domingo, dezembro 16, 2012

Do homem em sentido biológico ao homem em sentido teológico


Alguns jovens filósofos norte-americanos, como Edward Feser e Kenneth W. Kemp têm realizado um esforço sério no sentido de reflectir sobre a compatibilidade das teorias científicas hoje mais consensuais sobre a origem do homem, nomeadamente no âmbito da genética, com os dados da Revelação divina, tal como o Magistério da Igreja os expôs e interpretou.
Sob a influência dessas hipóteses científicas, é fácil descartar como inútil a imagem do homem que se reflecte no Génesis ou na teologia tradicional.
E, no entanto, uma abordagem mais serena e objectiva poderá levar a conclusões diferentes, como fazem os autores acima citados, propondo, não uma visão «concordista» no sentido pejorativo da palavra, mas uma efectiva harmonia entre os dados da ciência e a doutrina da fé, o que, pensando bem, não é assim tão surpreendente que possa acontecer.

Toda a questão começa aqui: em diversos textos bíblicos, a origem da humanidade é feita remontar a um único homem. Nomeadamente, no discurso de S. Paulo em Atenas, lemos esta frase: Deus «fez, a partir de um só homem todo o género humano para habitar sobre toda a face da terra» (Actos 17, 26) (citado pelo Catecismo da Igreja Católica, n. 360). 
Recordemos outros dois textos, ambos de S. Paulo, que falam de “um só homem” mas agora olhado como origem da situação pecadora da humanidade.
No primeiro desses textos, da Epístola aos Romanos, lemos: “Por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todo o género humano, porque todos pecaram...” (Romanos 5,12; cf. 5, 17-19).
E no segundo, da 1ª Carta aos Coríntios, lemos: “Assim como a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos. Assim como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos voltarão à vida” (1 Coríntios 15,21-22).
No cânon 1 do Decreto sobre o pecado original da Sessão V do Concílio de Trento (de 17 de Junho de 1546), diz-se "que o primeiro homem Adão, depois de transgredir o preceito de Deus no paraíso, perdeu imediatamente a santidade e a justiça em que havia sido constituído; e que pela sua prevaricação incorreu na ira e indignação de Deus e por isso na morte que Deus antes lhe havia ameaçado, e, com a morte, na escravidão e no poder daquele que depois teve o império da morte (Hebreus 2, 14), a saber, o demónio; e que Adão, por aquela ofensa, foi segundo o corpo e a alma mudado para pior".
no séc. XX, o Papa Paulo VI, no Credo do Povo de Deus, proferido em 30 de Junho de 1968, na solene conclusão do Ano da Fé, usa uma linguagem semelhante:

“Cremos que todos pecaram em Adão; isto significa que a culpa original, cometida por ele, fez com que a natureza, comum a todos os homens, caísse num estado no qual padece as consequências dessa culpa. Tal estado já não é aquele em que no princípio se encontrava a natureza humana em nossos primeiros pais, uma vez que se achavam constituídos em santidade e justiça, e o homem estava isento do mal e da morte. Portanto, é esta natureza assim decaída, despojada de dom da graça que antes a adornava, ferida em suas próprias forças naturais e submetidas ao domínio da morte, é esta que é transmitida a todos os homens. Exactamente neste sentido, todo homem nasce em pecado. Professamos pois, segundo o Concílio de Trento, que o pecado original é transmitido juntamente com a natureza humana, pela propagação e não por imitação, e se acha em cada um como próprio” (n. 16).  

