingidos, menos uma única pessoa: a Mãe do Salvador, cujo doce nome é Maria, não foi atingida pela maré negra do pecado original e dos outros pecados pessoais. Assim o proclama e canta da fé da Igreja. Nunca foi manchada, não precisou de ser limpa. Nunca foi ferida, não precisou de ser curada. Foi protegida por Deus, foi preservada do pecado, tendo Deus em vista os méritos futuros da morte de Cristo, do seu sacrifício, oferecido e aceite por amor.

A Santa Maria, Deus não precisa de perguntar: «Que fizeste?» Só tem que lhe anunciar o seu plano, segundo o qual ela será mãe do Filho eterno, a quem dará a humanidade que Ele quis partilhar connosco

E então ela responderá: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”. 

A Eva, Deus perguntou: «Que fizeste?», Mas Maria, a nova Eva, diz simplesmente "Faça-se, Fiat mihi secundum verbum tuum".

Um antigo monge do Oriente, S. Simeão o Novo Teólogo (c. 949-1022), num famoso hino (Hino 53), apresenta as consequências da cegueira espiritual humana:

 
Quando criei Adão, permiti-lhe que Me visse
e por isso que ficasse colocado na dignidade dos anjos. [...]
Ele via tudo o que Eu havia criado com os seus olhos corpóreos,
mas com os da inteligência
via o Meu rosto, o rosto do seu Criador.
Contemplava a Minha glória
e conversava Comigo o tempo todo.
Mas quando, transgredindo as Minhas ordens,
provou da árvore,
ficou cego
e caiu na obscuridade da morte. [...]

Mas Eu tive piedade dele e vim lá do alto.
Eu, o absolutamente invisível,
partilhei a opacidade da carne.
Recebendo da carne um começo, tornado homem,
fui visto por todos.
Por que aceitei fazer isso?
Porque esta era a verdadeira razão
para ter criado Adão: para Me ver.
Quando ele ficou cego
e, na sequência dele, todos os seus descendentes,
não suportei permanecer
na glória divina e abandonar [...]
aqueles que criara com as Minhas mãos;
mas tornei-Me semelhante em tudo aos homens,
corporal com os corporais,
e uni-Me a eles voluntariamente.
Por aqui podes ver o Meu desejo de ser visto pelos homens. [...]
Como podes então dizer que Me escondo de ti,
que não Me deixo ver?
Na verdade, Eu brilho, mas tu não olhas para Mim.

A Mãe de Deus fez voto de virgindade?


Beato Angélico, Anunciação (porm.) 
 
Precioso ensinamento de S. Tomás de Aquino, na Summa Theologiae, IIIª parte, questão 28, artigo 4:
 

A Mãe de Deus fez voto de virgindade?

Objecções: 1. Diz a Escritura: Não haverá em ti estéril nem de um nem de outro sexo (Deut 8, 14). Ora, a esterilidade é consequente à virgindade. Logo, a conservação da virgindade era contra o preceito da lei antiga. Ora, a lei antiga ainda vigorava quando Cristo nasceu. Portanto, nesse tempo, a Santa Virgem não podia licitamente fazer voto de virgindade.
2. O Apóstolo diz: Quanto porém às virgens, não tenho mandamento do Senhor, mas dou conselho (1 Cor 7, 25). Ora, a perfeição do conselho devia começar com Cristo, que é o fim da lei (Rom 10, 4), como diz o Apóstolo. Logo, não foi conveniente que a Virgem fizesse voto de virgindade.
3. A Glosa a 1 Tim 5, 12 diz: Aos que fizeram voto de castidade é condenável não só casar, mas querer casar. Ora, a Mãe de Cristo não cometeu nenhum pecado condenável, como se estabeleceu. Logo, como foi desposada, parece que não fez voto de virgindade.
Em sentido contrário, Santo Agostinho escreve: Ao anjo que lhe anunciava, Maria respondeu: Como se fará isso, pois eu não conheço varão? O que certamente não diria, se antes não tivesse feito voto da sua virgindade a Deus (cf. De sancta virginitate, 4).
Resposta: Como estabelecemos na Segunda Parte, as obras de perfeição mais louváveis são quando celebradas com voto. Ora, a Virgindade devia por excelência resplender na Virgem Mãe, pelas razões já aduzidas. Por isso foi conveniente que consagrasse por voto a sua virgindade a Deus. Ora, no tempo da lei, tanto as mulheres como os varões deviam gerar, porque a propagação do culto de Deus dependia de uma nação rica em homens, antes de Deus ter nascido desse povo. Por isso, não se crê que a Mãe de Deus tivesse, absolutamente falando, feito voto de virgindade, antes de desposar José; mas, embora tivesse o desejo de o fazer, submeteu, contudo, a sua vontade ao arbítrio divino. Mas depois que recebeu esposo, como o exigiam os costumes do tempo, fez com ele voto de virgindade.
Soluções: 1. Como parecia proibido pela lei não se esforçar por deixar descendência na terra, a Mãe de Deus não fez voto de virgindade, absolutamente, mas, condicionalmente, isto é, se agradasse a Deus. Mas depois de ter conhecido que Deus assim o aceitara, fez voto absoluto de virgindade, antes da anunciação.
2. Assim como a plenitude da graça foi perfeita em Cristo, e contudo certas graças preexistiram incoativamente em sua mãe, assim também a observância dos conselhos, que se realiza pela graça de Deus, encontrou a sua primeira perfeição em Cristo, mas de algum modo teve início na Virgem, sua mãe.
3. As palavras citadas de S. Paulo devem entender-se como aplicáveis aos que fazem voto absoluto de castidade, o que a Mãe de Deus não fez antes de ter desposado José. Mas, depois de o ter desposado, ao mesmo tempo que o seu esposo e de comum acordo, fez voto de virgindade.
Assim, portanto, S. Tomás apela a uma intuição interior de Maria, suficientemente poderosa para a fazer entregar-se a Deus no próprio momento em que se desposa com José. Mas apela também a uma intuição semelhante em José, intuição que a mentalidade judaica de então não excluía forçosamente, como se vê nos essénios, ou em João Baptista. Que extraordinária perspectiva nos abre este pensamento sobre a união de Maria e de José! (Jean- Pierre Torrell O.P, Nota a Summa Theologiae, III, q. 28, a. 4, em : Somme Théologique, III, Ed. du Cerf, Paris, 1996, p. 226)