Também o Catecismo da Igreja Católica se refere ao “primeiro homem” (n. 374), retoma a expressão: “os nossos primeiros pais” (n. 375), e fala das consequências da sua “queda” para toda a humanidade (nn. 397-406).
Todos estes textos, como é sabido, se fundamentam nos capítulos 1 a 3 do livro do Génesis, onde lemos que os pais de toda a humanidade foram Adão e Eva, e também que o pecado de ambos afectou toda a sua descendência.
A ciência genética moderna, porém, leva a afirmar (como faz Francisco J. Ayala, num artigo de 1995) que os seres humanos actuais descendem de um grupo de cerca de 10.000 indivíduos, e não de dois indivíduos apenas.
Em face dos dados da ciência, nomeadamente da genética, há bastantes pessoas que pensam que devemos abandonar esta doutrina, ensinada pela Igreja durante séculos, ou pelo menos que devemos adaptá-la. Mas isso não afetará todo o edifício da fé?
A questão é muito importante, e há dois pontos principais que deveríamos esclarecer.
Primeiro: a biologia moderna permite afirmar que a raça humana começou com um único casal, de acordo com a história bíblica de Adão e Eva?
Segundo: a biologia moderna permite afirmar que este primeiro casal humano transmitiu a mancha do pecado original aos seus descendentes, por propagação e não por simples imitação?
 
 
Lucas van Leyden, Adão e Eva (Expulsão do paraíso) (1510)

Compartilho a abordagem do filósofo norte-americano Edward Feser, e concordo em que a resposta a ambas estas perguntas deverá ser: «Sim»! 
Hoje vou procurar brevemente mostrar porquê em relação à primeira pergunta e, numa próxima ocasião, em relação à segunda.
Ponto de partida: Que é o homem? Que é o ser humano?
Segundo o ponto de vista da filosofia de Aristóteles e de S. Tomás, a resposta será, sem dúvida, que o ser humano é um animal racional.
Atenção, sendo racionais, também somos animais, e somo-lo na medida em que temos as típicas capacidades dos animais em geral: nutrição, crescimento, reprodução, sensação, apetite e locomoção. Estas são capacidades puramente materiais, e requerem órgãos corpóreos para o seu exercício.
Mas somos racionais, na medida em que possuímos inteligência e vontade. Estas são capacidades imateriais, e não dependem directamente de nenhum órgão do nosso corpo, embora dependam desses órgãos indiretamente.
A inteligência implica a capacidade de formular conceitos abstratos, como por exemplo o conceito de homem, ou de ser mortal, de os associar em pensamentos completos, como o pensamento de que todos os homens são mortais, e de raciocinar de uns para os outros de acordo com as leis da lógica, como neste «silogismo»: Todos os homens são mortais – Sócrates é homem – Sócrates é mortal
Tudo isto está muito acima da sensação e da imaginação que partilhamos com os outros animais. Ora, o que nos torna capazes destas atividades imateriais, como por exemplo pensar, é a nossa alma espiritual.
No homem há anseios, profundos desejos, «brechas» que o levam a interrogar-se sobre Deus, e ao mesmo tempo lhe permitem detectar a sua alma imortal:

“Com a sua abertura à verdade e à beleza, com o seu sentido do bem moral, com a sua liberdade e a voz da sua consciência, com a sua ânsia de infinito e de felicidade, o homem interroga-se sobre a existência de Deus. Nestas aberturas, ele detecta sinais da sua alma espiritual. «Gérmen de eternidade que traz em si mesmo, irredutível à simples matéria», a sua alma só em Deus pode ter origem” (Catecismo da Igreja Católica, n. 33).

A alma humana não pode ter uma origem material. Na verdade, tem de ser directamente criada por Deus, sempre que um novo ser humano começa a existir.
O Catecismo da Igreja Católica, citando Pio XII e Paulo VI, lembra expressamente que “a Igreja ensina que cada alma espiritual é criada por Deus de modo imediato e não produzida pelos pais; e que é imortal, isto é, não morre quando, na morte, se separa do corpo; e que se unirá de novo ao corpo na ressurreição final” (n. 366).
Na alma, não há evolução possível. Em relação ao corpo humano, sim, pode ter havido evolução, e até uma longa evolução. Mas em relação à alma, não: ou ela existe ou não existe. E, se existe, só pode ter sido criada por Deus.
Em 1950, na Encíclica Humani generis, Pio XII deu liberdade para se admitir a evolução em relação ao corpo humano:
 
“O Magistério da Igreja não proíbe que, em conformidade com o atual estado das ciências e da teologia, seja objeto de investigações e discussões, entre peritos de ambos os campos, a doutrina do evolucionismo, enquanto essa investiga a origem do corpo humano, que proviria de matéria viva preexistente – pois a fé nos obriga a afirmar que as almas são diretamente criadas por Deus” (n. 36).
 
Já em relação aos «pais» da humanidade, Pio XII exclui o poligenismo, e afirma que não é aceitável afirmar que haja homens que não sejam descendentes de Adão:
 
“Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; pois não se vê de modo nenhum de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles (cfr. Romanos 5, 12- 19; Concílio de Trento. sess. V, can. 1-4)" (n. 37).
 
Então, como surgiu o homem?
Admitindo que tenha havido uma evolução física em relação ao homem, à luz da fé podemos formular a hipótese de que, num grande grupo de «humanos» em sentido puramente biológico, houve um par que foi dotado por Deus de uma alma espiritual; e estes foram, em sentido metafísico e em sentido teológico, o primeiro homem e a primeira mulher.
É a eles que a Sagrada Escritura dá os nomes, expressivos e belos, de Adão e Eva.
A partir daí, todos os descendentes de Adão receberão – como nós próprios recebemos – uma alma espiritual. É isso que nos faz humanos.
Como se explica então que a população humana moderna tenha os genes de vários milhares de indivíduos?
O filósofo americano Kenneth W. Kemp, propõe esta explicação (num artigo que seria bom ler na íntegra):
 
“Estes primeiros verdadeiros seres humanos também têm descendentes, que continuariam, em certa medida, a cruzar-se com os hominídeos não dotados de alma entre os quais vivem. Se Deus tiver dotado cada indivíduo com um só ancestral metafisicamente humano de um intelecto próprio, uma taxa razoável de sucesso reprodutivo e uma razoável vantagem selectiva levariam a substituir facilmente uma população de hominídeos não dotados de alma de 5.000 indivíduos, por uma população (filosoficamente e, se os dois conceitos são equivalentes, teologicamente) humana no prazo de três séculos. Ao longo deste processo, todos os (teologicamente) seres humanos seriam descendentes de um único casal humano original (no sentido de terem aquele casal humano entre os seus antepassados) sem nunca ter havido um 'engarrafamento' populacional na espécie humana”.
 
Os homens actuais seriam assim, ao mesmo tempo, descendentes de um só par e de uma população inicial de milhares de indivíduos, como explica Edward Feser:
 
"Assim não há nenhum problema de conciliar as alegações em questão. No cenário proposto, a população humana moderna tem os genes que tem, porque é descendente de um grupo de vários milhares de indivíduos, dos quais só dois tinham almas espirituais. Mas somente aqueles indivíduos que tinham este par entre os seus antepassados (mesmo que eles também tivessem como antepassados membros do grupo original que não tinha almas imateriais) têm descendentes que vivem hoje. Nesse sentido, todos os seres humanos modernos são tanto descendentes de uma população original de milhares como de um par original. Não há nenhuma contradição porque a alegação de que os seres humanos modernos são descendentes de um par original não implica que eles tenham recebido todos os seus genes desse par apenas. Como Flynn salienta, críticos como Jerry Coyne confundem a alegação de que há um homem de quem todos os seres humanos modernos são descendentes - uma declaração que faz parte da doutrina do pecado original - com a alegação de que todos os seres humanos modernos são descendentes de um único homem - uma afirmação que não precisa de ser entendida como parte da doutrina. E como Flynn também aponta, é, sem dúvida, só do macho do par, e não do casal, que a doutrina exige que todos os seres humanos modernos sejam descendentes".
 
Aqui está uma boa via para reconciliar a doutrina da criação do homem, tal como a expõe o Magistério recente, com os factos genéticos. Não é concordismo, trata-se simplesmente de levar a sério, sem excluir nenhuma, tanto a doutrina da fé como a abordagem científica.

CONCLUSÃO

Existem pensadores contemporâneos não fundamentalistas nem criacionistas, mas claramente favoráveis às hipóteses evolucionistas, para quem esta via faz sentido. Se puderem, leiam os textos citados na íntegra, e formulem o vosso juízo.
Criado por Deus, dotado de uma alma espiritual, e mesmo que o seu corpo provenha de uma “matéria pré-existente” (como diz Pio XII), o homem é capaz de pensar e querer, e mais ainda de conhecer e amar a Deus, de O servir e Lhe obedecer.
Será também por isso que, todos os anos, no 1º Domingo do Advento, a Igreja nos propõe cantar no Intróito da Missa:
Ad te levavi animam meam: Deus meus, in te confido, non erubescam (...), Para Vós, Senhor, elevo a minha alma; meu Deus, em Vós confio. Não seja confundido, nem de mim escarneçam os inimigos. Não serão confundidos os que esperam em Vós” (Salmo 24 [25], 1-3)
 
 

 




 
 


segunda-feira, novembro 26, 2012

Onde está o seu reino?

Celebramos hoje a festa de Cristo Rei, que o Papa Pio XI instituiu com a Encíclica Quas primas, de 11 de Dezembro de 1925, fechando com chave-de-ouro aquele Ano Jubilar. (Na altura, foi escolhido o último domingo de Outubro para a nova festa. No calendário actual é celebrada no domingo que antecede o 1º Domingo do Advento).



No Evangelho de hoje, Jesus diz de Si mesmo, dirigindo-Se a Pilatos: “É como dizes: sou Rei” (João 18, 37).

Mas, se Jesus é Rei, onde está o seu reino?
 
Está, ou deve estar, antes de mais, em nós, nos nossos corações. “Cristo deve reinar, em primeiro lugar, na nossa alma. (…) Se pretendemos que Cristo reine, temos de ser coerentes, começando por Lhe entregar o nosso coração” (S. Josemaría Escrivá, Cristo que passa, n. 181).
Isso não implica que já sejamos perfeitos. Basta que sejamos humildes e simples, como aquele burrinho sobre o qual Jesus montou, quando entrou em Jerusalém. “Se a condição para que Jesus reinasse na minha alma, na tua alma, fosse contar previamente em nós com um lugar perfeito, teríamos razão para desesperar. Mas não temas, filha de Sião; eis que o teu Rei vem montado num jumentinho. Vedes? Jesus contenta-se com um pobre animal por trono” (ibid.).

Mas, além de reinar em nós, gostaríamos muito que Jesus reinasse no coração de todos os homens.
 
Isto não significa que a fé possa ser imposta. Esta convicção acompanhou sempre a acção apostólica da Igreja.

Por exemplo, no séc. XIX, o Papa Leão XIII, na Encíclica Imortale Dei, (de 1 de Novembro de 1885), reafirmou esta doutrina, citando um ensinamento de Santo Agostinho: “É costume da Igreja velar com o maior cuidado para que ninguém seja forçado a abraçar a fé católica contra sua vontade, porquanto, como observa sabiamente Santo Agostinho, «o homem não pode crer senão querendo» (Homilia XXVI sobre S. João, n. 2)".
 
A fé não pode ser imposta. Mas deve ser proposta. Disse Bento XVI, na homilia da Missa que celebrou no Porto, em 14 de Maio de 2010: “Nada impomos, mas sempre propomos, como S. Pedro nos recomenda numa das suas cartas: «Venerai Cristo Senhor em vossos corações, prontos sempre a responder a quem quer que seja sobre a razão da esperança que há em vós» (1 Pedro 3, 15).

E em Munique, na homilia de uma Missa celebrada em 10 de Setembro de 2006, disse: “Não impomos esta fé a ninguém. Um semelhante género de proselitismo é contrário ao cristianismo. A fé pode desenvolver-se unicamente na liberdade. Mas é à liberdade dos homens que apelamos para que se abram a Deus, O procurem, O ouçam".

Sim, propomos, convidamos, desafiamos, mostramos como é bom acreditar, mostramos como a vida se torna melhor, mais feliz, mesmo com lágrimas, mesmo com lutas, quando acreditamos em Deus, quando seguimos Jesus Cristo, na sua Igreja.

Finalmente, julgo poder dizer que desejaríamos que a sociedade, nas suas escolhas mais profundas e decisivas, fosse inspirada pela mensagem do Evangelho, e que Jesus fosse também Rei das sociedades e das comunidades humanas.
Leão XIII, na Encíclica atrás citada, elogiou os tempos em que “a filosofia do Evangelho governava os Estados”.
 
“Nessa época – escreveu o Papa da Rerum Novarum – a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos príncipes e à proteção legítima dos magistrados. Então o sacerdócio e o império estavam ligados em si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a toda expectativa, frutos cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer” (Encíclica Imortale Dei, n. 28).
É fundada esta análise de Leão XIII? São melhores as sociedades inspirada pelo Evangelho? Em Portugal, foram, por exemplo, os tempos de D. João I e do Santo Condestável, S. Nuno de Santa Maria. Seriam tempos melhores ou piores que os de hoje?
Dizer que eram bons os tempos em que “a filosofia do Evangelho governava os Estados” nem não significa de forma nenhuma que seja a Igreja quem deve governar a sociedade, nem que o Papa, os Bispos ou os sacerdotes devam assumir responsabilidades de governação ou quaisquer funções políticas.
Para isso é que existem os governos e as instituições políticas dos diversos povos, sujeitas ao sufrágio das populações.
Mas significa que as sociedades deveriam sempre inspirar-se na “sabedoria cristã”, e portanto respeitar Deus e a sua Lei, e nunca promover ou permitir a aprovação de leis que manifestamente violam a lei moral ou a lei natural. E também que nunca deveriam desistir das suas responsabilidades sociais, e que nunca deveriam deixar entregues à sua sorte os mais débeis e mais pobres.
Se a sabedoria do Evangelho inspirasse as sociedades, não seria muito melhor do que estas serem regidas pelo agnosticismo ou dominadas pela ditadura do relativismo, como actualmente acontece? Não será esta a única solução dos males dos nossos tempos?
 
Pio XI, na Encíclica Quas primas, explica que Cristo é Rei não apenas em sentido metafórico, mas no sentido próprio da palavra. O seu Reino não é deste mundo (João 18, 36), porque não tira deste mundo a sua origem, mas estende-se a este mundo, e nele começa a realizar-se, para um dia florescer eternamente no Céu.
O Reino de Cristo na sociedade humana, desde as famílias ao Estado, é um ideal a atingir.
As condições históricas tornam hoje muito difícil a sua realização, mas não devemos desistir que Cristo reine, não só nos corações, mas também nas sociedades, que serão assim mais equilibradas, mais justas, mais respeitadoras das legítimas diversidades, e também mais fraternas, mesmo com dificuldades, porque alicerçadas na sabedoria de Deus, e construídas na obediência a Jesus Cristo, Redentor, Rei e Amigo de todos os homens.

domingo, novembro 25, 2012

A paz de Cristo no reino de Cristo

Seria interessante ler a encíclica «Quas primas», de Pio XI, datada de 11 de Dezembro de 1925, inteiramente dedicada à Solenidade Litúrgica de Cristo Rei, nos seus aspectos bíblicos, teológicos, litúrgicos e pastorais.
É uma óptima leitura, que alarga os horizontes, tentados a estreitar-se por força da rotina.


 
 
 
 
 
Aqui deixo o seu início:
 CARTA ENCÍCLICA
aos Veneráveis Irmãos Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos e Outros Ordinários em paz e comunhão com a Sé Apostólica: sobre Cristo Rei.
PIO PAPA XI
Veneráveis Irmãos, saúde e bênção apostólica.
INTRODUÇÃO.
1. Na primeira Encíclica, dirigida, em princípios do nosso Pontificado, aos Bispos do mundo inteiro, indagamos a causa íntima das calamidades que, ante os nossos olhos, avassalam o género humano. Ora, lembra-nos haver abertamente declarado duas coisas: uma — que esta aluvião de males sobre o universo provém de terem a maior parte dos homens removido, tanto da vida particular como da vida pública, Jesus Cristo e sua lei sacrossanta; a outra — que baldado era esperar paz duradoura entre os povos, enquanto os indivíduos e as nações recusassem reconhecer e proclamar a Soberania de Nosso Salvador. E por isso, depois de afirmarmos que se deve procurar "a paz de Cristo no reino de Cristo", manifestamos que era intenção nossa trabalhar para este fim, na medida de nossas forças. "No reino de Cristo", — dizíamos; porque, para restabelecer e confirmar a paz, outro meio mais eficiente não deparávamos, do que reconhecer a Soberania de Nosso Senhor. Com o correr do tempo, claramente pressentimos o raiar de dias melhores, quando vimos o zelo dos povos em acudir, — uns pela primeira vez, outros com renovado ardor, — a Cristo e à sua Igreja, única dispensadora da salvação: sinal manifesto de que muitos homens, até o presente como que desterrados do reino do Redentor, por desprezarem sua autoridade, preparam, ainda bem, e levam a efeito sua volta à obediência.
Boa festa de Cristo Rei, conclusão do ano litúrgico!

domingo, novembro 18, 2012

O homem e a sua alma


Continuamos os nossos comentários sobre o Credo, ainda no primeiro artigo: “Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”.
1. A vida na Terra, com toda a sua riqueza geológica e sobretudo com a sua biodiversidade, com extraordinária variedade de seres vivos que nela existem, e em especial de animais de tantas espécies, é assombrosa, admirável, e todo o Universo, com os seus 15 mil milhões de anos (ou talvez um pouco menos: 13, 73 mil milhões de anos), é de uma grandeza fascinante, mas toda esta maravilha ficaria na sombra, não seria valorizada por ninguém – a não ser pelo próprio Criador e pelos Anjos – se não houvesse um ser com um olhar capaz de admirar e uma mente capaz de pensar e uma vontade capaz de pôr em marcha uma infinidade de acções e actuações.
O mundo seria uma imensa paisagem deslumbrante, mas sem ninguém para a contemplar, se não existisse o homem. E, se não existisse o homem, Deus não teria um «interlocutor», não existiria neste mundo nenhum ser «capaz de Deus» (Catecismo da Igreja Católica, n. 35), alguém que O pudesse conhecer, amar e servir livremente, encontrando aí a sua plena felicidade.
Mas o homem existe, e sendo uma espécie entre outras, está ao mesmo tempo tão acima das outras, é tão diferente, está num outro nível!
2. Qual é a principal diferença entre nós, seres humanos, e os outros animais? Espontaneamente diríamos: o nosso cérebro! Na verdade, orgulhamo-nos muito do nosso cérebro, embora haja muitos animais que têm um cérebro com a mesma estrutura que o nosso, por exemplo os ratos e os macacos… Alguns animais têm um cérebro «pequeno», outros têm um cérebro «médio», e nós temos um «supercérebro».
No entanto, segundo a Sagrada Escritura (e também, julgo que o podemos afirmar, segundo a ciência), não é o tamanho do cérebro nem o revestimento do corpo que torna os humanos especiais. Como escreveu um cientista (judeu) norte-americano: “Nós somos qualitativamente diferentes das outras formas de vida. Aquilo que separa os homens de outras formas de vida é a nossa alma espiritual” (Gerald L. Schroeder, Deus e a ciência, Europa-América, 1999, p. 155). (Do mesmo autor: God According To God, HARPERCOLLINS PUBLISHERS INC, 2010)
Talvez se possa descobrir na Sagrada Escritura a alusão a duas fases muito distintas no processo de origem do homem: primeiro, a formação (Génesis 1, 26) e depois a criação propriamente dita (Génesis 1, 27). De facto, a formação do corpo humano pode ter levado milhares de anos a acontecer.
Já o Papa Pio XII, em 1950, na Encíclica Humani Generis, admitia que era lícito buscar “a origem do corpo humano numa matéria viva preexistente”, acrescentando que “a fé nos obriga a reter que as almas são directamente criadas por Deus” (n. 50).
3. Antes do primeiro homem, a quem a Bíblia chama “Adão” (nome que vem de adamah, que significa terra ou solo), houve seguramente muitos hominídeos pré-humanos. “Criaturas menos humanas, com corpos parecidos com os homens e cérebro, existiram antes de Adão” (escreve o mesmo cientista).
Mas o primeiro homem, Adão, só existiu quando recebeu de Deus uma alma espiritual. E isso não durou séculos nem milénios. A criação da sua alma foi instantânea. E então o homem passou a ser o que é, e que os outros pré-humanos ainda não eram nem nunca viriam a ser. Aliás, todos se extinguiram. Só ficou o homem.
A criação de Adão (ícone russo contemporâneo)
Sobre a alma, o recente Catecismo para Jovens, chamado Youcat, diz o seguinte: “A alma é o que faz cada pessoa ser humana, isto é, o seu princípio de vida espiritual, o seu íntimo. A alma faz com que o corpo material se torne um corpo vivo e humano. Através da alma, o ser humano torna-se um ente que pode dizer "eu" e permanece diante de Deus como um indivíduo inconfundível” (n. 62).
Já o Catecismo da Igreja Católica recorda: “A Igreja ensina que cada alma espiritual é criada por Deus de modo imediato e não produzida pelos pais; e que é imortal, isto é, não morre quando, na morte, se separa do corpo; e que se unirá de novo ao corpo na ressurreição final” (n. 366).
4. Com o homem, constituído de corpo e alma, uma mudança imparável no mundo começou a acontecer. Vejamos só alguns eventos. Por volta de 6000 a.C. foi inventado o arado. Esta invenção aconteceu na Mesopotâmia, que seria a terra de Abraão 2000 anos depois. Apareceram as primeiras aldeias, por volta de 5000 a.C. Começou o cultivo de cereais. Surgiu a cerâmica. Por volta de por volta de 3000 a.C., surgiram as primeiras cidades, e na Suméria foi inventada a escrita, não a escrita em alfabeto, mas a escrita “cuneiforme”, e depois a escrita hieroglífica, no Egipto. E então acabou a Pré-História, começou a História.
Enriquecido com a alma espiritual, o homem já não está irresistivelmente dominado pelos instintos, e é capaz de viver em sociedade. E sobretudo é capaz de ter objectivos e de querer ser melhor. Por exemplo, uma pessoa egoísta ou avarenta, pode desejar ser generosa, e pode consegui-lo!
A alma não se vê, é completamente espiritual. “Não obstante, as provas arqueológicas confirmaram a nossa herança bíblica”, escreve também Gerald L. Schroeder (p. 168).
5. A criação da alma por Deus foi revelada na Sagrada Escritura e é objecto de fé. Na luz da fé percebemos ainda mais claramente que “Deus tudo criou para o homem, mas o homem foi criado para servir e amar a Deus, e para Lhe oferecer toda a criação” (Catecismo da Igreja Católica, n. 358).
Percebemos também, como se lê no Youcat, que “todos os seres humanos são iguais na medida em que tem origem no mesmo único amor criativo de Deus. Todos os seres humanos têm em Jesus Cristo o seu salvador. Todos os seres humanos estão ordenados a encontrar em Deus a felicidade e a eterna bem-aventurança. Assim, todos os seres humanos são irmãos e irmãs” (n. 61).
E percebemos claramente ainda que “os cristãos devem viver a solidariedade não apenas com os outros cristãos, mas com todos os seres humanos, opondo-se energicamente à desintegração da família humana, causada por motivos racistas, sexistas e economicistas” (ibid.).
Portanto, e concluímos com o Livro dos Provérbios, citado neste mesmo número: “Abre a tua boca a favor dos que não têm voz, pela causa de todos os fracos”. (Provérbios 31,8).


domingo, novembro 11, 2012

Contemplar o Criador


 
1. No Credo de Niceia-Constantinopla dizemos: “Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”. E no Símbolo dos Apóstolos diz-se: “Creio em Deus, Pai todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra”.

Acreditamos que Deus é o Criador de todas as coisas que existem.
 
 Grande inicial «I», de « In principio creavit Deus»
(Génesis 1, 1) (Bíblia de Marquette – Museu J. P. Getty - séc. XIII)

Isto não significa que Deus tenha feito tudo (materialmente). Por exemplo, a Igreja dos Jerónimos foi construída por muitos operários, dirigidos por um arquitecto (ou por vários arquitectos). Não foi Deus que colocou as pedras nem esculpiu as colunas…

Mas dizemos que Deus é Criador, em três sentidos:

1º - Porque fez que existissem realidades diferentes d’Ele. Podia só existir Deus e nada mais senão Deus, que existe desde toda a eternidade. Mas Deus quis que existissem outros seres, outras «coisas» que não são Deus nem se confundem com Deus:

a)      Primeiro, realidades invisíveis, isto é, espirituais e pessoais, que são os Anjos.

b)     Depois, realidades visíveis, a cuja totalidade chamamos «Universo». Neste imenso Universo (que é imenso mas não infinito…) apareceu a certa altura, porque Deus assim o quis, o Homem, que é um ser único, ao mesmo tempo material e espiritual. (Haverá outros seres como nós? Pelo menos, até agora não os conhecemos…).

2º - Porque dotou a criação material de leis que regulam e dirigem, desde o primeiro momento, a sua existência e o seu desenvolvimento.

3º - Porque sustenta no ser toda a realidade. Se deixasse de o fazer, tudo se «esvaía», e mergulhava no nada. Deus é o fundamento do ser ao nível do ser. Tudo depende de Deus quanto ao ser. É uma dependência total! Sem esta acção do Criador, não existiria qualquer ser fora de Deus!
2. Algumas pessoas pensam que o Universo se explica a si mesmo. Na verdade, conhecemos muitas leis da matéria, e a ciência consegue explicar muitos fenómenos, tanto à escala do imensamente grande como à escala do imensamente pequeno. Por exemplo, os cientistas falam da «fuga das galáxias», e também identificam as partículas elementares do átomo, como a mais recente a ser descoberta, a chamada «partícula de Deus»…
É inegável que o Universo tem leis, que a ciência descobre, interpreta e procura explicar. Mas não podemos fugir a esta questão: qual é a origem dessas leis físicas? Elas não podem nem: a) Ter início com o próprio Universo, porque têm de ser, de algum modo anteriores a ele, para o poder originar ou dirigir; nem: b) Originar-se a si mesmas, porque nada pode ser causa e efeito de si mesmo.
Portanto, é necessário um Criador, que, ao criar o Universo, criou as leis que o regulam e dirigem.
3. Não há muito tempo ainda, (há cerca de dois anos), um físico e matemático inglês muito conhecido, publicou um livro em que diz que Deus já não é necessário para explicar o Universo, porque o Universo se criou ao si mesmo a partir do nada.
Seria possível responder em termos filosóficos que o nada não pode ser sujeito de uma acção, porque não existe, é nada... Para que algo seja sujeito de uma acção, já tem que existir. Mas, se já existe, já não precisa de se criar…
Mas a verdade é que, para este conhecido físico inglês, chamado Stephen Hawking, o nada é «alguma coisa», é um determinado estado físico, não é o nada absoluto.
Um outro cientista explicou que o nada para Stephen Hawking é como uma conta bancária que está a zeros. A dada altura pode crescer e passar a ter um milhão de euros (o que seria óptimo…). Stephen Hawking diz que foi isso que aconteceu com o Universo. O «nada» flutuou, e tudo aconteceu.
Tudo bem… Também a tal conta pode crescer, (por exemplo recebendo juros de uma outra conta), mesmo que tenha estado a zeros… Mas a primeira questão é saber quem abriu a conta, quem criou a conta. Também o «nada» que «flutuou», alguém teve de o criar, para poder «flutuar», e originar essa imensa grandeza que existe hoje.
Portanto, é preciso um Criador, para explicar tanto o «nada» do início como a imensa totalidade, o Universo que hoje existe.
4. S. Tomás de Aquino, no séc. XIII, comentando o Credo, escreveu com beleza e simplicidade: “Deves então acreditar que todas as coisas têm a origem num só Deus, que lhes dá a existência e a perfeição”.
Foi o que afirmou o Papa ao dirigir-se na passada quinta-feira, dia 8 de Novembro, aos participantes na reunião plenária da Pontifícia Academia das Ciências.
O mundo parece fechado a Deus, mas nós desejamos ser capazes de contemplar o Criador, com muito amor e gratidão, e também com muita confiança, porque acreditamos que não nos abandona, mesmo nas horas mais difíceis e nas provas pelas quais temos de passar nesta vida.